11/09/2008

Funbio apóia Yorenka Ãtame

Índios e extrativistas trocam saberes da floresta no Acre

Programa Arpa apóia iniciativa no entorno do Parque Nacional da Serra do Divisor.*













Módulo sobre meliponicultura aconteceu em agosto

Os conhecimentos e a experiência dos índios Ashaninka no manejo sustentável da floresta podem criar uma nova perspectiva para as comunidades não-indígenas do entorno do Parque Nacional da Serra do Divisor. Extrativistas da Resex do Alto Juruá, localizados às margens do Rio Amônia, são os principais beneficiários do Projeto Implantação de Sistemas Agroflorestais (Safs) e Manejo da Meliponicultura, coordenado por Benki Piyanko, liderança indígena da Comunidade Apiwtxa do Rio Amônia, e Sheyla Sant’Anna, gestora técnica e parceira da comunidade. Apoiado pelo Programa Áreas Protegidas da Amazônia (Arpa), por intermédio do Funbio, o projeto é uma das atividades do Centro Yorenka Ãtame, iniciativa cultural e pedagógica inédita dos Ashaninka para levar seus conhecimentos para além dos limites da Terra Indígena Kampa do Rio Amônia.

Por meio da realização de cursos, o Centro Yorenka Ãtame, localizado no município de Marechal Thaumaturgo, promove a troca de saberes índios e não-índios, e neste projeto valoriza a implantação de sistemas agroflorestais e a produção de mel com abelhas nativas como opções mais saudáveis e sustentáveis para a manutenção das comunidades e da floresta. Os cursistas recebem casa, alimentação, pouquíssimas aulas teóricas e muitas práticas, e ainda podem visitar a aldeia Ashaninka para ver o que já está dando certo: fartura de comida nas casas, crianças saudáveis, cestos cheios de alimentos e caixas de abelhas espalhadas pelos quintais. A criação de abelhas nativas é um dos principais módulos do curso porque elas aumentam a polinização e trazem alimento suplementar à dieta das famílias.











Nina Kahn, do Funbio, acompanha atividade no Centro

O apoio do Arpa para o projeto, iniciado em julho de 2008 e com previsão de término no início de 2010, está vinculado ao subcomponente Participação Comunitária, que incentiva o fortalecimento das populações vizinhas às unidades de conservação de proteção integral apoiadas pelo programa. No caso do Parque Nacional da Serra do Divisor, o projeto tem como objetivo principal mostrar às famílias não-indígenas desalojadas pela criação do parque uma alternativa à derrubada de floresta no assentamento criado para recebê-las às margens do Rio Amônia. O desmatamento é incentivado pelo Incra, por meio de crédito, sendo considerado benfeitoria no processo de titulação definitiva das terras.

O projeto é realizado em sintonia com as atividades da Comissão Pró-Índio (CPI-AC), que também está recebendo apoio do Arpa dentro do subcomponente de participação comunitária. Alguns módulos de formação oferecidos pela CPI vão ocorrer no Centro Yorenka Ãtame e os Ashaninka poderão incluir seus bolsistas e alunos nessas capacitações. Essa ONG acreana foi pioneira no trabalho de formação de agentes agroflorestais indígenas e certamente plantou a semente do empreendedorismo entre os Ashaninka.

Mais sobre o Centro Yorenka Ãtame

Criado há um ano e meio, o Centro Yorenka Ãtame foi idealizado por sete irmãos para realizar um sonho do avô, Samuel Piyanko: promover a união de índios e brancos para perpetuar a principal fonte de abastecimento de suas famílias e vizinhos – a floresta viva, em pé.

O início dos trabalhos se deu em 2007, com a capacitação de jovens índios e não-índios (ainda em curso), e contou com financiamento da empresa Neutralize, voltada para projetos de neutralização de carbono. Índios Ashaninka do Peru, da Comunidade Tamaya, são presença nas capacitações. Todos os jovens, homens e mulheres, sejam índios ou não, recebem bolsas para trabalhar e aprender no Centro, que foi construído em uma área de pasto que está sendo totalmente reflorestada.

Fotos: Nina Kahn e Sheyla Sant'Anna















Dona Maritô, da Resex do Alto Juruá, participa de capacitação

Os Ashaninka já trabalharam com madeira e caucho e convivem há cinco gerações com a população de não-índios, hoje ocupantes da Reserva Extrativista do Alto Juruá. Eles vêm observando as alterações aceleradas na paisagem que circunda suas terras, causadas, sobretudo pela conversão da floresta em pastagens. Foi este contexto que motivou as lideranças da comunidade a instalar o Centro Yorenka Ãtame, em Marechal Thaumaturgo, a referência urbana mais próxima das unidades de conservação da região. Construído na outra margem do rio Juruá, onde se localiza a cidade.

Na aldeia, os Ashaninka criam peixes e tracajás em açudes que já estão com capacidade de produção para extrativismo. Além disso, estão redefinindo uma área de criação de jabutis, já que a anterior foi destruída por uma imensa inundação, ocorrida este ano, que causou muitos prejuízos aos ribeirinhos amazônicos de modo geral. A formação de açudes para essa finalidade também está na agenda do Centro Yorenka Ãtame, que já tem seu viveiro em formação.

Outra inovação do Centro foi sua inserção na era digital, realizada por meio da Rede Povos da Floresta, iniciativa de uma Ong carioca, a Associação de Cultura e Meio Ambiente, e viabilizada com o apoio dos ministérios das Comunicações, da Cultura e do Meio Ambiente. Hoje eles possuem antenas parabólicas instaladas e computadores que permitem a comunicação entre as comunidades da floresta e um constante trabalho de denúncia contra a ação de madeireiras peruanas na região. São nove pontos de internet no Alto Juruá.

* Funbio Informa, 11/09/2008.
Colaboraram Marina Kahn (Funbio) e Sheyla e Sant’Anna (Associação Apiwtxa)

Leia mais sobre o Centro Yorenka Ãtame, aqui:
- Escola Saberes da Floresta Yorenka Ãtame
- A história do Yorenka Ãtame

24/08/2008

Etnia ashaninka denuncia ação da Petrobras em terras de índios isolados

por Altino Machado*

Lideranças ashaninka da Terra Indígena Kampa do Rio Amônia, no Brasil, dizem que a Petrobras está preparada para iniciar atividades de prospecção e exploração de petróleo e gás, no alto rio Juruá, no Peru, em lote sobreposto a territórios de comunidades nativas e de índios isolados

- A nosso ver, a intenção da Petrobrás constitui uma flagrante e condenável contradição com o discurso de responsabilidade socioambiental adotado pela empresa no Brasil e com a legislação que a empresa é obrigada a respeitar em nosso país - afirma documento da Associação Ashaninka, presidida por Moisés da Silva Piyãko (foto), enviado ao presidente da Unión de Comunidades Indígenas Fronterizas del Peru (UCIFP), Edison Panayfo. [Leia o documento na íntegra, AQUI]

O posicionamento dos ashaninka, que vivem no Acre, na fronteira com o Peru, é uma resposta ao convite que receberam para participar do “I Taller de Capacitación y Fortalecimiento en Actividades de Hidrocarburos para Líderes Indígenas”, na Comunidad Nativa Nueva Shauaya, para discutir temas relacionados à prospecção e exploração de petróleo e gás, preparar as comunidades indígenas para os “os novos desafios do desenvolvimento sustentável” e “lograr relações harmoniosas entre o Estado, as empresas petrolíferas e as comunidades”.

Aproveitando possibilidade aberta pela legislação peruana, a empresa brasileira Petrobras Energia Peru S.A. tornou-se, em dezembro de 2005, concessionária, por um período de 40 anos, do Lote 110, localizado no alto rio Juruá peruano, em águas binacionais, com extensão de 1,4 milhão de hectares. O lote é sobreposto à Reserva Territorial Murunahua e a territórios de comunidades ashaninka, jaminawa e amahuaca, já titulados ou reivindicados.

A leste, o lote tem limites, ainda, com o Parque Nacional Alto Purús, estando sobreposto à sua zona de amortecimento, no trecho onde está a Reserva Territorial Mashco-Piro, criada em 1997 para proteger grupos isolados Mashco-Piro.

Conseqüências no Brasil

Os ashaninka assinalam que, nos últimos 15 anos, têm planejado e posto em prática ações voltadas ao aproveitamento sustentado dos recursos naturais de seu território e a melhoria da vida de suas famílias. Com iniciativas próprias e mobilizando órgãos do Estado brasileiro, têm procurado vigiar e defender os limites de sua terra indígena e alertar para as graves conseqüências sociais e ambientais da atividade madeireira em territórios indígenas e unidades de conservação em ambos os lados da fronteira Brasil-Peru, especialmente nos altos rios Juruá, Amônia e Tamaya.

- As concessões feitas nos últimos anos pelo Estado peruano a empresas de vários países de lotes destinados a prospecção e exploração de petróleo e gás no alto rio Juruá e no rio Tamaya, sem qualquer consulta prévia, informada e de boa fé aos povos e comunidades indígenas sobre cujos territórios os lotes foram estabelecidos de forma unilateral, é uma clara violação à Convenção 169 da Organização Internacional do Trabalho (OIT) e à Declaração das Nações Unidas sobre os Direitos dos Povos Indígenas - afirma o documento.

Segundo os ashaninka, a concessão de lotes para a prospecção e exploração de petróleo e gás em florestas banhadas por bacias hidrográficas binacionais, em regiões de fronteira internacional, caso dos rios Juruá e Amônia, poderá causar graves conseqüências ambientais às comunidades que vivem em terras indígenas e unidades de conservação do lado brasileiro e comprometer fontes de água utilizadas para consumo humano em sedes municipais e comunidades na floresta.





















No caso do Alto Juruá peruano, a concessão de lotes de petróleo e gás pelo governo peruano criou sobreposição com a quase totalidade da Reserva Territorial Murunahua, área de 481.560 hectares, criada em 1997 para a proteção de povos indígenas isolados murunahua, chitonahua e outros.

- A pretensão das empresas canadenses True Energy Trust e North American Vanadium Inc., de dar início à prospecção e exploração de petróleo e gás em sua concessão no Lote 126, que tem extensão de pouco mais de um milhão de hectares, está situado na fronteira internacional, coincide com parte do limite oeste de nossa terra indígena no rio Amônia e do Parque Nacional da Serra do Divisor, e encontra-se sobreposto a territórios não titulados de comunidades Ashaninka no alto rio Tamaya.

Os ashaninka acusam a política de desenvolvimento do governo peruano no Alto Juruá de estar associada a empresas transnacionais, optando por promover a prospecção e a extração de petróleo e gás em região fronteiriça, onde a atividade madeireira continua a causar imensos prejuízos ambientais.

A consequência tem sido a invasão de reservas territoriais e unidades de conservação, a abertura de extensa rede de estradas e caminhos, a destruição de recursos florestais e da fauna, a inutilização de áreas utilizáveis para a agricultura e a contaminação de fontes de água, além de correrias (matança organizada de índios), contatos e migrações forçados de índios isolados, violações dos direitos humanos e trabalhistas e a desestruturação das formas de organização comunitária, política e cultural em várias comunidades.

Danos irremediáveis

O evento da UCIFP foi interpretado pelo ashaninka como evento bipartite e não triparte como era pretendido. Eles dizem que os interesses e as ações de governo peruano e das empresas concessionárias aparecem de maneira articulada e indissociada: foi o governo que, por meio de suas políticas, concedeu os lotes às empresas e agora atua, sob a fachada da “capacitação”, como facilitador de processos de negociação entre empresas e organizações e comunidades indígenas, visando que estas dêem seu consentimento ao inicio das atividades de prospecção e exploração de petróleo e gás sobre seus territórios.

- Ao contrário do que procura fazer crer a convocatória do “taller”, encaminhada pela UCIFP, não acreditamos que a atividade de extração de petróleo e gás abra qualquer alternativa de desenvolvimento sustentável para as comunidades e territórios indígenas no Alto Juruá.

Segundo o documento das lideranças ashaninka, “ainda que venham a ser executadas ações para a prevenção, a mitigação e a compensação dos impactos sociais e ambientais inicialmente previstos, as conseqüências da prospecção e da exploração de petróleo e gás serão definitivas e irremediáveis sobre os recursos naturais (água, florestas, caça e pesca) das quais as comunidades dependem para sua sobrevivência imediata e futura, sobre as condições de saúde das comunidades e sobre suas formas próprias de organização social, política e cultural”.

Os ashaninka lamentam que a UCIFP, acusada de estar associada com os interesses da empresa madeireira Forestal Venao SRL, decida discutir agora a possibilidade da operação de empresas petrolíferas nos territórios das comunidades que representa, especialmente em reserva territorial destinada a índios isolados, que nenhuma possibilidade têm de ser consultados.

* Altino Machado, Blog da Amazônia, Agosto 21, 2008

Saiba mais:
- ASHANINKA DENUNCIA PETROBRAS, no Blog do Altino
- OS ASHANINKA TORNAM PÚBLICA SUA POSIÇÃO QUANTO À PROSPECÇÃO, no Blog da Apiwtxa


14/08/2008

Os Ashaninka tornam pública sua posição quanto à prospecção


Aldeia Apiwtxa, Terra Indígena Kampa do Rio Amônia, 12 de agosto de 2008



Ao Sr. Edison Panayfo
Presidente
Unión de Comunidades Indígenas Fronterizas del Peru – UCIFP

Em referência ao Convite a Associação Ashaninka do Rio Amônia (APIWTXA) para participar no “I Taller de Capacitación y Fortalecimiento en actividades de Hidrocarburos para Líderes Indígenas”, na Comunidad Nativa Nueva Shauaya, nos dias 13 a 15 de agosto de 2008, para discutir temas relacionados a prospecção e exploração de petróleo e gás, preparar as comunidades indígenas para os “os novos desafios do desenvolvimento sustentável” e “lograr relações harmoniosas entre o Estado, as empresas petrolíferas e as comunidades”.

Nos últimos 15 anos, nós Ashaninka que vivemos na Terra Indígena Kampa do Rio Amônia, por meio da Associação Ashaninka do Rio Amônia (APIWTXA), da Cooperativa Ayonpare e de nossa organização comunitária, temos planejado e posto em prática um amplo conjunto de ações voltado ao aproveitamento sustentado dos recursos naturais de nosso território e a melhoria da vida de nossas famílias. Com iniciativas próprias e mobilizando órgãos do Estado brasileiro, temos procurado vigiar e defender os limites de nossa terra indígena e alertar para as graves conseqüências sociais e ambientais da atividade madeireira em territórios indígenas e unidades de conservação em ambos os lados da fronteira Brasil-Peru, especialmente nos altos rios Juruá, Amônia e Tamaya. Nos últimos quatro anos, temos promovido encontros binacionais entre povos indígenas nesta fronteira, buscando fortalecer processos de diálogo e de intercâmbio de experiências e reforçar estratégias para o reconhecimento e a proteção dos territórios indígenas e para a conservação e o uso sustentável da biodiversidade de nossas florestas.

Tendo em vista a comunicação recebida da Unión das Comunidades Indígenas Fronterizas del Peru (UCIFP), com data de 28 de julho, convidando a Apiwtxa a participar do “I Taller de Capacitación y Fortalecimiento en actividades de Hidrocarburos para Líderes Indígenas”, a ser realizada na Comunidad Nativa Nueva Shauaya, de 13 a 15 de agosto, onde está prevista a presença de 100 representantes de comunidades e organizações indígenas dos rios Juruá, Breu, Amônia, Huancapishtea, Piquiyacu e Genepanshea, órgãos de governo e da empresa Petrobrás, para discutir temas relacionados a “hidrocarburos”, vimos, por meio da presente, esclarecer, inicialmente, nossas posições mais gerais.

Neste sentido, firmemente repudiamos:

1) as concessões feitas nos últimos anos pelo Estado peruano a empresas de vários países de lotes destinados a prospecção e exploração de petróleo e gás no alto rio Juruá e no rio Tamaya, sem qualquer consulta prévia, informada e de boa fé aos povos e comunidades indígenas sobre cujos territórios os lotes foram estabelecidos de forma unilateral, numa clara violação à Convenção 169 da Organização Internacional do Trabalho (OIT) e à Declaração das Nações Unidas sobre os Direitos dos Povos Indígenas.

2) a concessão de lotes para a prospecção e exploração de petróleo e gás em florestas banhadas por bacias hidrográficas binacionais, em regiões de fronteira internacional, caso dos rios Juruá e Amônia, o que poderá também causar graves conseqüências ambientais às comunidades que vivem em terras indígenas e unidades de conservação do lado brasileiro e comprometer fontes de água utilizadas para consumo humano em sedes municipais e comunidades na floresta;

3) que, no caso do Alto Juruá peruano, a concessão de lotes de petróleo e gás pelo governo peruano tenha criando sobreposição com a quase totalidade da Reserva Territorial Murunahua, área de 481.560 hectares, criada em 1997 para a proteção de povos indígenas isolados (Murunahua, Chitonahua e outros);

4) a atuação da empresa brasileira Petrobras Energia Peru S.A. que, aproveitando possibilidade aberta pela legislação peruana, tornou-se, em dezembro de 2005, concessionária do Lote 110, por um período de 40 anos. Localizado no alto rio Juruá peruano, em águas binacionais, com extensão de 1,4 milhão de hectares, esse Lote é sobreposto à Reserva Territorial Murunahua e a territórios de comunidades Ashaninka, Jaminawa e Amahuaca, já titulados ou reivindicados. A leste, o Lote tem limites, ainda, com o Parque Nacional Alto Purús, estando sobreposto à sua zona de amortecimento, no trecho onde está a Reserva Territorial Mashco-Piro, criada em 1997 para proteger grupos isolados Mashco-Piro. A nosso ver, a intenção da Petrobras de iniciar atividades de prospecção e exploração de petróleo e gás, no alto rio Juruá peruano, em lote sobreposto a territórios de comunidades nativas e inclusive de índios isolados, constitui uma flagrante e condenável contradição com o discurso de responsabilidade socioambiental adotado pela empresa no Brasil e com a legislação que a empresa é obrigada a respeitar em nosso país.

5) a pretensão das empresas canadenses True Energy Trust e North American Vanadium Inc., de dar início à prospecção e exploração de petróleo e gás em sua concessão no Lote 126, que tem extensão de pouco mais de um milhão de hectares, está situado na fronteira internacional, coincide com parte do limite oeste de nossa terra indígena no rio Amônia e do Parque Nacional da Serra do Divisor, e encontra-se sobreposto a territórios não titulados de comunidades Ashaninka no alto rio Tamaya.

6) a política de desenvolvimento do governo peruano no Alto Juruá, que, associado a empresas transnacionais, opta hoje por promover a prospecção e a extração de petróleo e gás em região fronteiriça, onde a atividade madeireira continua a causar imensos prejuízos ambientais (com invasão de reservas territoriais e unidades de conservação, a abertura de extensa rede de estradas e caminhos, a destruição de recursos florestais e da fauna, a inutilização de áreas utilizáveis para a agricultura e a contaminação de fontes de água), “correrias”, contatos e migrações forçados de índios isolados, violações dos direitos humanos e trabalhistas e a desestruturação das formas de organização comunitária, política e cultural em várias comunidades.

Quanto ao “I Taller de Capacitación y Fortalecimiento em actividades de Hidrovarburos para Líderes Indígenas”,” a ser realizado nos dias 13-15 de agosto, na Comunidad Nativa Nueva Shauaya, temos a expor as seguintes considerações:

1) longe de representar um evento triparte, o “taller” constitui evento bipartite, dado que os interesses e as ações de governo peruano e das empresas concessionárias aparecem de maneira articulada e indissociada: foi o governo que, por meio de suas políticas, concedeu os lotes às empresas e agora atua, sob a fachada da “capacitação”, como facilitador de processos de negociação entre empresas e organizações e comunidades indígenas, visando que estas dêem seu consentimento ao inicio das atividades de prospecção e exploração de petróleo e gás sobre seus territórios.

2) ao contrário do que procura fazer crer a convocatória do “taller”, encaminhada pela UCIFP, não acreditamos que a atividade de extração de petróleo e gás abra qualquer alternativa de desenvolvimento sustentável para as comunidades e territórios indígenas no Alto Juruá. Ainda que venham a ser executadas ações para a prevenção, a mitigação e a compensação dos impactos sociais e ambientais inicialmente previstos, as conseqüências da prospecção e da exploração de petróleo e gás serão definitivas e irremediáveis sobre os recursos naturais (água, florestas, caça e pesca) das quais as comunidades dependem para sua sobrevivência imediata e futura, sobre as condições de saúde das comunidades e sobre suas formas próprias de organização social, política e cultural.

3) lamentar que a Unión das Comunidades Indígenas Fronterizas del Peru (UCIFP), organização que nos últimos tem demonstrado clara associação com os interesses da empresa madeireira Forestal Venao SRL, decida neste novo momento discutir a possibilidade da operação de empresas petrolíferas nos territórios das comunidades que representa, e inclusive em reserva territorial destinada a índios isolados, que nenhuma possibilidade tem de ser consultados.

Alinhados com o já declarado por organizações indígenas brasileiras e peruanas no documento final do IV Encontro dos Povos Indígenas da Fronteira Acre-Ucayali, reiteramos a urgente necessidade de uma auditoria independente, com a participação da Defensoria del Pueblo, da Organização Internacional do Trabalho e da Relatoria Especial dos Povos Indígenas das Nações Unidas, para investigar as violações dos direitos humanos e trabalhistas hoje em curso na atividade madeireira no Alto Juruá peruana e, de forma cautelar, para acompanhar os entendimentos que visam respaldar o inicio da extração de petróleo e gás nessa mesma região.

Também como já destacado no documento final do IV Encontro dos Povos Indígenas da Fronteira Acre-Ucayali, reafirmamos nossa posição contrária ao início da atividade de prospecção aérea no Estado do Acre, sem que qualquer consulta tenha sido feita às organizações e comunidades indígenas e sem que qualquer informação substantiva tenha sido feita às comunidades que vivem na floresta quando do início da atividade. E repudiamos, desde já, qualquer mudança na legislação ou articulação política que vise possibilitar a prospecção e a exploração de petróleo e gás em terras indígenas e unidades de conservação, numa óbvia violação da legislação hoje vigente no país e das convenções internacionais das quais o Brasil é signatário.

Por fim, declaramos nosso firme propósito de continuar a tornar públicos, junto ao governo brasileiro e à opinião publica nacional e internacional, os processos que estão em curso na região da fronteira internacional Brasil-Peru, visando construir alianças que fortaleçam as comunidades e organizações comprometidas com o uso sustentado e a conservação da biodiversidade no Alto Juruá, garantam os direitos humanos e territoriais dos povos indígenas que aí vivem, resultem em soluções definitivas para os graves problemas ambientais e sociais hoje causados pela atividade madeireira e evitem aqueles que certamente serão causados pelo início da prospecção e da exploração de petróleo e gás.

Despedimo-nos cordialmente, chamando as comunidades e organizações indígenas do Alto Juruá peruano a fazer prevalecer seus direitos, se opondo a qualquer negociação ou acordo que, mediante fáceis promessas de “desenvolvimento sustentável” ou de benefícios econômicos e sociais, implique num consentimento ao inicio da prospecção e exploração de petróleo e gás em suas comunidades, em reservas territoriais ou no seu entorno.

Ainda que a prospecção e exploração de petróleo e gás estejam previstas em território peruano, como fruto de políticas do governo de vosso país, e que as decisões das comunidades Ashaninka, Jaminawa e Amahuaca sobre o futuro de seus territórios e suas formas de vida tenham que ser por nós respeitadas, chamamos a atenção que essa atividade, a ser promovida pela Petrobras, empresa brasileira, em águas binacionais, poderá também trazer danos irreparáveis não só à Apiwtxa mas também a outras comunidades indígenas e de seringueiros e agricultores que vivem do lado brasileiro de nossa fronteira comum.

Atenciosamente,

Moisés da Silva Piyãko, Presidente da Associação Ashaninka do Rio Amônia (APIWTXA), e
Isaac da Silva Piyãko
Benki da Silva Piyãko
Antônio Piyãko
Pishiro Asheninka
Aricemi Asheninka
Shomõtsi Asheninka
Alípio Piyãko
Winko Piyãko

26/07/2008

Nativos de la frontera Perú-Brasil sufren por tala ilegal


Madereros furtivos los amenazan e incendian sus viviendas. Incluso han llegado a asesinar a varios de sus miembros.*

Los madereros vienen causando graves violaciones contra los derechos humanos de la población indígena en aislamiento que se encuentra en la frontera Perú Brasil. No solo los persiguen, sino que han llegado a asesinar a varios de sus miembros y a incendiar sus viviendas. Así lo manifestó Antonio Iviche, coordinador general del Comité Indígena Internacional para la Protección de los Pueblos en Aislamiento y Contacto Inicial de la Amazonía, el Gran Chaco y la Región Oriental de Paraguay (Cipiaci).

Precisó que tras la Misión a la frontera Perú-Brasil –realizada en junio– por una comisión integrada por dirigentes y técnicos de CIPIACI, FENAMAD y la Asociación Asháninka Apiwtxa del río Amonya, Brasil, el organismo constató que la Reserva Territorial Murunahua creada en 1997 por el Perú está parcialmente invadida por madereros ilegales que ingresan a la zona por afluentes del río Ucayali.

Es más, han abierto una red de caminos para penetrar al bosque.

* por Diário de la República Online, Peru, 26/07/2008

04/07/2008

Comitê denuncia violência contra índios isolados

por Altino Machado*
Imagem de satélite mostra malocas e roçados abertos por índios isolados que, segundo entidade, fugiram de madeireiros do Peru

Os índios isolados da fonteira Brasil-Peru estão sendo vítimas de madeireiros ilegais que incendeiam suas malocas, os perseguem, capturam e assassinam, denuncia o Comitê Indígena Internacional para a Proteção dos Povos Indígenas em Isolamento Voluntário da Amazônia, do Grande Chaco e Região Oriental do Paraguai (Cipiaci).

O Comitê baseia-se em investigações de uma comissão integrada por dirigentes e técnicos do próprio Cipiaci, da Federação Nativa do Rio Madre de Dios (Fenamad) e da brasileira Associação Ashaninka Apiwtxa do Río Amônia.

A missão, que foi coordenada pela antropóloga Beatriz Huertas, percorreu a região em junho e constatou que a Reserva Territorial Murunahua, criada em 1997 pelo governo peruano, está parcialmente invadida por madeireiros ilegais que nela ingressam por afluentes do rio Ucayali. Os madeireiros abriram estradas a partir das quais penetram na floresta e transportam toda a madeira extraída ilegalmente, especialmente o valioso mogno.

Segundo o Cipiaci, os madeireiros vêm causando graves violações contra os direitos humanos da população indígena em isolamento, como perseguições, capturas, assassinatos e incêndios das malocas.

''Estes crimes são cometidos com toda a impunidade, mesmo as autoridades locais sabendo'', afirma o relatório.

A decisão de realizar a missão na região de fronteira foi tomada no final do ano passado, antes das numerosas notícias e informações sobre deslocamentos e ataques aos indígenas isolados oriundos das florestas do lado peruano.

''Por outro lado, a pressão madeireira está levando a que os grupos isolados, regularmente distantes um do outro, vejam seus territórios reduzidos e se enfrentem entre eles em disputa por alimento e por espaço vital'', assinala o Comitê Indígena Internacional.

Região conflagrada

Segundo a organização, as pressões externas estão motivando também o deslocamento da população isolada do lado brasileiro, onde não existe atividade madeireira. As mudanças causam enfrentamentos com as populações indígenas e não-indígenas assentadas no Brasil, como é o caso das aldeias ashaninka, kaxinnawá e mestiços.

A presença de madeireiros na região também tem sido constatata pelo pessoal do Instituto Nacional de Recursos Naturais (Inrena) do Peru e por consultores que têm elaborado informes da situação do Parque Nacional Alto Purus e da Reserva Territorial Murunahua.

''As afirmações recentes de funcionários do Inrena e da Direção Geral de Povos Originários e Afroperuano, do Ministério Mulher e Desenvolvimento Social sobre uma suposta paz e tranqüilidade que se viveria na região da fronteira Peru-Brasil, de nenhuma maneira correspondem à realidade'', sustenta o Comitê Indígena Internacional.

O Cipiaci exige que se eleve a ''decreto supremo'' a norma de criação das reservas territorais Murunahua e Alto Purus da etnia Mashco Piro e que o Inrena retire imediatamente os madeireiros que invadiram as duas reservas. Também exige que o governo peruano implemente com urgência um sistema efetivo de controle e proteção de ambas as reservas, com a participação das organizações indígenas envolvidas.

A organização exige, ainda, que a Defensoria do Povo, a Controladoria da República, a Fiscalização Suprema Ambiental e o Congresso do Peru realizem investigação sobre a violação dos direitos humanos dos povos isolados, bem como da cadeia econômica da atividade florestal na região, identificando responsáveis, para executar os processos administrativos e penais necessários. Por fim, pede que sejam identificadas as ameaças futuras contra a população de ambas as reservas e sejam tomadas ações para freá-las.

O comunicado do Cipiaci coincide plenamente com a nota de esclarecimento divulgada na semana passada pelo sertanista José Carlos dos Reis Meirelles Júnior, da Frente de Proteção Etnoambiental do Rio Envira, na qual ele reafirmou que novos grupos indígenas isolados em território brasileiro são oriundos do Peru.

* Altino Machado, De Rio Branco (AC), Terra Magazine, 02/07/2008

03/07/2008

Comemoração do povo Ashaninka do Brasil

por Stefania Fernandes*

Foto Rede Povos da Floresta















O dia 24 de junho é celebrado com muita alegria pelos índios Ashaninka do Rio Amônia, pois foi nessa data, no ano de 1992, que eles conseguiram oficializar a demarcação do seu território e conquistaram segurança e liberdade para decidir o quê fazer em suas terras.

Vítimas da exploração madeireira, principalmente na década de 1980, os Ashaninka do rio Amônia conseguiram, após anos de luta e de muitos esforços, expulsar os patrões e os posseiros brancos de suas terras.

Até hoje eles lutam contra as constantes invasões de madeireiros, mas hoje podem comemorar, com muita honra, a demarcação da Terra Indígena Kampa do rio Amônia, uma área de 87.205 ha.

A festa começou no dia 23 de junho, com campeonatos de arco e flecha e futebol, e seguiu durante toda a noite com muita música, brincadeiras e caissuma, bebida tradicional feita de macaxeira.

Os organizadores da festa foram os integrantes da família Pianko, eles receberam ashaninkas do Peru, de outras comunidades do Brasil e não-índios que estiveram no local especialmente para festejar a data.

* Stefania Fernandes, Rede Povos da Floresta, 03/07/2008

28/06/2008

Índios isolados Brasil-Peru. Sertanista teme retaliação de madeireiros

por Altino Machado*

Foto: Altino Machado/Terra Magazine


O sertanista José Carlos dos Reis Meirelles Júnior, coordenador da Frente de Proteção Etnoambiental Rio Envira (Funai), divulgou nesta quinta-feira, 26, uma nota de esclarecimento sobre a polêmica decorrente das fotos dos índios isolados. As imagens foram tiradas durante um sobrevôo na região da fronteira Brasil-Peru no final de abril e publicadas com exclusividade (leia) por Terra Magazine no dia 23 de maio.

A polêmica teve origem com a publicação da nota intitulada "Confirmado: No son peruanos los nativos fotografiados en territorio brasileño", emitida pela Oficina de Comunicaciones do Instituto Nacional de Recursos Naturales, do Peru. A nota repercutiu na imprensa peruana, em diferentes sites da internet e resultou em informações desencontradas, no Brasil e no exterior, sobre as fotografias dos índios isolados da região do rio Envira, no Estado do Acre.

Segundo Meirelles, em 2004, durante um sobrevôo, além das malocas já conhecidas, foi identificado um novo conjunto de malocas na região do igarapé Xinane, afluente da margem direita do rio Envira. Com base nas informações daquele sobrevôo, o sertanista assinala ser possível afirmar que, naquele ano, não existia, no lado brasileiro, qualquer presença de povos isolados oriundos do Peru nas proximidades do paralelo de 10ºS.

- As fotografias amplamente divulgadas na mídia nacional e internacional, onde aparecem índios isolados, são do grupo das cabeceiras do rio Humaitá e igarapés da margem esquerda do rio Envira, que a Frente monitora há vinte anos, e são tradicionalmente habitantes do território brasileiro. Outras dezenas de fotos das malocas dos índios isolados do igarapé Xinane, estes sim oriundos do Peru, foram encaminhadas à Fundação Nacional do Índio e não foram objeto de divulgação na mídia. - afirma o sertanista.

A nota de esclarecimento assinala que as malocas não existiam antes de 2004 e que as evidências de atividade madeireira nas cabeceiras do rio Envira, no lado peruano, os vestígios constantes no igarapé Xinane e a ocupação recente (malocas e roçados novos constatados fotograficamente) permitem afirmar que outros índios isolados da região - mas não os fotografados - são oriundos do território peruano.

- Os jornais peruanos que estão plantando informações mentirosas na mídia internacional devem pertencer aos importadores ou exportadores de madeira que saqueiam aquela região. Se os madeireiros mandarem me matar, peço a vocês que façam uma zoada grande - pediu nesta manhã José Carlos dos Reis Meirelles à reportagem de Terra Magazine.Leia em primeira mão a íntegra da Nota de Esclarecimento na Terra Magazine.

* Altino Machado, Terra Magazine, 26/06/2008

10/06/2008

Apiwtxa auxilia o Comitê Internacional para a Proteção dos Povos em Isolamento


Em uma missão co-organizada com as lideranças ashaninka da aldeia Apiwtxa, a antropóloga Beatriz Huertas, do Comitê Internacional para a Proteção dos Povos em Isolamento, percorrerá, a partir desta terça-feira, 10, a região do Rio Juruá, na fronteira Brasil-Peru. O obetivo da missão é elaborar um relatório sobre índios isolados na região, e apresentá-lo aos governos do Brasil e do Peru. Leia a seguir matéria de Altino Machado e entrevista exclusiva de Huertas ao Terra Magazine.

Comitê fará relatório sobre índios isolados
por Altino Machado*

Foto: Altino Machado/Terra Magazine Antropóloga Beatriz Huertas: relatório em defesa dos índios isolados

A antropóloga Beatriz Huertas, do Comitê Internacional para a Proteção dos Povos em Isolamento, percorrerá, a partir desta terça-feira, 10, a região do Rio Juruá, na fronteira Brasil-Peru, em companhia dos índios ashaninka da aldeia Apiwtxa.

- Vamos fazer um relatório sobre a questão e apresentá-lo aos governos do Brasil e do Peru e aos organismos internacionais de defesa dos direitos humanos. Na medida de nossas possibilidades vamos fazer tudo o que estiver ao nosso alcance para que o problema seja resolvido - disse Beatriz Huertas com exclusividade a Terra Magazine, referindo à situação dos índios isolados da região.

Segundo a antropóloga, há na Amazônia Peruana 14 povos ou segmentos de povos isolados, sendo que a maioria está concentrada na faixa de fronteira com o Brasil. Ela assinala que muitas das concessões florestais outorgadas pelo governo peruano incidem sobre áreas de comunidades indígenas.

- Sabemos que alguns empresários beneficiados por essas concessões estão aproveitando-se da formalidade da concessão para retirar madeira ilegalmente. Isto é altamente irregular e perigoso e vem sendo denunciado há muito tempo, porém parece não existir um sistema adequado do Instituto Nacional de Recursos Naturais para frear - afirma.

A antropóloga e membros Federação Nativa do Rio Madre de Dios e Afluentes (Fenamad) já sofrereram ameaças de morte durante o processo de criação de uma reserva territorial para povos indígenas isolados da região. Leia a entrevista a seguir:

Terra Magazine - Considera positiva a divulgação das fotos dos índios isolados na fronteira Brasil-Peru?
Beatriz Huertas - Sim, pois despertou a atenção das autoridades do governo peruano, que já prometeram empreender uma viagem à região do Purus para investigar o que está ocorrendo. No entanto, é necessário cuidado com certos jornalistas que ficaram muito interessados em viajar até a região para estabelecer contato com o objetivo de obter imagens dos índios isolados. Isso pode ser catastrófico e resultar na morte de todo o grupo por causa do contágio de doenças e até do enfrentamento que pode surgir.

Como explicar o interesse global repentino pelos índios isolados?
Estamos na era da globalização, todos interconectados através das comunicações, e não se explica a existência de populações vivendo com aquele nível de autonomia, como a dos povos isolados.

Existem pessoas que defendem que a sociedade estabeleça contato com esses povos isolados. A sua organização é contra. Por quê?
Temos propugnado pelo direito à autodeterminação e isto significa o direito desses povos decidirem livre e voluntariamente sobre as formas de vida que querem ter, sem forçar contatos ou ações que atentem contra esse direito, contra essa vontade. Eles estão isolados e é necessário respeitar o isolamento. Do mesmo modo, se eles buscam contato, teremos que respeitar a decisão deles, mas não podemos de nenhuma maneira forçar contatos.

Quantas etnias existem ao longo da fronteira do Brasil com o Peru?
Na Amazônia Peruana, há pelo menos 14 povos ou segmentos de povos em isolamento. Pode existir mais, mas não sabemos. O que existe até agora é a constatação de 14 povos. Na faixa de fronteira Brasil-Peru se concentra a maioria desses povos isolados.

Qual o impacto das concessões para exploração florestal no Peru sobre os povos isolados?
Muitas das concessões florestais foram outorgadas sem que tenham visto que havia superposição com comunidades indígenas. Na verdade, não foi um processo bem conduzido. Sabemos que alguns empresários beneficiados por essas concessões estão aproveitando-se da formalidade da concessão para retirar madeira ilegalmente. Isto é altamente irregular e perigoso e vem sendo denunciado há muito tempo, porém parece não existir um sistema adequado do Instituto Nacional de Recursos Naturais para frear.

O governo peruano é menos preocupado com a questão que o governo brasileiro?
Sim, está pouco preocupado, mas, em Madre de Dios, a realidade é diferente por causa de uma série de ações da sociedade civil. Mas, no geral, o que se constata é que não existe uma vontade real de frear esse problema tão grave. Os problemas decorrentes da retirada ilegal de madeira na fronteira Brasil-Peru temos denunciando intensivamente desde 1998. Desde 2001 e 2002 os dois países formaram uma comissão para resolver o problema, mas nunca chegaram a acordos claros nem realizaram ações contundentes para frear a situação.

O que deveria ser feito nesse sentido?
O Instituto Nacional de Recursos Naturais do Peru tem as condições para saber onde está havendo retirada ilegal de madeira, pois outorgou as concessões florestais e fizeram uma série de exigências que os empresários tiveram que cumprir antes. Se fossem mais eficientes com o trabalho que realizam, estariam freando a situação. Mas a verdade é que não existe disposição para tanto.

É verdade que no Peru existem empresas que exploram e exportam madeira retirada de terra indígena com certificação florestal?
Sabemos que algumas dessas empresas obtiveram certificação florestal e que algumas delas retiram madeira ilegalmente de terras indígenas. Existem informações e denúncias, mas não existem ações para combatê-las.

A sua luta em defesa dos isolados já resultou em ameaças de morte?
Os membros de uma organização, a Fenamad, onde eu trabalhava, sofreram ameaças de morte em 2001 e 2002, durante o processo de gestão para criação de uma reserva territorial para povos indígenas isolados em Madre de Dios. Era uma zona cobiçada, muito cobiçada mesmo pelos madeireiros. Surgiram muitas ameaças, feitas por pessoas que queriam ter o controle da região, quando a organização solicitou, baseada nas leis peruanas, a área para os povos isolados.

O que vai fazer ao percorrer o Juruá brasileiro e peruano?
Desde o final de 1999, tivemos oportunidade de estabelecer comunicação com a Funai e organizações indígenas brasileiras e tomamos conhecimento da situação na fronteira. Desde então temos tratado de difundi-las pelos meios de comunicação, traduzindo para o castelhano as notas que escritas no Brasil a respeito dessa problemática. A Fenamad, através de cartas, também solicitou ações ao governo peruano contra os problemas na fronteira. Agora, que se formou o Comitê Indígena Internacional para Povos Isolados, surge essa oportunidade de percorrer a fronteira e conversas com os afetados. Essa missão está sendo co-organizada com as lideranças ashaninka da aldeia Apiwtxa. Vamos fazer um relatório sobre a questão e apresentá-lo aos governos do Brasil e do Peru e aos organismos internacionais de defesa dos direitos humanos. Na medida de nossas possibilidades, vamos fazer tudo o que estiver ao nosso alcance para que o problema seja resolvido.

Nesse sentido, a divulgação das imagens dos índios isolados atirando flechas no avião contribuiu mesmo para pressionar os dois governos?
As imagens estiveram em quase todos os diários do mundo. Isso não ocorre constantemente porque os assuntos indígenas não despertam muita atenção dos meios de comunicação, que preferem notícias triviais ou superficiais.

* Altino Machado, Terra Magazine, 10/06/2008

Assista a entrevista com Beatriz Huertas, AQUI

09/06/2008

IV Encontro dos Povos Indígenas da Fronteira Acre-Ucayali

Grupo de Trabalho para a Proteção Transfronteiriça (GTT) da Serra do Divisor e Alto Juruá (Brasil e Peru)
Documento Final


De 26 a 29 de maio de 2008, na Aldeia Apiwtxa, na Terra Indígena Kampa do Rio Amônea, se reuniram lideranças dos povos Ashaninka, Kaxinawá e Poyanawa que vivem em territórios situados na região fronteiriça do Estado do Acre (Brasil) e do Departamento de Ucayali (Peru), bem como representantes de organizações e associações indígenas, de outras entidades de apoio da sociedade civil e de órgãos governamentais de ambos os países.

Organizada pela Associação Ashaninka do Rio Amônia (Apiwtxa) e a Comissão Pró-Índio do Acre (CPI-Acre), a reunião se inseriu no âmbito do Grupo de Trabalho para Proteção Transfronteiriça (GTT) da Serra do Divisor e Alto Juruá - Brasil/Peru, iniciativa que, no vale do Juruá acreano, tem, desde abril de 2005, reunindo organizações indígenas e do movimento social, órgãos dos governos federal, estadual e de cinco municípios.

Uma série de articulações, entendimentos e reuniões ocorridos nos últimos anos serve como antecedentes à realização deste encontro;

1. As iniciativas da Apiwtxa, desde 1999, para alertar vários órgãos dos governos federal e estadual sobre a extração de madeira feita por empresas peruanas ao longo da faixa de fronteira (e inclusive em território brasileiro) e sobre as graves conseqüências ambientais, sociais e culturais dessa atividade sobre populações e territórios indígenas (especialmente na Terra Indígena Kampa do Rio Amônea) e o Parque Nacional da Serra do Divisor, exigindo que aqueles órgãos cumpram suas atribuições institucionais e a legislação visando a vigilância dos limites dessa terra indígena e a garantia da soberania nacional no limite fronteiriço Brasil-Peru;

2. As ações iniciadas a partir de 2004 por um consórcio de instituições brasileiras e peruanas no âmbito do Projeto "Conservação Transfronteiriça da Região da Serra Divisor (Brasil-Peru)";

3. Os vários encontros promovidos pelo GTT para Proteção Transfronteiriça da Serra do Divisor e Alto Juruá - Brasil/Peru, desde abril de 2005, tanto no Estado do Acre como na Região Ucayali, nos quais se procurou avaliar os programas oficiais de desenvolvimento e de “integração”, em curso e planejados, nessa região, bem como a dinâmica das concessões florestais realizadas pelo governo peruano e suas desastrosas conseqüências socioambientais em territórios indígenas e unidades de conservação em ambos os lados da fronteira internacional. A partir dessas discussões, estabeleceram-se compromissos e agendas comuns entre as organizações indígenas e outras organizações da sociedade civil, na intenção de comprometer os poderes públicos dos dois países com uma efetiva participação dos povos na definição, execução e avaliação das políticas de desenvolvimento e de integração.

4. Entendimentos e acordos firmados pelos Governos do Estado do Acre e do Departamento do Ucayali, desde 2004, com vistas a promover a “integração” entre essas regiões, que resultaram na “Reunião Técnica pela Conservação da Biodiversidade Fronteiriça Ucayali-Acre”, na cidade de Pucallpa, em julho de 2005, cujas conclusões previam a criação do “Fórum de Integração Ucayali-Acre” e, atendendo à demanda das organizações indígenas e da sociedade civil, contemplaram sua ativa participação nas futuras discussões e acordos.

5. A criação, durante reunião na cidade de Cruzeiro do Sul, em julho de 2006, do “Fórum Binacional de Integração e Cooperação para o Desenvolvimento Sustentável da Região Ucayali/Peru e Estado do Acre/Brasil”, sua instalação com a constituição de sete comissões técnicas (Conservação da biodiversidade; Desenvolvimento econômico sustentável; Desenvolvimento sociocultural; Políticas públicas e cooperação institucional; Infra-Estrutura; Povos indígenas; e Pesquisa, ciência e tecnologia) e a nomeação de seus integrantes (representantes dos governos federal e estadual/regional, organizações indígenas, entidades indigenistas de apoio e conservacionistas, centros universitários e classe empresarial).

6. Uma série de contatos iniciados em março de 2005 pela Apiwtxa com líderes Ashaninka das comunidades nativas dos rios Amônia, Juruá, Vacapistea e Tamaya, em território peruano, que resultaram no desejo de reforçar intercâmbios, realizar reuniões periódicas e conhecer de perto as experiências de gestão territorial e ambiental em curso na aldeia Apiwtxa.

7. As reuniões ocorridas entre organizações e associações indígenas, como parte do GT Transfronteiriço, em setembro de 2005, na aldeia Apiwtxa e, em fevereiro de 2006, na Terra Indígena Poyanawa.

Alinhada com as preocupações do GTT, a presente reunião de Apiwtxa teve por objetivo dar continuidade a um processo de diálogo e de intercâmbio de experiências entre povos indígenas que vivem na fronteira Acre-Ucayali, visando reforçar estratégias para o reconhecimento e a proteção dos territórios indígenas, para o uso sustentável e a conservação da biodiversidade existente nessas florestas.

Um conjunto de processos em curso na fronteira internacional Brasil-Peru nos últimos anos também foi fundamental na decisão de realizar este encontro e constituiu objeto de troca de informações e de discussão, com vistas à identificação de problemas e soluções comuns. Dentre esses processos devem ser destacados:

1. A concessão pelo governo peruano de consideráveis extensões de floresta para a prospecção e exploração de petróleo e gás, boa parte delas situadas ao longo da fronteira internacional e em bacias hidrográficas comuns, criando sobreposições com territórios indígenas (já titulados ou não), reservas territoriais destinadas a povos indígenas em isolamento voluntário (já criadas e reivindicadas) e propostas de áreas naturais protegidas (unidades de conservação), sem qualquer processo de consulta prévia e informada às organizações e comunidades indígenas, conforme previsto na Convenção 169 da OIT.

2. A agressiva política de expansão das atividades promovidas por Forestal Venao SRL, outras empresas madeireiras, concessionários, “habilitados” ou ilegais, sobre territórios, titulados ou não, de comunidades Ashaninka e Jaminawa que vivem nos altos rios Juruá e Tamaya, sobre Reservas Territoriais e em áreas naturais protegidas (como o Parque Nacional do Alto Purus).

3. As repercussões que essas atividades madeireiras do lado peruano continuam a causar do lado brasileiro da fronteira, na forma de impactos negativos sobre diferentes recursos naturais (contaminação das águas dos rios, invasões e caçadas e pescarias), o estabelecimento de novas comunidades no limite fronteiriço (especificamente no rio Breu), constrangimentos e ameaças a comunidades indígenas há anos estabelecidas do lado Brasil, a migração forçada de populações de indígenas em isolamento para as cabeceiras do rio Envira e ataques a tiros, feitos por desconhecidos, a integrantes da Frente de Proteção Etnoambiental que a Fundação Nacional do Índio ali mantém.

4. A certificação, em abril de 2007, sob os padrões da Forest Stewardship Council (FSC), das atividades madeireiras da Forestal Venao SRL, empresa com longo histórico de atividades predatórias e ilegais na região de fronteira no Acre-Ucayali, promovida pela Smartwood, com recursos do Projeto Rainforest Alliance, financiado pela USAID, nas Comunidades Nativas Sawawo Hito 40 e Nueva Shawaya. Esta certificação, cabe notar, estabeleceu um total de 22 Solicitações de Ações Corretivas (CARs) para que a certificação fosse mantida em futuras auditorias.

5. Os questionáveis resultados da investigação promovida por Smartwood a reboque de denúncia realizada pelo IBAMA por invasão, extração ilegal de madeira e dos impactos ambientais provocados pela empresa Forestal Venao SRL na Terra Indígena Kampa do Rio Amônia, do lado brasileiro.

6. Os principais resultados da auditoria promovida pela Smartwood em setembro de 2007, dentre eles: a) a não-certificação das atividades realizadas pela Forestal Venao nas Comunidades Nativas Santa Rosa, Dorado e Nueva Victoria, no alto rio Juruá, como pretendia a empresa, devido à constatação de que suas práticas de manejo florestal e as relações estabelecidas com as comunidades não atendiam aos padrões exigidos pela FSC; e b) o acréscimo de 7 novas CARs e 4 observações às 18 CARs ainda pendentes da auditoria de abril de 2007, para a manutenção da certificação já outorgada às atividades florestais nas comunidades Sawawo Hito 40 e Nueva Shawaya.

7. A reunião realizada na Comunidad Sawawo Hito 40, em fevereiro de 2008, reunindo representantes de organizações indígenas do Brasil e do Peru, da empresa Forestal Venao, de órgãos púbicos de ambos os países, do Programa Rainforest Alliance e da FSC e da USAID, cujos resultados destacaram acordos e compromissos comuns de fortalecimento de um diálogo para as boas relações das comunidades fronteiriças.

8. A constatação de que algumas das CARs elencadas quando da certificação e da auditoria, em abril e setembro de 2007, que venciam em final de maio de 2008 e incluíam processos de consulta e informação e a formalização de acordos escritos entre comunidades vizinhas de ambos os lados da fronteira (principalmente entre as comunidades Sawawo Hito 40 e Nueva Shawaya e com a Apiwtxa) não foram ainda cumpridos.

9. Com o começo do “verão” amazônico, a retomada das atividades madeireiras, relativas à safra de 2008, nas comunidades nativas Sawawo Hito 40, Nueva Shawaya e Santa Rosa, situadas na fronteira internacional Brasil-Peru (coincidindo com a Terra Indígena Kampa do Rio Amônea e com a Reserva Extrativista do Alto Juruá), e nas Comunidades Nativas Nueva Victoria e Dorado, todas por meio de contratos com a empresa Forestal Venao SRL.

10. O início em maio de 2008 de uma nova etapa de auditoria nas atividades de manejo forestal realizadas por Forestal Venao nas comunidades Sawawo Hito 40 e Nueva Shawaya, novamente a cargo de Smartwood.

11. A preocupante situação de violação dos direitos humanos e territoriais dos povos “isolados” (em isolamento voluntário) que vivem do lado peruano, ameaçados pelas atividades ilegais realizadas por empresas madeireiras nas Reservas Territoriais Murunahua e Mashco-Piro, resultando em correrias, contatos forçados, doenças, trabalho compulsório e, inclusive, em migrações recentes rumo ao território brasileiro. No Estado do Acre, apesar da proteção garantida pela legislação e oferecida por ações da Coordenação Geral de Índios Isolados (CGII), da Fundação Nacional do Índio (FUNAI), é eminente a possibilidade de conflitos armados com povos indígenas e famílias de seringueiros e agricultores que vivem em terras indígenas e áreas de antigos seringais situados ao longo e nas cercanias da fronteira internacional.

A programação do encontro teve início no dia 26 de maio, com as boas-vindas das lideranças da Apiwtxa, a apresentação dos participantes, seguidas de um esclarecimento dos objetivos e expectativas do encontro. Na parte da tarde, fizeram suas apresentações os coordenadores da Asociación de Comunidades Nativas para el Desarrollo Integral de Yurua (ACONADYISH) e da Asociación de Comunidades Nativas Ashaninka Asheninka de Masisea y Callería (ACONOMAC). No dia 27, as informações ficaram por conta dos chefes e comuneros das comunidades Ashaninka do alto rio Juruá (Dulce Glória, Nueva Bella e Nuevo Éden) e do alto rio Tamaya (Saweto, San Miguel de Chambira e Nueva Amazônia de Tomajao).

Os representantes da ACONADIYSH e da ACONAMAC destacaram o isolamento e a falta de apoio governamental que têm enfrentado em seus trabalhos pela titulação das terras das comunidades e no enfrentamento aos interesses das empresas madeireiras e petrolíferas. Destacaram ainda a oposição, as denúncias, e inclusive os processos judiciais, movidos por organizações e lideranças, vindas de fora, associadas às empresas madeireiras, com intenção de enfraquecer as organizações tradicionais de representação (ACONADIYSH e ACONAMAC), aliciar lideranças comunais e dividir as comunidades.

Quanto às atividades de hidrocarburos, ACONADIYSH, ACONAMAC e as comunidades que representam externaram sua preocupação e seus posicionamentos contrários à política adotada pelo governo peruano de outorgar extensas áreas de floresta a empresas, nacionais e transacionais, para a para a prospecção e exploração de petróleo e gás, frequentemente sobrepostos a territórios indígenas, em reservas territoriais destinadas a índios isolados e em áreas naturais protegidas. Em ambas essas regiões, representantes de governo e das empresas petrolíferas têm, sem qualquer consulta prévia às organizações, ingressado às comunidades, visando informar sobre o início de atividades de prospecção e exploração de petróleo.

As organizações e comunidades dos altos rios Yuruá e Tamaya ressaltaram ainda a importância desta reunião para, por um lado, fortalecer alianças para enfrentar e aos impactos sociais, ambientais e culturais da extração madeireira, promovida por diversas empresas, concessionários e por “ilegais”. Denunciaram ainda a sistemática violação dos direitos humanos promovidas por essas empresas em suas comunidades, a destruição de recursos naturais cruciais à sobrevivência, crimes cometidos na mobilização e enganche de mão de obra, o desrespeito dos direitos trabalhistas e as ameaças feitas aos representantes de organizações e chefes comunais. No caso do alto Juruá, essas denúncias estiveram centradas sobre a Forestal Venao SRL, a Forestal Cabrera e Alpirrosa. No alto Tamaya, além da Forestal Venao SRL, foram citados empresas concessionárias, particulares por elas “habilitados” e madeireiros ilegais, dentre eles, Forestal Cabrera, Ronaldo Santillán Lomas, Ramiro Edwin Barros Galván, Ecofusac, Ecoforta, Forestal Villacorta, Furoway, Gustavo Franchini, Vicente Viscarra, César Pezo e outros.

Por fim, agradeceram e louvaram a oportunidade de trocar experiências e “buscar idéias” para implementar atividades produtivas e fortalecer a organização comunitárias, de maneira a abrir alternativas à atividade madeireira realizada pelas empresas e por ilegais.

No final do dia 27 e ao longo de todo o dia 28, as apresentações foram realizadas por lideranças, professores e agentes agroflorestais Ashaninka, Kaxinawá e Poyanawa, de oito terras indígenas, representantes das seguintes organizações: AMAAIAC, OPIAC, ASKARJ, ACIH, AAPBI, ASKAPA e AKARIB. Dois temas principais foram abordados nas exposições: 1) gestão territorial e ambiental nas terras indígenas, com a organização e os projetos comunitários; e 2) as implicações em seus territórios e formas de vida de diversos processos em curso do lado peruano da fronteira internacional. Sobre este último tema, ressaltaram os impactos que a atividade madeireira continua a causar do lado brasileiro, por meio de invasões, a destruição e contaminação de importantes recursos naturais, a formação de comunidades no rio Breu com a intenção de estabelecer relações com a empresa Forestal Venao SRL para a retirada de madeira nesse rio e a chegada ao território acreano de povos indígenas isolados, em fuga dos madeireiros, que têm se assentado em terras já habitadas por populações Kaxinawá, Ashaninka e Madijá.

Com relação ao primeiro tema, foram enfatizadas nas exposições as iniciativas de gestão e de educação que há uma década são realizadas pelos agentes agroflorestais indígenas, comunidades e organizações, com o apoio da AMAAIAC e da CPI-Acre, visando a implantação de sistemas agroflorestais, o manejo e criação de animais domésticos e silvestres, monitoramento ambiental, fortalecimento da economia das famílias e a abertura de produtos e canais para a comercialização, bem como para a vigilância dos limites das terras indígenas. A tarde do dia 28 esteve reservada à apresentação pelas lideranças Ashaninka, que fizeram um histórico da criação da Apiwtxa e das mobilizações para a regularização e desintrusão da terra indígena, a criação de sua associação e de sua cooperativa, a implementação de modelos inovadores de gestão ambiental e vigilância territorial e as articulações feitas junto a diferentes órgãos governamentais para garantir os limites da terra indígena e do seu entorno. Os depoimentos do cacique Antonio Pianko, das demais lideranças de Apiwtxa e das várias organizações do lado brasileiro, foi ressaltado pelos representantes das organizações Ashaninka do Peru, serviram como importante ponto de início para novas discussões a respeito de alternativas à exploração madeireira que hoje invade seus territórios e causa graves impactos ambientais, sociais e culturais em suas comunidades.

Na noite do terceiro dia e no quarto dia do encontro, as lideranças indígenas concentraram suas atenções na identificação de agendas e compromissos comuns, bem como na construção de uma agenda de recomendações direcionada aos governos de ambos os países. São estes os compromissos e as recomendações que estão expostas à continuação:

I - RECOMENDAÇÕES DAS ORGANIZAÇÕES e COMUNIDADES INDÍGENAS DO LADO PERUANO

TERRITÓRIOS

Alto rio Tamaya

* Reconhecimento legal de um único território para o povo Ashaninka do rio Tamaya, incluindo as comunidades Cametsa Quipatsi, San Miguel de Chambira, Nueva Amazonia de Tomajao, Nueva Califórnia e Saweto;

* Ampliação dos territórios das Comunidades Nativas Sol del Oriente e San Mateo, também com o objetivo de proteger a Reserva Territorial Isconahua;

* Cancelamento do processo de ampliação demandado pela CCNN Sawawo Hito 40, claramente com intenção de ampliar atividades de exploração madeireira junto com a empresa Forestal Venao sobre áreas já reivindicadas pelas comunidades Ashaninka do Alto Tamaya;

* Remoção da povoação não-indígena dos povoados (caserios) assentados dentro do território demandado pelo povo ashaninka no alto rio Tamaya, devido à destruição dos recursos naturais que tem promovida e aos obstáculos colocados à nossa organização comunitária.

Alto rio Juruá

* Ampliação das Comunidades Nativas San Pablo e Dulce Glória;

* Titulação da Comunidade Nueva Bella e reconhecimento de Nueva Éden como comunidade;

* Criação da Reserva Comunal Yurua, conforme proposta por ACONADIYSH, ORAU e AIDESEP;

* Cancelamento dos processos de titulação das comunidades Oori, Coshireni e Beu, artificialmente estabelecidas em áreas sobrepostas à proposta de criação da Reserva Comunal Yurua, por iniciativa de chefes procedentes da Selva Central, claramente associados aos interesses madeireiros da empresa Forestal Venao SRL;

RECURSOS NATURAIS

* Reivindicamos a imediata anulação das concessões florestais, petroleiras e de exploração mineral sobrepostas a territórios indígenas, Reservas Territoriales e Áreas Naturais Protegidas, situadas no Alto Yurua e no Alto Tamaya, considerando que não houve consulta prévia às organizações e comunidades indígenas, conforme estabelece a Convenção 169 da OIT, e os impactos sociais e ambientais, atuais e potenciais, sobre nossos territórios.

* Denunciamos as empresas madeireiras pela sistemática violação dos direitos humanos, pelos graves impactos que suas atividades têm causado em nossos territórios e formas de vida, pelas práticas usadas na arregimentação, endividamento e imobilização de mão de obra e pelo total desrespeito dos direitos trabalhistas, bem como pelas ações promovidas por essas mesmas empresas ao enfraquecimento das organizações comunais, ao aliciamento de lideranças locais, à divisão entre lideranças e comuneiros e à fragilização das organizações que tradicionalmente representam nas regiões do Alto rio Juruá e Tamaya (ACONADIYSH e ACONAMAC).

* Denunciar os procedimentos das empresas petroleiras que, sem conhecimento ou consentimento de nossas organizações, têm se apresentado em nossas comunidades, com falsas promessas de desenvolvimento e benefícios visando a aprovação aos seus empreendimentos;

* Repudiar a concessão do Lote 110 à empresa brasileira Petrobras, em dezembro de 2005, por um período de 40 anos, que incide em territórios das comunidades nativas Ashaninka (dentre elas Dulce Glória, Nueva Bella e Nuevo Éden) no Alto rio Juruá, na Reserva Territorial Murunahua (destinada à proteção dos povos indígenas Murunahua, Chitonaua e outros) e faz limites, ainda, com a Reserva Territorial Mashco-Piro e com o Parque Nacional Alto Purus.

* Repudiar, igualmente, a concessão no alto rio Tamaya, dos lotes de petróleo e gás outorgados às empresas Pan Andean (Lote 114) e True Energy (Lote 126), sobrepostos às terras reivindicadas pelas comunidades Cametsa Quipatsi, Nueva Amazonia de Tomajao, Nueva California e Alto Tamaya, e à Comunidad Nativa San Miguel de Chambira.

* Condenar a contaminação das águas, animais e peixes, com mercúrio, no rio Masaray, e os efeitos danosos sobre as comunidades que ali moram, provocadas pela crescente atividade de extração artesanal de ouro.

POVOS INDÍGENAS EM ISOLAMENTO VOLUNTÁRIO

* Exigir do governo peruano políticas efetivas para a efetiva proteção dos direitos humanos e territoriais dos povos indígenas “isolados” (“em isolamento voluntário e contacto inicial”) que habitam nas Reservas Territoriais Murunahua e Mashco-Piro e no Parque Nacional Alto Purus e para a definitiva interrupção das atividades ali promovidas por madeireiros ilegais. Da mesma forma, exigimos urgentes medidas para uma efetiva proteção da Reserva Territorial Isconahua e a definitiva anulação das concessões petrolíferas e de mineração sobrepostas à Reserva.

ORGANIZAÇÕES INDÍGENAS E ORGANIZAÇÃO COMUNAL

* Solicitar apoio de nossa organização nacional (AIDESEP) e regional (ORAU) para garantir o fortalecimento institucional das nossas organizações por meio de programas de formação de lideranças, elaboração e gestão de projetos, a adequada estruturação das escritórios e condições que permitam que as lideranças façam deslocamentos e participem de reuniões nas comunidades e de encontros em Pucallpa e em Lima.

* Demandar a criação de fundos de apoio e de financiamento para projetos voltados à subsistência e à comercialização (dentre outras atividades, produção agrícola, artesanato, reflorestamento, criações de pequenos animais domésticos, manejo de animais silvestres), e para o fortalecimento cultural de nossas comunidades.

* Reivindicar a participação de ACONADISH e ACONAMAC em futuros encontros e reuniões entre povos indígenas da fronteira e no “Fórum Binacional de Integração e Cooperação para o Desenvolvimento Sustentável da Região Ucayali/Peru e Estado do Acre/Brasil”;

* Promover intercâmbios e fortalecer alianças entre povos e organizações indígenas que trabalham em ambos os lados da fronteira Acre-Ucayali.

COMPROMISSOS DO GOVERNO PERUANO

1. Garantir mecanismos eficazes de consulta e participação informada aos povos e oraganizações indígenas a respeito de legislação, medidas administrativas e projetos de desenvolvimento e integração que possam afeta-los, como estabelece a Convenção 169 da OIT;

2. Exigir uma maior presença do Estado peruano nas regiões de fronteira, por meio de ações voltadas para a titulação e proteção dos territórios indígenas e para a garantia dos serviços básicos de educação escolar, saúde, documentação, aposentadoria (jubilación), comunicação, transporte e energia.

II – REIVINDICAÇÕES E COMPROMISSOS DAS ORGANIZAÇÕES INDÍGENAS DO LADO BRASILEIRO

1. Recomendar ao governo federal que, por meio do Exército, Polícia Federal, FUNAI e IBAMA, junto com os moradores locais, realizem a vigilância dos limites das terras indígenas e unidades e conservação situadas na faixa de fronteira, frequentemente invadidas por madeireiros ilegais e traficantes de drogas, a exemplo das TIs Kampa do Rio Amônea, Nukini, Poyanawa e Mamoadate, bem como do Parque Nacional da Serra do Divisor e da Reserva Extrativista do Alto Juruá.

2. Recomendar que articulações e acordos sejam realizadas entre os governos brasileiro e peruano para realizar ações comuns de vigilância e fiscalização na faixa de fronteira, de forma a impedir a exploração ilegal dos recursos naturais e de outras atividades ilícitas nessa região.

3. Exigir a imediata paralisação de qualquer tipo da exploração e transporte de madeira ao longo da fronteira internacional, enquanto não forem realizadas avaliações dos impactos socioeconômicos e ambientais, atuais e potenciais, dessa atividade na Terra Indígena Kampa do rio Amônia, na Reserva Extrativista do Alto Juruá e no Parque Nacional da Serra do Divisor, e não forem devidamente formulados, aprovados e implementados os respectivos Planos de Prevenção, Mitigação e Compensação dos prejuízos já causados às comunidades e à biodiversidade no lado brasileiro da fronteira internacional.

4. Recomendar que o governo brasileiro e governo do Estado do Acre, por meio de programas de atendimento aos povos indígenas, atuem de forma mais efetiva nas terras indígenas em região de fronteira.

5. Prestar apoio à proposta de criação da Reserva Comunal Yurua apresentada pela ACONADIYSH, ORAU e AIDESEP, bem como para a criação de um corredor contínuo de áreas protegidas (terras indígenas, reservas territoriais e unidades de conservação) ao longo de toda a faixa de fronteira Brasil-Peru.

6. Demandamos que proteção seja garantida aos limites das Reservas Territoriais Murunahua e Mashco-Piro, bem como do Parque Nacional do Alto Purus, que constituem territórios de habitação permanente de índios isolados e atualmente sofrem invasões de madeireiros ilegais, que têm ocasionando a migração de parte destes povos para terras indígenas localizadas em território brasileiro, como comprovado em sobrevôo realizado em abril de 2008 pelo Governo do Estado do Acre e a Frente de Proteção Etnoambiental da Funai nas cabeceiras dos rios Humaitá, Envira, Riozinho e Xinane, nas imediações do Paralelo de 10º S, ao longo da linha da fronteira Brasil-Peru.

7. Recomendar que o Governo do Estado do Acre firme convênio com a Coordenação Geral de Índios Isolados, da FUNAI, visando o fortalecimento das atividades da Frente de Proteção Etnoambiental Rio Envira, com a criação de um posto avançado de vigilância no rio Santa Rosa e a identificação de locais onde a futura instalação de postos se torne necessária.

8. Reivindicar que a Frente de Proteção Etnoambiental Rio Envira, e os postos a ela jurisdicionados, garantam a participação das comunidades indígenas no trabalho de vigilância e fiscalização das terras ocupadas por povos isolados, especialmente no caso daquelas terras indígenas compartilhadas com esses povos (TI Kaxinawá do Rio Humaitá e TI Kaxinawá do Rio Jordão).

9. Recomendar ao Governo do Estado do Acre que mantenham entendimentos com o governo do Departamento do Ucayali visando reativar o funcionamento, ainda em 2008, do “Fórum Binacional de Integração e Cooperação para o Desenvolvimento Sustentável da Região Ucayali/Peru e Estado do Acre/Brasil”, cujas atividades se encontram paralisadas desde julho de 2006.

10. Alinhar-se com a posição do movimento indígena do Vale do Juruá contrária à construção de uma estrada ligando as cidades de Cruzeiro do Sul e de Pucallpa, tendo em vista que os diferentes traçados já projetados atravessam o Parque Nacional da Serra do Divisor, a Reserva Territorial Murunahua e que os impactos ambientais decorrentes dessa estrada incidirão sobre terras indígenas, unidades de conservação e projetos de assentamento situados em sua vizinhança.

11. Da mesma forma, demonstramos nossa preocupação e firme oposição quanto à atividade, já em andamento, de prospecção e à possibilidade de exploração de petróleo e gás no Vale do Juruá e no Estado do Acre, especialmente quanto à incidência dessa atividade em terras indígenas e unidades de conservação, sem que qualquer consulta prévia tenha sido realizada junta às organizações e às comunidades indígenas, conforme estabelece a Convenção 169 da OIT, da qual o Brasil é signatário, e numa flagrante afronta à legislação vigente em território brasileiro.

III - REIVINDICAÇÕES E COMPROMISSOS COMUNS

1. Recomendar aos Governos do Estado do Acre e do Departamento do Ucayali, que, com o respaldo dos governos federais do Brasil e do Peru, ensejem os entendimentos e acordos necessários à reativação do “Fórum Binacional de Integração e Cooperação para o Desenvolvimento Sustentável da Região Ucayali/Peru e Estado do Acre/Brasil”.

2. Sugerir que as recomendações resultantes desta reunião, constantes neste documento, sejam levadas em consideração e incorporadas como subsídio em futuras reuniões das comissões técnicas que compõem o referido Fórum;

3. Exigir que os governos peruano e brasileiro cumpram o previsto na Convenção 169 da OIT e na Declaração das Nações Unidas sobre os Direitos dos Povos Indígenas quanto à promoção de consultas, prévias, consentidas, informadas e de boa-fé, às comunidades e organizações indígenas quanto às políticas oficiais de desenvolvimento e integração que venham a afetar seus territórios e modos de vida;

4. Reivindicar que os governos do Brasil e do Peru implementem uma política fronteiriça comum voltada prioritariamente à conservação do meio ambiente e biodiversidade e à efetiva proteção aos direitos dos povos indígenas, garantindo a plena participação desses povos no delineamento e execução dessas políticas;

5. Reivindicar que prioridade seja dada pelo governo peruano à titulação das terras de comunidades indígenas e à criação de reservas territoriais e áreas naturais protegidas ao longo da linha de fronteira comum, de maneira a conformar um mosaico contínuo com o já existente do lado brasileiro, formado por terras indígenas e unidades de conservação (de uso direto e de proteção integral), com extensão de pouco mais de 7,8 milhões de hectares.

6. Apoiar a criação da Reserva Comunal Yurua, conforme demanda feita pela Aconadish, ORAU e AIDESEP (e não reconhecimento das comunidades Oori, Coshireni e Beu, cujas propostas de titulação, feitas recentemente, se sobrepõem à proposta da Reserva Comunal)

7. Reivindicar a definitiva interrupção de atividades de exploração madeireira feita por empresas e em concessões florestais situadas ao longo da fronteira internacional Peru-Brasil;

8. Exigir a imediata realização de uma auditoria internacional independente, sob a supervisão do Ministério Público Federal brasileiro, a Defensoria del Pueblo peruana e a Organização Internacional do Trabalho, das atividades de manejo florestal realizadas pela Forestal Venao SRL, e outras empresas, em comunidades nativas nos altos rios Juruá e Tamaya, focada na violação dos direitos humanos e trabalhistas e dos crimes cometidos contra o patrimônio ambiental e cultural dessas comunidades. Demandar que a referida auditoria foque, ainda, sobre os procedimentos que resultaram na certificação da Forestal Venao SRL, sob padrões FSC, outorgada por Smartwood com fundos do Programa Rainforest Alliance, financiado pela USAID.

9. Reivindicar a definitiva revogação das concessões feitas pelo governo peruano para a exploração de petróleo e gás ao longo da fronteira internacional com o Brasil.

10. Externar nossa preocupação quanto à concessão do Lote 110, feita pelo governo peruano à Petrobras para a exploração de petróleo e gás, sobreposta aos territórios de comunidades nativas situadas no alto rio Juruá e a Reserva Territorial Murunahua, sem qualquer processo prévio de consulta;

11. Demandar que acordos sejam firmados pelos governos do Brasil e Peru para garantir o livre trânsito, navegação e comércio de produtos indígenas (artesanais e agrícolas) entre os povos que vivem na região fronteiriça do Alto Juruá, Tamaya, Amônia e Breu, considerando que se tratam dos mesmos povos, ligados inclusive por laços familiares de parentesco;

12. Assumimos o compromisso de continuar a promover encontros, reuniões e oficinas voltados ao fortalecimento do diálogo, ao intercâmbio de experiências e a trabalhos de capacitação entre povos e organizações indígenas do Brasil e Peru, na região fronteiriça do Alto Juruá, Tamaya, Amônia e Breu, para o que reivindicamos apoio dos governos, organizações indígenas de representação, organizações da sociedade civil de ambos os países.

Por fim, os representes das comunidades e organizações de ambos os lados da fronteira lamentam a ausência na reunião de representantes da Unión das Comunidades Indígenas Fronterizas del Peru (UCIFP) e das Comunidades Nativas Sawawo Hito 40 e Nueva Shawaya, apesar do convite pessoalmente feito por lideranças Ashaninka de Apiwtxa em visita realizada à CCNN Sawawo Hito 40 nos dias 10 e 11 de maio últimos. Consideramos esta ausência, e falta de qualquer comunicação formal sobre as razões que a motivaram, um retrocesso no processo de diálogo iniciado e nos acordos firmados durante o “I Encontro de Povos Indígenas Fronteiriços do Brasil e Peru”, ocorrida na Comunidad Nativa Sawawo Hito 40 dos dias 24 a 28 de fevereiro de 2008.

Aldeia Apiwtxa, Terra Indígena Kampa do Rio Amônea, Marechal Thaumaturgo, Acre, Brasil, 29 de maio de 2008.

Assinam:

BRASIL
Associação do Movimento dos Agentes Agroflorestais Indígenas do Acre (AMAAIAC); Organização dos Professores Indígenas do Acre (OPIAC); Associação Ashaninka do Rio Amônia (APIWTXA); Associação dos Seringueiros Kaxinawá do Rio Jordão (ASKARJ); Associação Kaxinawá do Rio Breu (AKARIB); Comunidade Ashaninka do Rio Breu, Associação de Cultura Indígena do Humaitá (ACIH); Associação Agro-Extrativista Poyanawa do Barão e Ipiranga (AAPBI); Associação dos Criadores e Produtores Kaxinawá da Praia do Carapanã (ASKAPA); Fundação Nacional do Índio (FUNAI); e Comissão Pró-Índio do Acre (CPI-Acre).

PERU
Asociación de Comunidades Nativas para el Desarrollo Integral de Yurua (ACONADIYSH); Asociación de Comunidades Nativas Ashaninka Asheninka de Masisea y Callería (ACONAMAC);
Bacia do Yurua: Comunidad Nativa Dulce Glória; Comunidad Nativa Nueva Bella; Comunidad Nativa Nuevo Eden.
Bacia do Tamaya: Comunidad Nativa San Miguel de Chambira; Comunidad Saweto; e Comunidad Nueva Amazonia de Tomajao.


08/06/2008

Ashaninka ensina a trabalhar a floresta

por Kaxiana*

Benki Piyãko é uma liderança do povo Ashaninka

Um povo guardião da floresta que luta pelo desenvolvimento sustentável da Amazônia e contra a invasão constante de madeireiras peruanas para não destruir os ecossistemas florestais de uma das regiões de maior biodiversidade do planeta.

Assim são os índios Ashaninka, que vivem na Terra Indígena Kampa, situada ao longo do rio Amônia, no município de Marechal Thaumaturgo, no extremo oeste do Acre, fazendo fronteiras com o Peru, o Parque Nacional da Serra do Divisor, a Reserva Extrativista do Juruá e um assentamento do Acre.

De passagem recente por Brasília, o índio Benki Piyãko, uma das lideranças Ashaninka advertiu mais uma vez às autoridades brasileiras que seu povo já não suporta mais conviver com as constantes invasões de madereiros e traficantes peruanos, que destroem a rica biodiversidade da região e roubam madeiras valiosas que depois são exportadas pela cidade peruana de Pucalpa para o mercado internacional. Piyâko prometeu mais uma vez que, diante da ausência do estado brasileiro naquela fronteira totalmente desguarnecida, os índios vão resolver eles mesmos a questão da invasão. Ou seja, o conflito armado entre os índios e os invasores continua iminente.

A Kaxiana publica, abaixo, um artigo do próprio Benki Piyãko falando da luta de seu povo para preservar a integridade e a biodiversidade da floresta e do recém criado Centro de Formação Yorenka Ãtame – Saber da Floresta. Situado numa área de 86 hectares em frente à cidade de Marechal Thaumaturgo, o centro Yorenka se destina à formação, educação, intercâmbio e difusão de práticas de manejo sustentável dos recursos naturais da região do Alto Juruá. Leia, a seguir, o artigo de Benki, publicado originalmente no blog do Ashaninka, editado pela Associação Ashaninka do Rio Amônia (Apiwtxa).

Benki e a pajé Putani (Yawanawá) com assessores do senador Tião Viana (PT-AC)

* Kaxiana, Agência de Notícias da Amazônia, 12/10/2007

03/06/2008

Proteção Constitucional

Questão indígena tem de abandonar concepções racistas

por César Augusto Baldi*

A polêmica envolvendo a demarcação Raposa Serra do Sol em área contínua, com a liminar do STF suspendendo a desintrusão dos arrozeiros das terras já homologadas por Portaria do Ministério da Justiça, colocou a “questão indígena” como matéria de discussão. Não da melhor forma, contudo.

Primeiro, porque a informação veiculada, em quase todos os casos, tem destacado a violência praticada pelos indígenas a outros cidadãos, sem investigar as causas possíveis de tais atitudes, nem salientar eventuais violências praticadas contra as mesmas populações.

De um lado, parecem estar os “civilizados” e, de outro, os “bárbaros” ou “selvagens”. Não há qualquer preocupação em ouvir as populações envolvidas. São sempre outros a falar pelos e para os índios. O evento no Xingu, com o incidente envolvendo os caiapós, somente reforçou tal imagem.

Isso porque não se destacaram as críticas ao projeto hidrelétrico, que envolve não somente populações indígenas, mas também extrativistas e ribeirinhos, comunidades a que se convencionou denominar “tradicionais”.

Em segundo lugar, porque elas reatualizam o imaginário político-social que ainda associa índios a incapacidade civil, cooptação, manipulação e necessidade de tutela, num estado de “menoridade”, para qual somente podem ser “objetos de estudo”, nunca “sujeitos de direito”.

Há quase 20 anos, o ordenamento constitucional rompeu com tais parâmetros e reconheceu a plena capacidade das populações indígenas, desvinculou as políticas indigenistas do padrão de assimilação ou aculturação, e, dispondo sobre o direito originário às terras tradicionais, possibilitou o ingresso em juízo em defesa de seus direitos e interesses pelas próprias comunidades, organizações ou indivíduos.

Basta conferir o artigo 231 da Constituição e seus parágrafos. Isto implicaria, por sua vez, uma redefinição do papel da Funai e, ainda que prevista a participação do Ministério Público nas questões envolvendo indígenas, conforme o artigo 232, um outro perfil de profissional, mais adequado ao novo quadro constitucional, e, inclusive, novas formas de participação no processo.

A Subprocuradora-Geral da República Ela Wiecko de Castilho, por exemplo, destaca, com propriedade, a necessidade de um “tradutor cultural”, um profissional, em geral, um antropólogo, capaz de fazer compreender ao juiz e às demais partes do processo o contexto sócio-político e cultural daquele grupo. Ele seria responsável, pois, pelo diálogo intercultural, evitando que o “sistema judicial ignore a diversidade cultural e aplique o direito sempre do ponto de vista étnico dominante”.

O tema revela, ainda, o estranhamento, o desconhecimento e mesmo o preconceito que o país enfrenta em relação aos seus habitantes originários, não somente pelos nomes das etnias, mas também pelo total desconhecimento da variedade de grupos e línguas – hoje, são mais de 227 povos e 180 línguas – o que rompe com a idéia preconcebida de um país monocultural – apenas falante do português – mas também uniétnico.

Como bem destacara Luís Carlos Vilallta, uma verdadeira Babel ignorada, sendo necessário recordar, ainda, que o português somente se fixou como língua dominante às vésperas da Independência, prevalecendo, até então, línguas gerais como o nheengatu, que ainda se mantém como forma de comunicação na Amazônia.

Aliás, o município de São Gabriel da Cachoeira (AM), onde 85% da população é indígena, estabeleceu, através da Lei 145/2002, como línguas co-oficiais o tukano, o nheengatu e o baniwa, obrigando o município a produzir documentação e fornecer serviços nas referidas línguas.

Tal estranhamento, contudo, é singular, quando se verifica que a Constituição : a) protege as manifestações das culturas indígenas e afro-brasileiras (artigo 215, parágrafo 1º), integrantes do “processo civilizatório nacional”; b) determina a fixação de datas comemorativas de significação para diferentes segmentos étnicos nacionais ( artigo 215, parágrafo 2º), projeto até o presente momento incompleto; c) considera patrimônio cultural a memória dos diferentes grupos formadores da sociedade brasileira (artigo 216), e, rompendo com a visão “arqueológica” de cultura, dá expressa proteção ao patrimônio imaterial, tendo a Unesco, por exemplo, reconhecido os grafismos dos índios wajãpi (AP) e o samba de roda do Recôncavo Baiano como patrimônio imaterial da humanidade.

A Constituição reconhece, ainda, a diversidade étnico-racial e cultural do país (artigo 215, parágrafo 3º, inciso V), o que inclui a discussão – ainda em aberto – envolvendo ribeirinhos, extrativistas, quilombolas, quebradeiras de coco de babaçu e inúmeras outras populações, constantes do projeto “Nova cartografia social da Amazônia”, a cargo do professor Alfredo Wagner de Almeida, da Universidade Federal do Amazonas.

Quarto, porque recoloca a questão da soberania e da integridade nacionais em discussão, esquecendo que: a) os territórios indígenas são propriedades da União e, pois, terras públicas (artigo 20, XI), da mesma forma que as terras de fronteira (artigo 20, II) e, portanto, facilitado o acesso das Forças Armadas e da Polícia Federal, ao contrário do que se passa em propriedades privadas; b) existe um longo histórico de defesa das fronteiras nacionais pelas populações indígenas, sendo a etnia ashaninka (AC) e sua luta contra os madeireiros do Peru o exemplo mais evidente; c) inexiste conflito entre defesa de direitos indígenas e defesa do território nacional, havendo inúmeros outros territórios indígenas já demarcados em zona de fronteira, sem qualquer perigo concreto à soberania nacional; d) não há notícia de qualquer movimento separatista indígena em qualquer país do mundo, de que é evidência a própria Bolívia, em que são os não-indígenas que capitaneiam o movimento divisionista em Santa Cruz de la Sierra e fomentam formas distintas de racismo e discriminação em relação à maioria indígena; e) os termos “nações” ou “povos” são aqueles tradicionalmente utilizados nos documentos internacionais, tendo o Brasil, em diversas ocasiões, assinalado que tais denominações não implicam qualquer tentativa separatista, que, porém, é alimentada como “fantasma” toda vez que se discutem demarcações indígenas.

Tal atitude do governo brasileiro, aliás, foi mantida na recente aprovação, pela ONU, da “Declaração dos Povos Indígenas”, que teve o veto do Canadá, Austrália, Estados Unidos e Nova Zelândia, o que significa, por outro lado, a adesão de 143 países, um número que, em geral, não é atingido em declarações deste tipo.

Quinto, porque oculta que, na raiz dos conflitos, encontra-se a disputa por: a) terras que, sendo inalienáveis e imprescritíveis (artigo 231, parágrafo 4º), colocam-se como “extra comercio” e, portanto, impassíveis de utilização privada e, assim, alvo de cobiça para fins de expansão das diversas monoculturas, ou seja, reconhecida a ocupação tradicional de indígenas, as terras são públicas e, pois, o que se busca, nestas disputas, é “reconduzi-las” ao âmbito privado de apropriação; b) territórios em que se encontra a maior parte da biodiversidade do país e, portanto, ainda a salvo de práticas de devastação ambiental, situação em que se encontram, ademais, também as terras ocupadas pelas comunidades “tradicionais” e mesmo quilombolas.

Ademais, não somente a exploração de lavras em terras indígenas (artigo 231, 3º) depende da prévia consulta dos interessados, mas também o aproveitamento de recursos hídricos e qualquer medida legislativa ou administrativa que possa afetar as comunidades indígenas (Convenção 169), aqui incluídas a construção de barragens e a revisão de demarcação de territórios.

Este direito/dever de “consulta prévia”, ainda não reconhecido oficialmente pelo STF, já o foi, de forma expressa, pela Corte Suprema da Colômbia, como integrando o “bloco de constitucionalidade”, na categoria de “verdadeiro direito fundamental” das comunidades, em discussões judiciais envolvendo a comunidade Embera Katió em disputa com usinas hidrelétricas, os Uwa em luta contra empresa petrolífera, bem como as autorizações para fumigações em plantações de coca na Amazônia.

Sexto, porque, com isto, novas ocultações são produzidas: a) que a propriedade deve cumprir sua função sócio-ambiental, respeitando, simultaneamente, a utilização adequada dos recursos naturais, o aproveitamento racional e adequado, a preservação do meio ambiente, as disposições de relações de trabalho e a exploração que favoreça bem-estar de proprietários e trabalhadores (artigos 186 e incisos), ou seja, não basta a produtividade das terras, mas o respeito de todas as condições constitucionalmente elencadas; b) que o slogan “ terra demais para pouco índio” é o obscurecimento da triste realidade fundiária do país, com imensa concentração de terras em mãos de poucos proprietários, vale dizer, os mesmos que criticam as terras ocupadas pelos indígenas são condescendentes com os latifúndios na mesma região amazônica e com a compra de terras por estrangeiros.

Sétimo, porque, para além do que se tem pensado, o racismo não é somente um processo que inferioriza o negro, mas atinge inúmeras outras populações, como os islâmicos e os índios. Neste sentido, a Declaração dos Povos Indígenas foi explícita no sentido de que “todas as doutrinas, políticas e práticas baseadas ou advogando a superioridade de povos ou indivíduos com base na origem nacional ou racial, religiosa, étnica ou diferenças culturais são racistas, cientificamente falsas, legalmente inválidas, moralmente condenáveis e socialmente injustas".

A discussão das demarcações tem manifestado um explícito viés antiíndio, com manifestações de intolerância e discriminação que devem ser combatidas e rechaçadas, por constitucionalmente atentatórias à dignidade de tais populações e em desconformidade com os compromissos firmados pelo Brasil (artigo 4º, incisos II e VIII e 5º, inciso XLII, CF). Obrigações, aliás, às quais estão vinculados todos os integrantes dos três Poderes, aí incluídos governadores e prefeitos.

Oitavo, porque o reconhecimento da diversidade cultural implica que indígenas são, como novamente destaca a Declaração da ONU, "iguais a todos os outros povos, ainda que reconhecendo o direito de todos os povos a serem diferentes, considerarem a si próprios diferentes e serem respeitados como tais".

É hora, pois, de reequacionar igualdade e diferença, reconhecer a interculturalidade, romper com a idéia de “tolerância imperial” (que, sendo “superior”, permite o “tolerar”) e adotar uma atitude firme contra as intolerâncias e pela descolonização do saber e do poder ( Walter Mignolo).

Isto implica, pois, um requestionamento dos direitos humanos em perspectiva não-eurocêntrica e, assim, o reconhecimento de que a nação brasileira não é européia, mas, fundamentalmente, também afro-indígena. Antes que “Terra brasilis”, como costumam denominar alguns juristas, o Brasil é, muito mais, “Pindorama”, membro de uma América que é, antes, “Abya Yala” (nome dado ao continente pelas populações originais).

No momento em que se comemoram os 40 anos do “maio de 1968”, que repensou as concepções de gênero e sexualidade e colocou a questão do combate ao machismo, ao patriarcalismo e à opressão sexual como novos patamares de direitos humanos, a questão indígena relembra que a luta por direitos humanos não se faz se não combater, ainda, o racismo e o colonialismo.

Para isso, é necessário reconhecer, antes, que o racismo é uma realidade da sociedade brasileira e, tanto mais insidioso, quanto mais “cordial” e difuso em relação aos indígenas e aos negros, e que o fim do processo colonial não implicou o fim do colonialismo, que se manteve vivo nas diversas formas de “colonialismo interno”, em que os descendentes de europeus se vêm como manifestantes de progresso e reproduzem, com os não-europeus, os padrões coloniais. O tema já fora destacado, há cerca de 40 anos, por Pablo Casanova, e que a aimará Silvia Rivera, na Bolívia, constantemente salienta em seus trabalhos teóricos sobre história oral e violências interculturais e na sua vivência prática.

*César Augusto Baldi, mestre em Direito pela ULBRA-RS, doutorando Universidad Pablo Olavide (Espanha) e chefe de gabinete no Tribunal Regional Federal da 4ª Região (Porto Alegre), artigo publicado pela Revista Consultor Jurídico, em 2 de junho de 2008

29/05/2008

Índios isolados são fotografados pela primeira vez

As imagens a seguir são as primeiras fotografias dos índios de uma das quatro etnias isoladas que vivem na fronteira do Acre com o Peru. Foram feitas pelo fotógrafo Gleilson Miranda e pertencem aos arquivos da Secretaria de Comunicação do Governo do Acre e ao acervo da Funai. Gleilson participou de um sobrevôo comandado pelo sertanista José Carlos dos Reis Meirelles Júnior, coordenador da Frente de Proteção Etnoambiental da Funai.

A Apiwtxa partilha da opinião de Meirelles e de tantos de que "estas imagens servem para chamar atenção para os desafios que todos temos de garantir que estes povos possam seguir seu caminho, sem ser importunados, até que um dia, por seu único e exclusivo desejo, resolvam nos contatar." É preciso pressionar os governos do Peru e do Brasil para que desenvolvam uma política de conservação para a área, que sofre com a exploração madeireira que põe em risco a sobrevivência desses povos.



Leia também:
Índios de tribo isolada são fotografados pela primeira vez no Acre, por Ana Luisa Bartholomeu, do UOL, 29/05/2008
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