24/11/16

APIWTXA REALIZA O 4° MÓDULO DO CURSO DE FORMAÇÃO EM GESTÃO

Entre os dias 14 e 16 de novembro, cerca de trinta membros da comunidade Ashaninka da Apiwtxa participaram do 4° módulo do Curso de Formação Continuada em Gestão.

Com apoio do BNDES/Fundo Amazônia no âmbito do Projeto Alto Juruá, e ministrado por Márcio Calvão da empresa de consultoria Instituto Rever, o curso foi realizado na aldeia, e contou com a participação de dirigentes da Associação Ashaninka do Rio Amônia – Apiwtxa e da Cooperativa Agroextrativista Asheninka do Rio Amônia – Ayõpare.  

Tendo como objetivo a formação da comunidade para a elaboração de projetos, o Curso, além do tratamento de conhecimentos técnicos e teóricos sobre o tema, proporcionou a elaboração de um projeto para aplicação prática dos conteúdos abordados.


Os Ashaninka presentes aproveitaram, então, a oportunidade para discutir uma problemática concreta da Comunidade e elaborar um projeto real que será, de fato, implementado.

Debatendo os impactos da introdução dos recursos decorrentes de benefícios sociais e salários na comunidade, concluíram que os principais desafios a serem enfrentados em relação ao assunto, residem em evitar que os beneficiários tenham que se deslocar até o município de Marechal Thaumaturgo para acessar os respectivos recursos, e implementar mecanismos para que esses valores possam circular na aldeia, contribuindo para fortalecer toda a Apiwtxa.     

O deslocamento dos Ashaninka até a cidade para recebimento dos salários ou recursos da Seguridade Social, vem implicando na diminuição da participação e envolvimento das pessoas nas questões comunitárias, bem como da produção do artesanato, além de permitir sua exposição a doenças, vida noturna, bebidas alcoólicas e outras drogas. Vem sendo constatado, ainda, um aumento do consumo de alimentos industrializados em razão da necessidade de permanência na cidade para a conclusão das providências relativas. Outras questões apontadas pelos presentes foram a constatação de um gasto excessivo de combustível em razão da necessidade de constantes deslocamentos até o município, e a ocorrência de casos de retenção e uso indevido de cartões por comerciantes locais.

Frente ao cenário mapeado, foi levantado um conjunto de oportunidades como consequência de modificações que permitam a chegada desses recursos na aldeia, sem necessidade de deslocamento dos Ashaninka da Apiwtxa até a cidade, e a melhor circulação dos recursos dentro da aldeia. 

Nesse sentido, foi desenvolvido durante o Curso, um projeto de fortalecimento da economia e organização sociocultural da Apiwtxa, com objetivo de criar mecanismos que possibilitem o pagamento dos benefícios sociais e salários na comunidade, e de desenvolver o mercado e a organização sociocultural do Povo Ashaninka da Apiwtxa.

O resultado do Curso foi de grande relevância para a Comunidade Apiwtxa, que seguirá, a partir desse momento, trabalhando no sentido de viabilizar o projeto elaborado.

22/11/16

APIWTXA DISCUTE SITUAÇÃO DO BOLSA FAMÍLIA EM REUNIÃO NO MPF

No dia 9 de novembro estiveram reunidos no Ministério Público Federal – MPF, em Cruzeiro do Sul, o Presidente da Apiwtxa e equipe, bem como representantes da Secretaria Municipal de Assistência Social de Marechal Thaumaturgo, da Coordenação Estadual do Programa Bolsa Família, da Caixa Econômica Federal e da Fundação Nacional do Índio – FUNAI, para discutir a situação do Programa Bolsa Família na Terra Indígena Kampa do Rio Amônia.

A reunião foi realizada em resposta a um ofício da Apiwtxa ao MPF, enviado em fevereiro deste ano, no qual a Associação relata os impactos negativos que o recebimento do Programa Bolsa Família vem causando à comunidade. Um dos principais problemas está relacionado com a necessidade de deslocamento da comunidade ao município para sacar o benefício, o que tem gerado uma movimentação mensal de membros da Apiwtxa à cidade. Esse deslocamento constante traz uma série de consequências negativas para a comunidade, dentre as quais a permanência de famílias na cidade por vários dias na espera do benefício, o consumo de alimentos industrializados e de bebidas alcoólicas. Além disso, a permanência na cidade prejudica o comparecimento nas reuniões e atividades comunitárias, além de comprometer a dedicação das famílias às suas atividades produtivas, como roçados e artesanato.

Outro fator de preocupação da Apiwtxa é em relação às condicionalidades de saúde e educação do Programa, que exigem a matrícula escolar, bem como o cumprimento de ações de saúde, como vacinação e pré-natal para a continuidade do recebimento. Ocorre que as comunidades indígenas possuem o direito à saúde e educação diferenciados assegurados em lei, e as famílias podem optar, por exemplo, em não matricular seus filhos na escola e/ou seguir práticas tradicionais de acompanhamento de saúde. No entanto, a estrutura do Programa Bolsa Família não atende à especificidade indígena.

Na audiência, Moisés Piyãko – Presidente da Apiwtxa, ressaltou que o Programa pode trazer benefícios positivos à comunidade, além de ser um direito. Não obstante, o que estão buscando é aperfeiçoar a forma de recebimento deste recurso, para evitar que tenha consequências negativas para o coletivo: “Estou falando aqui como líder comunitário. Isso mexe com a nossa estrutura. A maioria das pessoas de lá estão despreparadas para lidar com o que acontece na cidade, e a cidade sempre tem gente se aproveitando desse desconhecimento”.

O Procurador Federal falou que a problemática das condicionalidades está sendo tratada em nível federal e ressaltou que a reunião tinha a finalidade de buscar trabalhar com o aspecto do recebimento do recurso e levantar alternativas para que se reduzam os impactos decorrentes deste. O que a Apiwtxa espera viabilizar é que o benefício seja entregue na própria comunidade para evitar os deslocamentos constantes e fortalecer a economia local, por meio da Cooperativa Ayõpare.

Todos os participantes da reunião expressaram seus pontos de vista e dificuldades quanto ao tema. Foram levantadas possibilidades, a serem estudadas, para que a entrega do benefício aconteça na aldeia. O representante da Funai, Jairo Lima, destacou: “O Acre é um celeiro de experiências exitosas. Vamos ver se conseguimos articular uma experiência efetiva de fazer o recurso chegar até lá. Os Ashaninka do Amônia possuem uma rede de parceiros que podem apoiar isso, e se pensarmos de maneira coletiva podemos resolver”. 

Na semana seguinte o tema foi foco de debates na aldeia Apiwtxa, quando os resultados da reunião foram apresentados à comunidade, e foram discutidas possibilidades de superação dos entraves relativos ao recebimento do recurso.

Fotos: Pedro Kuperman

21/11/16

APIWTXA RECEBE REPRESENTANTES DO POVO GUARANI-MBYÁ PARA INTERCÂMBIO

A Apiwtxa recebeu, entre os dias 10 e 17 de outubro, uma comitiva de representantes do Povo Guarani Mbya da região Sul do país, para um importante encontro intercultural.
Realizado entre 5 representantes Guarani e os Ashaninka da Apiwtxa, como iniciativa do Centro de Trabalho Indigenista – CTI, o intercâmbio contou com recursos de projeto aprovado pelo Newton Fund/British Council, em parceria com o Centro de Antropologia da Sustentabilidade/CAOS, da University College London. O projeto tem como objetivo principal apoiar a construção de planos de gestão e promover a recuperação de áreas degradadas em terras Guarani, bem como avançar nos debates a respeito da gestão de conflitos que envolvem sobreposição de terras indígenas e unidades de conservação.

O intercâmbio foi idealizado para apresentar o exemplo dos planos de gestão e sistemas agroflorestais já implementados pelos Ashaninka do Amônia, e estabelecer um compartilhamento de conhecimentos sobre organização comunitária.
O grupo, constituído por Jaime Valdir da Silva, Marcio Mariano, Ronaldo Costa, Sergio Moreira, e Adriano Morinico, das Terras indígenas Cantagalo (RS), Salto do Jacuí (RS), Piraí (SC), Tarumã (SC), e Morro Alto (SC), passou três dias no Centro de Saberes da Floresta Yorenka Ãtame, constatando os trabalhos e resultados do reflorestamento ali iniciado há mais dez anos. Os indígenas Guarani puderam, ainda, acompanhar parte das atividades de um curso de Agroecologia que estava sendo oferecido pela Apiwtxa por meio de o Projeto Alto Juruá com recursos do Fundo Amazônia/BNDES, tendo realizado práticas como coleta e plantio de mudas e sementes de espécies da Amazônia, construção de canteiros, sementeiras e viveiros, e atividades de poda.

Uma pequena mostra de peças de artesanato Guarani atraiu a atenção do público presente, e encantou um grupo de indígenas do Povo Kaxinawá que acompanhava o curso.
 
Em seguida, rumaram para a Aldeia Apiwtxa na Terra Indígena Kampa do Rio Amônia, onde visitaram os roçados, participaram de conversas com as lideranças da aldeia, e rituais tradicionais do Povo Ashaninka.
O encontro dos Ashaninka com os Guarani foi marcado por falas acolhedoras e emocionadas de ambas as partes. Os Guarani, que hoje sofrem pela falta de acesso à terra e aos recursos naturais, ficaram tocados com a vida na aldeia e com exemplo dos Ashaninka, e elogiaram especialmente sua organização comunitária. Para os Ashaninka, foi uma grande alegria receber os Guarani e ter a possibilidade de compartilhar seus conhecimentos, pois esta é mais uma ação que fortalece a luta indígena no país.

10/11/16

APIWTXA INCENTIVA PLANO DE VIDA AUTÔNOMA E SUSTENTÁVEL PARA OS ASHANINKA DE SAWAWO

Nos últimos dias do mês de outubro, uma equipe da Apiwtxa, liderada por Francisco, Moisés e Wewito Piyãko, subiu o Rio Amônia em direção à comunidade Ashaninka Sawawo, no Peru. O objetivo da viagem foi o cumprimento de um importante objetivo da Apiwtxa: contribuir para o fortalecimento dos parentes que vivem do lado peruano da fronteira.

O dia seguinte começou com a bonita abertura do evento, onde as lideranças das duas comunidades expressaram alegria e satisfação pela realização do encontro, do qual se espera a geração de efeitos positivos para a região do Amônia. Dentre esses efeitos estão a consolidação da autonomia dos povos indígenas, a otimização da gestão de seus territórios, e a conservação da floresta.


A comunidade do Sawawo vem investindo na reorganização de suas atividades produtivas, buscando alternativas para geração de renda de modo sustentável, e com plena valorização da cultura Ashaninka. Os Ashaninka da Apiwtxa, então, rumaram para lá a fim de compartilhar com os parentes a experiência do etnomapeamento realizado na Terra Indígena Kampa do Rio Amônia, onde vivem.

O etnomapeamento é a construção de uma carta geográfica que aponta os locais importantes da Terra Indígena, o seu uso cultural, a distribuição dos recursos naturais dentro do território, a identificação de impactos ambientais e outras informações relevantes, enfatizando a visão, os interesses, o olhar e a compreensão do Povo que ali vive.

Na Terra Indígena Kampa do Rio Amônia esse trabalho teve início em 2004 e constituiu um longo processo por meio do qual as comunidades elaboraram nove mapas de diagnóstico de seu território.
Nesta oficina no Sawawo, os moradores, divididos em dois grupos, um de homens, outro de mulheres, realizaram, discutiram, e apresentaram mapas de sua aldeia, onde foram indicados todos os pontos fundamentais para a vida da comunidade.


O objetivo do etnomapeamento é construir uma ferramenta útil para a gestão territorial e ambiental do território de Sawawo, possibilitando diagnosticar os cenários sobre seu uso e conservação, ajudar a estabelecer o plano de vida da comunidade, e constituir um instrumento político importante na defesa de direitos e interesses da comunidade indígena, fortalecendo a organização social, a luta pela implementação de políticas públicas, o auxílio na solução de conflitos, etc.

Tanto o etnomapeamento, quanto o Plano de Gestão do Território, têm como princípio fundamental o protagonismo indígena, pois são feitos pelos e para os indígenas que vivem no território, segundo suas aspirações e visões de futuro, com a colaboração e o apoio de parceiros do Estado e da sociedade civil.

Ao final do encontro, ficou acordada a realização de uma nova etapa desse processo, que, financiada pela Apiwtxa, ocorrerá em janeiro de 2017 em Sawawo no Peru, com ampla participação da comunidade, visando a construção de outros mapas necessários a um diagnóstico aprofundado dos aspectos fundamentais à promoção dos aspectos sociais, econômicos e culturais dos Ashaninka daquele território.

A comunidade Ashaninka do Sawawo é composta por cerca de 45 famílias que vivem em um território de cerca de 35 mil hectares, situados no município do Breu, Departamento de Ucayali – Província de Atalaya, no Peru. Um importante diferencial dessa comunidade, assim como da Apiwtxa, está no forte nível de preservação da língua e dos aspectos rituais do Povo Ashaninka.

09/11/16

MULHERES DA APIWTXA COZINHAM DOCES COM FRUTAS DA REGIÃO

No dia 30 de outubro, a Apiwtxa recebeu a visita da instrutora Elizelda Pinheiro do Serviço Nacional de Aprendizagem Rural – SENAR, que conduziu uma prática de culinária à base de doces para um grupo de mulheres da aldeia. A aula foi voltada à aprendizagem de receitas à base de frutas e outros alimentos da região, e demonstrou como aproveitar todo potencial de cada alimento.
A atividade, de iniciativa da Associação Ashaninka do Rio Amônia - Apiwtxa, foi realizada em parceria com diversas instituições. Além do SENAR, foram parceiros, a Secretaria de Estado de Extensão Agroflorestal e Produção Familiar – SEAPROF, e o SEBRAE, por meio do Projeto de Desenvolvimento Territorial e Econômico – DET.
O grupo de participantes, composto por mulheres da aldeia ficou reunido durante uma tarde de compartilhamentos e aprendizados, e confeccionou receitas como brigadeiro, compota e geleia de banana, doce de abóbora, geleias de manga, caju, e beterraba, e doce de mamão. Alguns moradores da Apiwtxa que provaram as delícias feitas durante a aula, afirmaram que esperam que as receitas possam ser repetidas em outros momentos para degustação das famílias.


07/11/16

REUNIÃO ENTRE APIWTXA E ACONADIYSH DISCUTE COOPERAÇÃO TÉCNICA ENTRE AS ORGANIZAÇÕES

No último dia 29 estiveram reunidas lideranças da Associação Ashaninka do Rio Amônia – Apiwtxa e da Associação de Comunidades Nativas para el Desarollo Integral de Yurua Yono Sharakoiai – Aconadiysh, num encontro que retomou as tratativas de aliança cooperativa entre as duas instituições.

Apresentando o contexto em que vivem, os representes da Aconadiysh falaram sobre os problemas que os povos indígenas no Peru têm enfrentado em razão da falta de apoio de parceiros governamentais e não governamentais para a promoção e proteção dos direitos dos indígenas, e em decorrência do modelo de desenvolvimento que investe em empreendimentos que têm impactado as comunidades nativas. Para o grupo peruano, composto por cinco lideranças, o momento representou a oportunidade de estreitar a aliança entre o Brasil e o Peru para fortalecer as lutas dos povos indígenas nos dois países.
Francisco Piyãko da Apiwtxa, também considerou a reunião importante, por entender que a aproximação dessas relações reforça a autonomia das organizações indígenas, que somando seus esforços, podem avançar em seus projetos sem depender somente da ação governamental.

Realizada na aldeia Apiwtxa, a reunião contou com uma apresentação sobre as ações e projetos que vêm sendo desenvolvidos pela Associação Ashaninka do Rio Amônia, que procurou demonstrar os resultados que vem alcançando com base na ação autônoma e protagonizada pela própria comunidade.

O diálogo contou com a discussão de assuntos como a importância de processos de planejamento por parte das comunidades, a necessidade de discussão e compreensão do papel da comunidade e da união e participação de todos no seu fortalecimento, e a possibilidade de aliar os conhecimentos tradicionais a outros conhecimentos em benefício comunitário.
Os Ashaninka da Apiwtxa relembram que a comunidade passou três anos planejando seu futuro, discutindo o seu papel, o lugar que pretendia alcançar, e depois começou a agir para colocar tudo isso em prática.

Nesse sentido, Moisés Piyãko explicou que a palavra Apiwtxa significa “juntos”, e isso é exatamente o que ali se pratica. “É preciso olhar quem somos, quem queremos ser, e o que temos que fazer para sermos respeitados. Trazer para nossa ação a força da fala e da crença”, afirmou.  

O principal encaminhamento dessa importante reunião, foi a pactuação de um acordo de cooperação técnica entre as duas organizações, Apiwtxa e Aconadiysh. Para aprofundar os termos dessa cooperação, será realizado nos dias 10 e 11 de dezembro, um encontro financiado pela Apiwtxa, com a garantia da participação das 24 comunidades indígenas associadas à Aconadiysh, onde serão tomadas as decisões gerais a respeito dessa parceria.

31/10/16

APIWTXA E SENAR ADOÇAM A SEMANA DO ALTO JURUÁ

O Centro Yorenka Ãtame sediou no último dia 26 de outubro, a abertura e início do Curso de Culinária à base de Doces para comunidades do Alto Juruá.
A atividade, de iniciativa da Associação Ashaninka do Rio Amônia - Apiwtxa, foi realizada em parceria com diversas instituições. Além do Serviço Nacional de Aprendizagem Rural – SENAR, foram parceiros, a Secretaria de Estado de Extensão Agroflorestal e Produção Familiar – SEAPROF, e o SEBRAE, por meio do Projeto de Desenvolvimento Territorial e Econômico – DET.  

Alcançando um público de 25 pessoas, dentre moradores da Sede de Marechal Thaumaturgo, da Reserva Extrativista do Alto Juruá, e da Terra Indígena Kampa do Rio Amônia, o curso foi voltado à aprendizagem de receitas à base de frutas e outros alimentos da região.

Os ensinamentos compartilhados giraram em torno de conceitos como a valorização da produção local, o aproveitamento máximo dos alimentos, a atenção para seus aspectos nutritivos, saúde e segurança alimentar, sustentabilidade, e autonomia das comunidades.

Segundo Francisco Piyãko da Apiwtxa, a ideia central é estimular o potencial das famílias do Alto Juruá para o uso sustentável dos recursos alimentares da Amazônia, seja para o consumo de uma alimentação diversificada, nutritiva e saudável, seja para incremento da produção local e geração de renda.

Dentre as principais receitas confeccionadas pelas(os) doceiras(os) encontram-se delícias como balas, brigadeiro, compota e geleia de banana, pudim de cupuaçu, doce de abóbora com côco, doce de açaí, geleias de manga, caju, e beterraba.
Elizelda Pinheiro do SENAR, instrutora responsável por ministrar as aulas, destacou que é importante as pessoas conhecerem todo o processo de produção de uma receita, desde a melhor forma de manusear e aproveitar uma fruta, até a embalagem, o acondicionamento, os preços e a venda dos produtos.

A atividade teve carga horária de 40 horas e certificou as(os) participantes como doceiras(os). O evento foi encerrado com uma atividade na Sede do município, onde as(os) alunas(os) puderam comercializar os doces produzidos no curso.

27/10/16

COM APOIO DO BNDES, APIWTXA REALIZA MAIS UM MÓDULO DO CURSO DE AGROECOLOGIA PARA COMUNIDADES DO ALTO JURUÁ

Mais de 50 moradores da Reserva Extrativista do Alto Juruá, Ashaninka da Terra Indígena Kampa do Rio Amônia e da Terra Indígena Kaxinawá-Ashaninka do Rio Breu participaram do II Módulo do Curso de Agroecologia do Projeto Alto Juruá, promovido pela Associação Ashaninka do Rio Amônia - Apiwtxa com apoio do BNDES/Fundo Amazônia, entre 11 e 20 de outubro.

A abertura do evento contou com a presença de Francisco Piyãko, Isaac Piyãko, Wewito Piyãko, e Benki Piyãko, lideranças da Associação Ashaninka do Rio Amônia – Apiwtxa, e de representantes da direção da Associação de Seringueiros e Agricultores da Reserva Extrativista do Alto Juruá – ASAREAJ e moradores da ResEx.
Buscando contemplar a demanda das comunidades do Alto Juruá por apoio técnico, e fortalecer intercâmbios entre conhecimentos tradicionais sobre a floresta, a atividade teve início no Centro Yorenka Ãtame, e foi conduzida pelos engenheiros florestais João Jailson Minuzzo e Pedro Cordeiro. Os instrutores reafirmaram que “não é preciso derrubar as espécies nativas para produzir comida, já que a floresta em pé é capaz de fazer isso de maneira muito mais eficiente”, conforme afirmou Cordeiro na abertura do evento.
A programação do curso tratou de temas como planejamento e implantação de sistemas agroflorestais, formação e fertilidade de solos, e permitiu o desenvolvimento de práticas como coleta de mudas e sementes, realização de canteiros, sementeiras e viveiros, e atividades de poda. Tudo foi realizado por meio de dinâmicas teóricas e práticas de aprendizagem.

Desde a última segunda-feira (17), o Curso contou com oficinas de práticas agroecológicas realizadas na ResEx do Alto Juruá e na Terra Indígena Kampa do Rio Amônia. O local onde, em breve, será inaugurada a nova sede da Associação de Seringueiros e Agricultores da Reserva Extrativista do Alto Juruá - ASAREAJ, foi visitado pelos participantes, que em seguida, se deslocaram para as quatro localidades onde ocorreram as oficinas. As práticas aconteceram de 18 a 20 nas comunidades Novo Horizonte, Iraçu, Matrinchã e Aldeia Apiwtxa, e foram abertas à participação dos moradores.


O instrutor João Jailson, que orientou a oficina na comunidade do Iraçú, afirmou sentir que os participantes do curso estão bem orientados a respeito desse tipo de prática agroecológica, “o pessoal daqui tem uma boa base de conhecimento sobre sistemas agroflorestais; por isso, procuramos trazer algo novo para eles, como a coleta e multiplicação de microrganismos, um conhecimento que acredito ter atraído bastante atenção e interesse.”  

Francisco Márcio da Silva, jovem da comunidade de Iracema registra: “os ensinamentos dos trouxeram coisas que eu não sabia muito bem, e agora com esse apoio, creio que vou poder falar para minha comunidade que a nossa esperança ficou mais forte para fazer as coisas acontecerem por lá”. Ele constata que para a juventude de sua comunidade o estudo é importante, mas é igualmente fundamental aprender e contribuir com os trabalhos que os mais velhos fazem para conservar a Reserva e produzir para a sustentação das famílias, para poder passar adiante para as futuras gerações.
Maria Vanuzia Conceição do Nascimento também diz ter aprendido muitas coisas que não sabia, para levar para os seus e levantar a Reserva. Ela acredita que o maior exemplo que aprendeu foi sobre a Apiwtxa, “que andou com suas próprias pernas, não esperou ninguém, levantou a cabeça, seguiu em frente e conseguiu muitas coisas”. Como mulher que assume seu papel na comunidade, Vanuzia diz estar firme para ajudar no trabalho, na força de vontade, no que for preciso para seguir esse exemplo da Apiwtxa, e ressalta que o Curso contribuiu muito nesse sentido.
Os moradores da Resex demonstraram-se satisfeitos por sua participação, o que tem levado a Apiwtxa a acreditar na importância da continuidade desse ciclo de oficinas agroecológicas, para que outras comunidades possam ter acesso a esse apoio. As lideranças da Apiwtxa acreditam que essa parceria estimula as comunidades da Reserva do Alto Juruá a trabalhar em busca de mais autonomia para sua população, por meio de sua própria produção, mas sempre manejando os recursos de seu território de modo sustentável, com respeito e conservação da floresta.

17/10/16

ÚLTIMOS ACONTECIMENTOS DA APIWTXA

Os últimos dois meses foram marcados por intensas atividades da Associação Ashaninka do Rio Amônia e na comunidade Apiwtxa. Entre os dias 7 e 12 de setembro foi realizada uma oficina de fotografia para representantes da Apiwtxa, na Terra Indígena Kampa do Rio Amônia, ministrada pelo fotógrafo Pedro Kuperman. O resultado da Oficina foi excelente, com uma produção de fotos incríveis pelos alunos Ashaninka.
Também, a comunidade deu andamento ao mapeamento das espécies florestais para o plano de manejo de coleta de sementes nativas, com apoio do BNDES/Fundo Amazônia – uma ação estruturante para a futura comercialização de sementes para o reflorestamento.

O início de outubro foi marcado pela vitória de um representante da comunidade Apiwtxa – Isaac Piyãko – para a prefeitura de Marechal Thaumaturgo. Isaac é o primeiro prefeito indígena eleito no Estado do Acre. A eleição vitoriosa aponta para uma futura gestão municipal mais participativa e parceira das ações da Apiwtxa.
Ainda no dia 07 outubro ocorreu uma reunião da equipe do Projeto Alto Juruá com o BNDES/Fundo Amazônia, no Rio de Janeiro, na qual foram discutidos os avanços do Projeto junto às comunidades beneficiárias e as perspectivas de futuro. A execução do Projeto tem sido exemplar e foi muito elogiada pelos representantes do Banco.

Entre os dias 7 e 9 de outubro, também no Rio de Janeiro, foi realizada uma exposição de arte e artesanato dos Ashaninka do Rio Amônia, durante o evento Arte de Portas Abertas, em Santa Tereza. A exposição foi organizada pela Casa de Empreendedores Urbanos – CEU e contou com a presença de obras de colaboradores do povo Ashaninka do Rio Amônia, como fotografias de Sebastião Salgado, Oskar Matzavath e Alice Fortes. Foram também expostas ilustrações de Moisés Piyãko, atual Presidente da Apiwtxa. Durante os três dias, a exposição recebeu a visita de vários parceiros da Apiwtxa e do público em geral, que também participou das duas rodas de conversa promovidas durante a exposição.
Por fim, mas não por último, a Apiwtxa se fez presente no encontro sobre gestão territorial na fronteira promovido pela Comissão Pró-Índio do Acre/CPI-AC, na Terra Indígena Kaxinawá-Ashaninka do Rio Breu, durante o qual pode se reunir com representantes indígenas para tratar de ações de articulação na fronteira Brasil-Peru. Na ocasião, ficou marcado um encontro de monitoramento territorial junto à Aconadiysh, que ocorrerá no Centro Yorenka Ãtame no final de outubro, com vistas a fortalecer as ações de gestão territorial compartilhada nas comunidades indígenas da fronteira.

21/09/16

APIWTXA REALIZA REUNIÃO SOBRE PROTEÇÃO TERRITORIAL

Respondendo a uma demanda dos Ashaninka do Rio Amônia, o Exército Brasileiro e a Fundação Nacional do Índio – FUNAI deslocaram-se à aldeia Apiwtxa para realizar reunião sobre a situação da proteção territorial da Terra Indígena Kampa do Rio Amônia, nos dias 30 e 31 de agosto.
Os Ashaninka da Apiwtxa realizam, rotineiramente, ações de vigilância e proteção territorial em sua Terra, de modo a garantir a integridade dos recursos naturais e evitar invasões. Desde janeiro, a Apiwtxa vem informando a Funai acerca de invasões que estão ocorrendo em seu território, sobretudo por caçadores e pescadores ilegais nos cursos dos rios Arara e Amônia. Esses invasores ingressam na Terra Indígena em busca de animais e peixes para comercializar ilegalmente no Município de Marechal Thaumaturgo. Com frequência, os invasores procuram esses recursos em território peruano, utilizando os rios da Terra Indígena como passagem para acessar outros territórios. No entanto, a preocupação dos Ashaninka da Apiwtxa é com o impacto que essas atividades ilegais têm no manejo dos recursos naturais de sua Terra pois, ainda que sejam retirados de territórios vizinhos, acabam por reduzir o estoque de animais em seu território. Além disso, estas invasões trazem outros problemas sociais associados, como exploração e abusos a comunidades vizinhas, que trocam os animais por mercadorias de valor muito inferior ao preço do produto ilegal na cidade, além de, muitas vezes, serem enganadas e abusadas por meio da oferta de bebidas alcoólicas.
Durante a reunião, foram expostos ao Exército e à Funai a situação e os desafios de proteção territorial da Terra Indígena, bem como foram discutidas possíveis estratégias de cooperação e apoio entre os órgãos para que trabalhem em uma articulação regional a fim de combater as atividades ilegais. Também, a Apiwtxa apresentou às instituições as iniciativas atuais em que a comunidade está envolvida, como o Projeto Alto Juruá (BNDES/Fundo Amazônia), que está instalando e equipando três postos de vigilância na Terra Indígena, bem como a parceria com a University College London/ExCiteS e a Comissão Pró-Índio do Acre – CPI/AC, que tem apoiado o monitoramento territorial com tecnologia digital.
No segundo dia de reunião, houve uma discussão interna da Apiwtxa, na qual foi feito o planejamento das ações de vigilância até o final o ano, bem como foram debatidos o uso e a gestão dos equipamentos utilizados para vigilância que pertencem à Associação, como GPS, celulares, baterias, binóculos, câmeras fotográficas, etc. A Apiwtxa espera, por meio da articulação com as instituições competentes e pelo fortalecimento das ações internas de monitoramento, garantir a proteção da Terra Indígena e assegurar os recursos necessários à segurança alimentar da comunidade.




24/08/16

PRODUÇÃO DE MUDAS PELO PROJETO ALTO JURUÁ SURPREENDE

Após 11 meses do início do Projeto Alto Juruá, apoiado com recursos do BNDES/Fundo Amazônia e executado pela Associação Ashaninka da Rio Amônia - Apiwtxa, nossa equipe esteve em campo para verificar a produção de mudas nas comunidades beneficiadas pela iniciativa. Estivemos realizando o monitoramento em 50% das comunidades beneficiárias da Reserva Extrativista do Alto Juruá, bem como na Terra Indígena Kampa do Rio Amônia e no Centro Yorenka Ãtame. Ficaram de fora da contagem, até o momento, as demais comunidades da ResEx e da Terra Indígena Kaxinawá e Ashaninka do Rio Breu. Ainda assim, já atingimos a marca de 48.871 mudas produzidas, o que demonstra um resultado extremamente positivo neste quase um ano de trabalho intenso com as populações indígenas e extrativistas da região do Alto Juruá.
O trabalho de produção de mudas contou, ao longo do último ano, com orientação aos comunitários por meio de capacitações, oficinas de práticas agroecológicas e ações de acompanhamento e monitoramento, além de um pequeno apoio com materiais e equipamentos. As cinco comunidades que hospedaram as oficinas de práticas agroecológicas na ResEx se destacaram pelo número de mudas produzidas: 16.637 – o que demonstra a importância de ações em campo de acompanhamento dos trabalhos.
O grande desafio a partir de agora é o cuidado com as mudas, para que elas cresçam e se desenvolvam nas áreas de reflorestamento. Para que isso ocorra, buscaremos reforçar as ações de monitoramento e de capacitação, aprimorando as técnicas de manejo dos sistemas agroflorestais, para que no futuro eles sejam produtivos e sirvam de alimento e de uma fonte de renda sustentável para as comunidades do Alto Juruá.
Fotos de Naiana Gomes Bezerra

17/08/16

3º MÓDULO DO CURSO DE FORMAÇÃO CONTINUADA EM GESTÃO DE PROJETOS E NEGÓCIOS SUSTENTÁVEIS PARA A COMUNIDADE APIWTXA


O curso, que aconteceu entre os dias 16 e 18 de julho de 2016 na Aldeia Apiwtxa, no rio Amônia, estado do Acre, contou com a participação de trinta representantes da comunidade, incluindo os dirigentes da Associação Ashaninka do Rio Amônia – Apiwtxa; e da Cooperativa Agroextrativista Asheninka do Rio Amônia – Ayõpare. O curso teve apoio do BNDES/Fundo Amazônia no âmbito do Projeto Alto Juruá e foi ministrado por Márcio Calvão, da empresa de consultoria Instituto Rever.

Como parte das atividades propostas, foi feita uma revisão sobre conceitos como patrimônio e modelo organizacional; o inventário de bens e patrimônios que começou a ser preenchido após o segundo módulo foi visto por todos em conjunto; e a estrutura comercial da cooperativa foi analisada em seu estágio atual e planejada para os projetos futuros. Temas como controle de vendas e compras, tabela de preços, relação com cooperados e modelo de negócios foram discutidos.

O evento contou ainda com a participação da consultora de branding Carolina Montenegro, que explicou o significado da expressão branding, falou sobre a importância de uma marca forte para os produtos produzidos e comercializados pela comunidade; e sobre o diferencial desses produtos que, além do objeto em si, carregam o valor de serem feitos de forma sustentável, mantendo a floresta em pé, e portanto permitindo que o meio ambiente seja preservado.

O curso possibilitou maior compreensão dos participantes com relação a forma de se organizar tanto estruturalmente, como com relação a seus bens, e com isso compreender e melhor aproveitar os frutos e possibilidades que surgem disso. Acima de tudo, houve um fortalecimento da associação e da cooperativa como braços operacionais da comunidade, sem ferir a forma tradicional de organização social do povo Ashaninka, como instância maior de deliberação.


15/07/16

RESEX ALTO JURUÁ PLANEJA SEU MODELO DE GOVERNANÇA

Na semana de 11 a 14 de julho, foi realizado o planejamento estratégico da ASAREAJ (Associação de Seringueiros e Agricultores da Reserva Extrativista do Alto Juruá) no Centro Yorenka Ãtame. Márcio Calvão, do Instituto Rever, e Maria Augusta Assirati guiaram o processo que contou com a presença de vinte e dois representantes de diferentes comunidades da Resex, dezesseis moradores da Terra Indígena Kaxinawá e Ashaninka do Rio Breu e dois participantes de Sawawo, no Peru. O planejamento contou ainda com a colaboração da dra. Claudia Aguirre, defensora pública do estado do Acre, e da consultora de branding Carolina Montenegro. Essa atividade faz parte do projeto Alto Juruá, uma parceria entre a Associação Ashaninka Apiwtxa e o BNDES/Fundo Amazônia.

Durante o encontro, foram desenvolvidas a visão e a missão da ASAREAJ e esse planejamento reflete o novo momento da reserva extrativista após o declínio do ciclo da borracha, e busca um modelo de desenvolvimento sustentável que possibilite a sustentabilidade econômica das famílias que nela vivem sem derrubar a floresta, e sim valorizando o meio ambiente como sua grande riqueza.
José Carlos Oliveira da Silva, da comunidade Novo Horizonte, percebeu a estratégia do planejamento como "ver o que está precisando fazer para o futuro da Reserva e discutir as formas que devemos trabalhar para seu desenvolvimento". Ele sentiu que o processo trouxe mais esperança e ânimo aos participantes, e vê a necessidade de terem parceiros como a organização Apiwtxa para sua plena aplicação.

11/07/16

A ALIANÇA VIVE

De um lado, os indígenas do Povo Ashaninka da comunidade Apiwtxa do Amônia. Do mesmo lado, os extrativistas da Resex Alto Juruá. Todos juntos em defesa de uma gestão sustentável e solidária dos territórios que compõem o mosaico de áreas protegidas da região do Juruá.

Assim se configura mais um episódio da Aliança do Povos da Floresta, idealizada por Chico Mendes em meados dos anos oitenta para unificar as principais bandeiras dos movimentos sociais da Amazônia em sua luta pelo desenvolvimento sustentável da região.

No início do mês de maio, foi realizado, no Centro Yorenka Ãtame, o curso para monitores ambientais da Reserva Extrativista Alto Juruá, do qual participaram mais de quarenta representantes de trinta e quatro comunidades. Tive a honra de, junto com o professor Mauro Almeida e a gestora da Reserva Extrativista Riozinho da Liberdade, Júlia Vilela, ministrar algumas palestras no evento, que integra o conjunto de ações do projeto Alto Juruá.
Ficou evidente que naquele momento, não havia alunos, nem professores. Todas e todos ensinávamos e aprendíamos, juntos, ao mesmo tempo. Afinal, os extrativistas têm uma sabedoria ampla acerca do funcionamento de tudo o que vive em seu território. Além disso, são  protagonistas de sua própria história. Conhecem bem, e a fundo, cada detalhe do processo que há por trás da constituição de sua Reserva. Foram eles os responsáveis pelo alcance dessa conquista. Nada foi fácil. E todas as conquistas seguem exigindo disposição para a luta; o que eles têm de sobra.

O Projeto Alto Juruá, de autoria dos Ashaninka da Apiwtxa, é o primeiro do Fundo Amazônia aprovado diretamente em favor de uma associação indígena no Brasil, iniciado em abril de 2015 pelo Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social – BNDES. Com duração de três anos, atua no assessoramento, capacitação e implantação de sistemas agroflorestais; apoio à gestão territorial e ambiental às comunidades indígenas e tradicionais do Alto Juruá; e desenvolvimento institucional das organizações comunitárias.

Um dos grandes diferenciais do projeto é o fato de que as ações não foram pensadas para beneficiar apenas as populações indígenas, mas também as comunidades da Resex Alto Juruá, vizinha à Terra Indígena. Isso revela a manifesta sabedoria dos povos tradicionais que, não só compreendem que a conservação e o respeito à floresta dependem da união das forças de todos na região, mas exercem a solidariedade entre vizinhos irmanados em direitos e deveres em relação à Mãe Terra.

As comunidades da Resex andam preocupadas com o futuro das comunidades e do território. Dificuldades na geração de renda por meio das atividades produtivas tradicionais, chegaram a desanimar. Mas, valentes que são, impulsionados pelo apoio dos vizinhos Ashaninka, os membros das comunidades da Resex reagiram. Após a parceria estabelecida por meio do Projeto Alto Juruá, os extrativistas avançaram rapidamente no plantio de sistemas agroflorestais (SAFs). A grande maioria das comunidades envolvidas já iniciou seus plantios, preparando a terra, construindo viveiros e plantando mudas. A ideia do Projeto é consolidar uma rede de proteção ambiental dos territórios e de cooperação em atividades voltadas à geração de renda.

Essa imagem foi a mais importante que vi por lá ao participar de um capítulo dessa história que os Povos da Floresta estão escrevendo. Eu vi gente sábia, íntegra, competente e batalhadora, trabalhando duro para garantir um futuro para si e para os seus com respeito profundo ao meio ambiente. Para garantir um futuro para a floresta, tirando dela o seu sustento. A tradicionalidade materializada nas propostas, nas falas, nos atos. Vi todo mundo cheio de vontade de aprender e de ensinar. Disponibilidade de estender e dar as mãos; e de construir a partir de muitas cabeças e mãos, essa tal gestão sustentável. Vi a Aliança em movimento. De onde estiver, Chico deve estar sorrindo também, ao constatar que a Aliança segue bela e forte!

Por Maria Augusta B. Assirati


04/07/16

ALDEIA APIWTXA COMEMORA 24 ANOS DE DEMARCAÇÃO DE SEU TERRITÓRRIO

Durante três dias, de 22 a 24 de junho, os Ashaninka do Rio Amônia comemoraram os 24 anos de demarcação de seu território com uma festa que é a principal celebração da comunidade, à qual compareceram não apenas os moradores da Terra Indígena, mas também convidados de fora. 

Estiveram presentes mais de 200 visitantes de vários lugares, como os parentes Poyanawa, Apolima Arara e Ashaninka do Breu, moradores da cidade de Marechal Thaumaturgo, representantes dos Ashaninka do Peru e convidados de outras partes do Brasil e do mundo. A festa teve muitas atividades, como música tradicional, demonstrações de arco e flecha e jogo de futebol. Durante o encontro foi servida a caiçuma, bebida tradicional do povo Ashaninka.

A Terra Indígena Kampa do Rio Amônia, homologada em 1992, abrange 87.205 hectares e sua conquista é um marco na luta do povo Ashaninka. Hoje seu território é protegido e manejado, com um plano de gestão que é exemplo para outras comunidades. O trabalho de preservação ambiental e uso sustentável dos recursos desenvolvido pela Apiwtxa é reconhecido no Brasil e no exterior.
(Fotos de Eliane Fernandes)

16/06/16

TODOS JUNTOS POR UMA TRANSFORMAÇÃO LIBERTADORA

A partir de um sonho, de uma visão de futuro, é possível transformar tudo o que se quer. Assim nos ensinam as histórias da família Piyãko Ashaninka.

A área em que vivem as comunidades indígenas do Povo Ashaninka constitui um vasto território que compreende desde a região do Alto Juruá e do rio Envira no Brasil, até a cordilheira andina no Peru. 

Os Ashaninka do rio Amônia (afluente do Juruá) somam mais de 800 indivíduos. Grande parte do grupo situa-se hoje na Terra Indígena Kampa do Rio Amônia, demarcada em 1992 com 87.205 hectares. Dentro dessa TI, na aldeia Apiwtxa, ou no lugar onde “todos juntos” expressam o sentido sagrado do ser, vive a família Piyãko.

Contam por ali que certo dia, há muito tempo atrás, uma grande liderança tradicional, política e espiritual, de nome Samuel Piyãko, estabeleceu morada às margens do Amônia para cumprir sua missão de escrever as primeiras páginas da história de uma família, e plantar as sementes da luta um Povo que mudaria para sempre o destino daquela região. Anos depois, seu filho Antônio Piyãko, seguindo seu destino na saga, casou-se com uma mulher forte, filha de seringueiros da região, de nome Francisca. Da união de seu Antônio com dona Piti, como todo mundo a conhece, nasceram 07 guerreiros Ashaninka. A cada um coube carregar um espírito diferente, dotado de uma força e um talento próprios, e exercer um dom singular. E “todos juntos” respondem hoje pela continuidade desse enredo de resistência cultural, preservação e valorização da floresta como entidade suprema de força e vida, e afirmação de um modo solidário e belo de convivência em comunidade e em sociedade.      

Os irmãos Francisco, Moisés, Isaac, Benki, Dora, Alexandrina, e Bebito, sete filhos de dona Piti e seu Antônio, são hoje os protagonistas da mobilização que vem marcando a trajetória das gentes, da floresta, e dos territórios no Alto Juruá.

O impulso das ideias e atitudes dos Piyãko levou a comunidade da Apiwtxa a promover a substituição de um conjunto de atividades que vinham sendo desenvolvidas em sua Terra, por um modo de produção sustentável, orientado pela conservação ambiental, em busca da autonomia do grupo. Assim, práticas como a destinação de áreas de pasto para criação de gado, e a extração indevida de recursos naturais, por exemplo, foram erradicadas ali há bastante tempo. Hoje, o território indígena é objeto de uma gestão eficiente e cuidadosa, centrada na conservação e uso sustentável dos recursos naturais, e no respeito e valorização da floresta como provedora da vida, da alimentação, e da saúde material e espiritual.

Foi na década de 1990 que os Ashaninka da Apiwtxa definiram sua estratégia de gestão territorial e ambiental, expressa no Plano de Gestão Territorial e Ambiental da Terra Indígena Kampa do Amônia. Realizaram o etnomapeamento da área, reconhecendo os espaços e recursos de seu território e planejaram a forma de seu uso. Com o apoio de parcerias estabelecidas no âmbito de diversos projetos, hoje a comunidade desenvolve o manejo de quelônios, a criação de peixes e a implementação de sistemas agroflorestais, protegendo esses recursos e, ainda, promovendo saúde e segurança alimentar à comunidade.

Nesse processo, foram fundadas pela comunidade, a cooperativa Ayõpare (“troca/negócios”, em Ashaninka), e a associação Apiwtxa (“todos juntos”, em Ashaninka). Sua gestão é efetuada por um coletivo de líderes comunitários que dialogam constantemente com toda população da Terra Indígena.

Os indígenas têm investido no aperfeiçoamento da proteção e gestão territorial local, intensificando suas atividades de monitoramento, a fim de evitar invasões de terceiros, e consequentes práticas de crimes dentro de suas terras, como por exemplo, o desmatamento para extração e comercialização ilegal de madeira. Estabeleceram parcerias visando a sofisticação de táticas e equipamentos para cumprimento desse objetivo de proteção territorial.  

Vêm, ainda, promovendo o reflorestamento e o plantio de frutíferas com vistas à recuperação de áreas degradadas, formação de jovens, fortalecimento da segurança alimentar e melhoria da qualidade de vida das comunidades, além da articulação com parentes do Peru e realização de ações e campanhas contra o desmatamento do território Ashaninka no país vizinho.  

É importante destacar também, o Centro Yorenka Ãtame (“saberes da floresta”, em Ashaninka). Criado em 2007 pelos Ashaninka da Apiwtxa, é um espaço voltado ao compartilhamento de saberes, conhecimentos, e aprendizados, entre indígenas e não-indígenas. Serve para realização de eventos de articulação entre as comunidades da região, organização e consolidação de alianças que visam o fortalecimento das populações locais, de atividades de promoção do cuidado com os recursos da floresta, investimento no meio ambiente saudável, valorização das culturas, e respeito aos direitos humanos e sociais.

Os Ashaninka da Apiwtxa são autores do primeiro projeto do Fundo Amazônia aprovado diretamente em favor de uma associação indígena no Brasil, o Projeto Alto Juruá, iniciado em abril de 2015 pelo Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social – BNDES. Com duração de três anos, o projeto atua em três principais eixos: assessoramento, capacitação e implantação de sistemas agroflorestais; apoio à gestão territorial e ambiental às comunidades indígenas e tradicionais do Alto Juruá; e desenvolvimento institucional das organizações comunitárias. Dentre suas atividades, estão a realização de cursos de formação na área de agroecologia, gestão territorial e ambiental e de projetos, construção de bases de vigilância e de estrutura para a produção e comercialização de polpa de frutas.

O projeto conta com um diferencial relevante. As ações não foram pensadas para beneficiar apenas as populações das Terras Indígenas. Elas alcançam também as comunidades tradicionais da Reserva Extrativista do Alto Juruá, território vizinho à Kampa do Rio Amônia. Isso revela a manifesta sabedoria Ashaninka que, não só compreende que a conservação e o respeito à floresta dependem da união das forças de todos os povos e comunidades da região, mas propicia o exercício da solidariedade para com os vizinhos irmanados em direitos e deveres em relação à Mãe Terra.

Tive a honra e a satisfação de, a convite da família Piyãko, acompanhar parte do curso de agroecologia ocorrido no final do ano passado, e de ministrar algumas aulas no curso para monitores ambientais da Reserva Extrativista, em maio de 2016. As duas atividades se efetivaram no âmbito do Projeto Alto Juruá. As histórias da Reserva e dos atores de suas comunidades merecem ser contadas em capítulo à parte, tamanha a riqueza que carregam!

A partir dessa vivência, me pergunto de que forma poderia eu expressar em palavras a ação que está em curso por lá. Talvez seja difícil precisar num relato tudo que está se passando ali. Só sei das lembranças, dos sentimentos. Sei da verdade que meu coração sente em tudo o que meus olhos viram. E sei como interpreto as histórias que ouvi e vivi por lá. O que há por lá é uma força transformadora. Uma reunião de espíritos, mentes, saberes e fazeres cooperando para mudar o que não anda bem nesse mundo. Todos juntos atuando para transformar a exclusão, o preconceito, a violência, e a ignorância. Para transformar um projeto de sociedade que concentra recursos e renda nas mãos de poucos e que promove uma brutal exploração econômica e destruição da terra, em um modo saudável, respeitoso, fraterno, solidário e sustentável de viver e conviver. Vi a concretização de um novo paradigma de atuação política, que acolhe os elementos e conhecimentos tradicionais na construção e implementação coletivas e interculturais de um projeto de desenvolvimento social, ambiental, e cultural.


Numa noite, num terreiro da aldeia, enquanto prateávamos sob uma claríssima e linda lua crescente, uma estrela me contou que essa história, embora não tenha data para terminar, terá um final feliz. Eu acredito! E desejo que estejamos todos juntos nessa luta.

Por Maria Augusta Assirati