23/12/2010

Assessor dos Povos Indígenas Francisco Pianko homenageia Binho Marques

Assessor dos povos índigenas homenageia governador Binho Marques (Foto: Sérgio Vale)

Governador foi presenteado com vestimentas indígenas do povo Ashaninka

por Samuel Bryan, Agência de Notícias do Acre, 21/12/2010

O Assessor dos Povos Indígenas Francisco Pianko, prestou uma homenagem especial ao governador Binho Marques na noite de segunda-feira (20), no gabinete do governo. No encontro, Francisco Pianko passou para as mãos do governador um traje indígena do povo Ashaninka, um cocar, um lenço e um livro sobre as tradições indígenas.

O traje passado para as mãos do governador Binho Marques foi o mesmo com que Pianko passou todo o governo. “É como se você carregasse todo o povo Ashaninka junto com você”, explica Pianko sobre a simbologia do traje, que é feito de algodão plantado na própria aldeia Ashaninka, com os fios produzidos pelas mulheres e que demora em média dois anos para ser confeccionado.

O Assessor também aproveitou para agradecer o projeto do governo para as políticas indígenas. Emocionado, Pianko afirmou que “nós vivemos uma grande mudança na política indígena num projeto que suas bases foram as comunidades”.

O governador ficou muito feliz com o gesto, “é um grande presente de final de governo”. Binho agradeceu Pianko pelo trabalho realizado, relembrando como as políticas indígenas deram um importante passo a partir do governo Jorge Viana e dando continuidade a esse projeto.

“Eu tenho certeza que daqui 10, 15 anos, nós vamos encontrar um Acre muito melhor, mas muitas dessas mudanças fomos nós que implantamos agora”, comentou o governador.

18/12/2010

Vida e Morte na Amazônia Indígena: as Invasões Madeireiras e os Povos Ashaninka

TJAC e ESMAC promovem palestra sobre invasões madeireiras e os povos Ashaninka

Portal Amazônia, 16/12/2010

RIO BRANCO - O presidente do Tribunal de Justiça do Estado do Acre (TJAC), desembargador Pedro Ranzi, e a diretora da Escola Superior da Magistratura do Acre (Esmac), desembargadora Eva Evangelista, receberão a comunidade forense para a palestra de apresentação e lançamento da obra “Vida e Morte na Amazônia Indígena: as Invasões Madeireiras e os Povos Ashaninka”, de autoria do Procurador da República Marcus Vinicius Aguiar Macedo, nesta quinta-feira (16).

O evento encerra a programação de atividades da ESMAC em 2010. Aberto ao público, ele acontecerá às 18 horas, no plenário do Palácio da Justiça, Centro Cultural do Tribunal de Justiça do Acre, em Rio Branco.

A obra a ser lançada é fruto da dissertação de mestrado defendida pelo procurador no ano de 2008, e consiste em uma pesquisa teórica e legislativa, além de estudo de caso dos povos Ashaninka, da Reserva Indígena do Rio Amônia, no município de Marechal Thaumaturgo (AC), na fronteira entre Brasil e Peru.

O estudo busca identificar uma solução no âmbito das relações internacionais para a devastação ambiental da Amazônia em zonas de fronteira, causada pelo desmatamento ilegal praticado por madeireiros peruanos em reservas indígenas, com prejuízos ao acervo cultural de suas comunidades.

A análise também aborda a questão sob a perspectiva de que o problema corresponde a uma agressão à soberania nacional, por se tratar de invasão de terras brasileiras por estrangeiros.

Ao examinar os conflitos sociais advindos dessa problemática, o autor discorre sobre o meio ambiente amazônico, sua riqueza natural, as diversas fases de ocupação e exploração econômica dessa porção geográfica, a tutela penal da floresta, a atuação do Ministério Público Brasileiro na defesa do meio amazônico, os povos e terras indígenas na região, e o histórico da política indigenista no Brasil.

O palestrante e autor

Marcus Vinicius é Mestre em Direito pela Universidade Federal de Santa Catarina e professor titular do Departamento de Direito da Universidade Federal do Acre. É membro do Ministério Público Federal desde 1996. Iniciou sua carreira profissional no Rio Grande do Sul, junto à cidade de Uruguaiana, tendo também trabalhado por breves períodos em outras unidades ministeriais da Região Sul e depois no Estado de Roraima, antes de vir para o Acre, onde trabalhou de 1999 até 2009.

Durante o tempo em que permaneceu no Estado, exerceu a função de Procurador-Chefe do MPF-AC, também desempenhando a função de Procurador Regional Eleitoral junto ao TRE Acreano. Desde o início de 2009, com a sua promoção ao segundo degrau da carreira ministerial, atua perante o Tribunal Regional Federal da 4ª Região, em Porto Alegre (RS), como Procurador Regional da República.

12/12/2010

Encontro entre Populações Indígenas e Tradicionais do Alto Juruá, fronteira Brasil-Peru


III Intercâmbio entre Populações Indígenas e Tradicionais do Alto Juruá e I Encuentro Binacional Entre Las Organizaciones Indigenas Fronterizas Del Péru Y Brasil

Centro Yorenka Ãtame, 23 a 25 de novembro de 2010

Organizado pela Associação Ashaninka do Rio Amônia – APIWTXA em parceria com a Asociacion de Comunidades Nativas para el Desarollo Integral Yono Sharakoiay – Yurua (ACONADIYSH), o evento teve como tema “Iniciativas de Desenvolvimento Comunitário aliadas a Valorização Cultural e Gestáo Ambiental”. Estavam presentes representantes de organizações e comunidades indígenas dos dois lados da fronteira Acre-Ucayali e pertencentes a bacia do rio Juruá/Yuruá. As comunidades tradicionais localizadas no lado brasileiro da fronteira foram representadas pela Associação dos Seringueiros e Agricultores da Reserva Extrativista do Alto Juruá (ASAREAJ) e membros da Comunidade Agroextrativista Triunfo. Estiveram representados também oito povos indígenas, a saber: Ashaninka, Arara (Shawãdawa), Amahuaca, Jaminawá, Kuntanawa, Nukini, Sharanawa e Shipibo.

Foto: acervo da Associação Ashaninka Apiwtxa
O objetivo do encontro/intercâmbio foi discutir experiências comunitárias e políticas públicas de conservação e uso da (agro)biodiversidade articuladas a valorização dos patrimônios culturais desenvolvidas no Alto Juruá. Essa proposta foi apresentada pela Associação APIWTXA ,que desde 2005 desenvolve ações que denunciam a exploração ilegal de madeira na faixa de fronteira Acre-Ucayali, sensibilizando as comunidades indígenas e tradicionais fronteiriças para os impactos dessa atividade econômica sobre a floresta e as populações que nela habitam.

Foto: acervo da Associação Ashaninka Apiwtxa Lideranças da Apiwtxa: Valdeci Ashaninka, Francisco Pinhanta, Benki Piyãko e Isaac Pinhanta

Para a APIWTXA, esta é a terceira edição de intercâmbios que promove com as comunidades indígenas no territorio peruano abordando temas que relacionam-se com esse contexto. O primeiro intercâmbio foi realizado na aldeia ashaninka Apiwtxa em 2005 (Brasil) e o segundo na aldeia ashaninka Sawawo em 2008 (Peru). Ambos realizaram-se no âmbito do Grupo de Trabalho para Proteção Transfronteiriça da Serra do Divisor e Alto Juruá – Brasil/Peru (GTT).

Foto: acervo da Associação Ashaninka Apiwtxa (dir. para esq.) presidente da ACONADIYSH, prefeito de Yurua, Benki Piyãko, vice-prefeito de Marechal Thaumaturgo e Antônio Piyãko, cacique da Aldeia Apiwtxa

Para a realização deste intercâmbio foi decisiva a iniciativa das organizações ACONADIYSH e ORAU (Organización Regional AIDESEP Ucayali) que mobilizaram lideranças indígenas de sete comunidades localizadas no Alto Juruá em território peruano e as trouxeram para o evento, denominado por essas organizações de “I Encuentro Binacional Entre Las Organizações Indígenas Fronterizas Del Péru y Brasil”. O primeiro de uma série de encontros que essas organizações desejam realizar para a promoção do diálogo e a cooperação transfronteiriça voltadas ao desenvolvimento comunitário em bases econômicas, sociais e ambientalmente sustentáveis e, monitoramento e intervenção em políticas públicas binacionais projetadas para essa região fronteiriça.

Foto: acervo da Associação Ashaninka Apiwtxa Apresentação da ASAREAJ

Esse intercâmbio faz parte também de um projeto realizado pela Associação APIWTXA em parceria com a Associação de Cultura e Meio Ambiente – ACMA (organização socioambientalista localizada no Rio de Janeiro/Brasil) e financiado pelo Ministério da Cultura.

Foto: acervo da Associação Ashaninka Apiwtxa Apresentação da Secretaria Municipal de Meio Ambiente e Turismo de Marechal Thaumaturgo

A seguir são apresentados os encaminhamentos resultantes do intercâmbio/encontro.

Considerando a legislação indigenista e ambiental aplicada no Brasil e Peru, suas especificidades e a Convenção 169 da Organização Mundial do Trabalho (OIT) sobre Povos Indígenas e Tribais, ratificada por ambos os países recomenda-se:

1. Promover a integração entre povos indígenas e tradicionais da fronteira Acre/Brasil – Ucayali/Peru para a obtenção de um desenvolvimento econômico, social, cultural e ambiental sustentável concordante com a visão destas populações;

2. Garantir a participação dos povos indígenas e tradicionais do Alto Juruá e suas aspirações dentro das propostas de integração binacional Brasil-Peru e regionais Acre-Ucayali;

3. Solicitar as autoridades locais e governos, informações e assessoria para promoção de intercâmbio comercial e cultural dos povos indígenas e tradicionais do Alto Juruá na fronteira Brasil-Peru;

4. Gerar projetos produtivos e extrativistas sustentáveis como avicultura, piscicultura, criação e manejo de animais silvestres, artesanato, turismo ecológico, reflorestamento etc;

5. Propor esses projetos para os governos regionais de Acre e Ucayali e as municipalidades de Marechal Thaumaturgo e Yurua, assim como outras instituições cooperantes para obtenção de apoio técnico e financeiro;

6. Organizar oficinas de capacitação e intercâmbios em diferentes temas de interesse comum para os povos indígenas e tradicionais da fronteira Acre/Brasil – Ucayali/Peru;

7. Convidar os representantes das comunidades indígenas e tradicionais, suas organizações e parceiros para participar de eventos promovidos pela Associação APIWTXA e ACONADIYSH, para discussão de assuntos de interesse comum como: desenvolvimento sustentável fronteiriço, ações culturais, ambientais etc.

Assinam:

Organizações de representação de populações indígenas e tradicionais (Brasil/Peru):
Associação Ashaninka do Rio Amônia – APIWTXA
Asociacion de Comunidades Nativas para el Desarollo Integral Yono Sharakoiay – Yurua (ACONADIYSH)
Organización Regional AIDESEP Ucayali (ORAU)
Organização dos Povos Indígenas do Rio Juruá (OPIRJ)
Associação dos Seringueiros e Agricultores da Reserva Extrativista do Alto Juruá (ASAREAJ)

Comunidades indígenas e tradicionais (Brasil):
Comunidade Agroextrativista Triunfo
Comunidade Arara do Rio Amônia
Comunidades Arara do Rio Bagé
Comunidade Kuntanawa Sete Estrelas
Comunidades Ashaninka do Rio Breu

Comunidades indígenas (Peru):
Comunidade El Dorado
Comunidade San Pablo
Comunidade Nueva Victoria
Comunidade Beu
Comunidade Dulce Gloria

Instituições Públicas Convidadas/Observadores:
Governo do Estado do Acre (Assessoria Especial dos Povos Indígenas)
Prefeitura Municipal de Marechal Thaumaturgo (Secretaria de Meio Ambiente e Turismo, Agricultura e Planejamento)
Municipalidad Distrital de Yuruá
Universidade de Brasília (Departamento de Antropologia)

Assessoria Técnica
APIWTXA, Centro Yorenka Ãtame

Marechal Thaumaturgo, Acre, Brasil, 25 de novembro de 2010

25/11/2010

A reinvenção do saber


por Vinícius Carvalho, Revista Estado Ecológico, 24/11/2010

Aldeia Apiwtxa, braço da etnia Ashaninka, promove articulação inédita entre saberes ancestrais e científicos no Alto Juruá, zona de fronteira entre o Acre e o Peru

Com uma po­pu­la­ção de mais de 86 mil in­di­ví­duos, os Asha­ninka for­mam um dos prin­ci­pais po­vos in­dí­ge­nas da Ba­cia Ama­zô­ni­ca. Seu ter­ri­tó­rio es­ten­de-se dos An­des cen­trais pe­rua­nos à Ba­cia do Al­to Ju­ruá, no Acre, on­de o ar­co de fron­tei­ra se­pa­ra a et­nia em dois paí­ses. Do la­do bra­si­lei­ro, vi­vem 1.300 pes­soas. Qua­se me­ta­de ha­bi­ta a Ter­ra In­dí­ge­na (TI) Kam­pa do Rio Amô­nia, pres­tes a abri­gar o pri­mei­ro Cen­tro de Cul­tu­ra da Flo­res­ta do Bra­sil.

A par­ce­ria, fir­ma­da com o Mi­nis­té­rio da Cul­tu­ra (MinC) e a As­so­cia­ção de Cul­tu­ra e Meio Am­bien­te (AC­MA), be­ne­fi­cia­rá mais de seis mil ha­bi­tan­tes, de 16 po­voa­dos da et­nia Asha­ninka na re­gião - par­te no Bra­sil, par­te no Pe­ru - e ou­tras no­ve mil que vi­vem na re­ser­va ex­tra­ti­vis­ta da Ba­cia do Al­to Ju­ruá. Em vez da usual tu­te­la go­ver­na­men­tal, que co­lo­ca téc­ni­cos e de­mais ges­to­res no co­man­do dos pro­je­tos di­ri­gi­dos aos po­vos in­dí­ge­nas, des­sa vez os pró­prios Asha­ninka fi­ca­rão res­pon­sá­veis pe­la ad­mi­nis­tra­ção do cen­tro.

A me­ta é cons­truir um es­pa­ço mul­tiu­so, com au­di­tó­rio, es­tú­dio de gra­va­ção mu­si­cal e so­no­ri­za­ção, ca­ma­rim e tea­tro de are­na. Or­ça­da em R$ 4,7 mi­lhões, a in­fraes­tru­tu­ra se­rá im­plan­ta­da ao lon­go de três anos. A es­co­lha pe­la et­nia não foi à toa. Re­fe­rên­cia in­ter­na­cio­nal na in­te­gra­ção en­tre sa­be­res an­ces­trais e cien­tí­fi­cos, os Asha­ninka vão ins­ta­lar os equi­pa­men­tos no Cen­tro Yo­renka Ãta­me, inau­gu­ra­do há três anos pe­la fa­mí­lia Asha­ninka Pyanko pa­ra pro­mo­ver a união de ín­dios e bran­cos em fa­vor da flo­res­ta em pé.

Na área de 86 hec­ta­res com­ple­ta­men­te de­vas­ta­dos pe­lo ga­do, ad­qui­ri­da com o apoio de ON­Gs, na se­de do mu­ni­cí­pio de Ma­re­chal Tau­ma­tur­go, os ín­dios plan­ta­ram mais de 80 mil mu­das, de 146 es­pé­cies de ár­vo­res, en­tre fru­tí­fe­ras e ma­dei­ras de leis. O su­fi­cien­te pa­ra as­se­gu­rar, por ano, mais de 50 to­ne­la­das de ali­men­to.

"Vi­mos que pre­ci­sá­va­mos ex­por­tar es­se re­ca­do pa­ra fo­ra, pa­ra ex­tra­ti­vis­tas e ri­bei­ri­nhos tam­bém com­preen­de­rem que, no nos­so en­tor­no, é pos­sí­vel vi­ver com a flo­res­ta em pé", lem­bra o xa­mã e lí­der Asha­ninka Benki Pianko. Ven­ce­dor do Prê­mio Na­cio­nal de Di­rei­tos Hu­ma­nos, ele car­re­ga a mar­ca de dois mun­dos. Da união en­tre o pai, Asha­ninka, e a, mãe se­rin­guei­ra, diz ter apren­di­do a cul­ti­var a ino­va­ção com res­pei­to às tra­di­ções de seu po­vo.

ES­PÉ­CIES PER­DI­DAS

Além de tra­zer de vol­ta à al­deia es­pé­cies per­di­das de amen­doim, mi­lho e ba­ta­ta, ele e os ir­mãos tam­bém re­cu­pe­ra­ram pe­lo ma­ne­jo a ca­na­bra­va, es­pé­cie de ár­vo­re usa­da pe­los an­ces­trais Asha­ninka pa­ra a pro­du­ção de fle­chas. Es­sas e ou­tras ações cons­tam do Pla­no de Ges­tão Ter­ri­to­rial da al­deia, pu­bli­ca­do pe­los in­dí­ge­nas em Aruak e por­tu­guês. "Po­de­mos aju­dar a de­sen­vol­ver um no­vo olhar so­bre o mun­do, co­me­çan­do pe­lo res­pei­to e o co­nhe­ci­men­to das di­fe­ren­tes for­mas de sa­ber. É is­so que que­re­mos", diz Benki.

"É a pri­mei­ra vez que ve­jo uma co­mu­ni­da­de sis­te­ma­ti­zar e dis­por co­nhe­ci­men­tos des­sa ma­nei­ra pa­ra os não-ín­dios", afir­ma João For­tes, di­re­tor da AC­MA e um dos ge­ren­tes do pro­je­to.

Par­te des­ses co­nhe­ci­men­tos, ex­pli­ca, já che­gou a 17 co­mu­ni­da­des de agri­cul­to­res, ri­bei­ri­nhos e ex­tra­ti­vis­tas que ha­bi­tam o en­tor­no da ter­ra in­dí­ge­na. En­tre elas es­tá a Vi­la Res­tau­ra­ção, co­mu­ni­da­de de mil pes­soas que tro­cou o ga­do por um sis­te­ma agro­flo­res­tal im­plan­ta­do com o apoio dos Asha­ninka, que tam­bém trans­fe­rem tec­no­lo­gias sim­ples e de bai­xo cus­to nas áreas de co­le­ta de se­men­tes, or­ga­ni­za­ção co­mu­ni­tá­ria, ma­ne­jo de fau­na e pro­du­ção de mel. "Vi­mos que o des­ma­ta­men­to ia aca­bar che­gan­do de um jei­to ou de ou­tro, se não fi­zés­se­mos na­da. En­tão, nos adian­ta­mos pa­ra não ter de bri­gar", brin­ca Benki.

O mo­de­lo de ges­tão do cen­tro, sob co­man­do in­dí­ge­na, es­tá lon­ge de ser tri­vial. Em 1995, uma pes­qui­sa do Ins­ti­tu­to So­cioam­bien­tal re­ve­lou a exis­tên­cia de 109 or­ga­ni­za­ções em de­fe­sa dos di­rei­tos in­dí­ge­nas no país, nú­me­ro que sal­tou pa­ra 318 em 2001. A ex­pan­são pros­se­guiu até 2009, quan­do fo­ram iden­ti­fi­ca­das 486 en­ti­da­des do ti­po. O qua­dro, se­gun­do a his­to­ria­do­ra Po­lie­ne Soa­res, re­ve­la três no­vas fren­tes de atua­ção do mo­vi­men­to in­dí­ge­na bra­si­lei­ro: a for­ma­ção de li­de­ran­ças pró­prias, a ar­ti­cu­la­ção en­tre os po­vos e a re­pac­tua­ção de par­ce­rias com ON­Gs e o Es­ta­do.

"As li­de­ran­ças in­dí­ge­nas es­tão dis­pen­san­do por­ta-vo­zes e fa­lan­do por si mes­mas. É uma in­fle­xão na po­lí­ti­ca", diz. Es­sa no­vi­da­de é par­ti­cu­lar­men­te re­le­van­te na área da cul­tu­ra. É que até 2003 não ha­via ne­nhum ti­po de ar­ti­cu­la­ção do Mi­nis­té­rio da Cul­tu­ra com os po­vos in­dí­ge­nas, res­pon­sá­veis por uma das maio­res di­ver­si­da­des ét­ni­cas e lin­guís­ti­cas do mun­do. São 215 so­cie­da­des in­dí­ge­nas co­nhe­ci­das, além de 180 lín­guas per­ten­cen­tes a mais de 30 fa­mí­lias lin­guís­ti­cas di­fe­ren­tes.

"A di­ver­si­da­de cul­tu­ral é nos­so maior pa­tri­mô­nio, e o ín­dio não é só uma ques­tão da Fu­nai. É do Bra­sil e de­ve en­vol­ver tam­bém to­dos os ou­tros mi­nis­té­rios, com res­pei­to a sua au­to­de­ter­mi­na­ção", de­fen­de o mi­nis­tro da Cul­tu­ra, Ju­ca Fer­rei­ra. De olho nis­so, o MinC apos­ta tam­bém na im­plan­ta­ção de 150 Pon­tos de Cul­tu­ra In­dí­ge­nas até o fim des­te ano. Ar­ti­cu­la­dos pe­lo mi­nis­té­rio, es­ses es­pa­ços são en­ti­da­des já cons­ti­tuí­das, que de­sen­vol­vem ati­vi­da­des so­cio­cul­tu­rais em suas co­mu­ni­da­des.

Se­le­cio­na­dos por edi­tal, ca­da um re­ce­be R$ 185 mil, em cin­co par­ce­las se­mes­trais. Par­te do re­cur­so é des­ti­na­da à aqui­si­ção de equi­pa­men­to mul­ti­mí­dia, com­pos­to por mi­cro­com­pu­ta­dor, mi­nies­tú­dio pa­ra gra­var CD, câ­me­ra di­gi­tal e ilha de edi­ção. Até o mês de abril, ha­via mais de 2,5 mil pon­tos de cul­tu­ra em 1.122 ci­da­des bra­si­lei­ras. "Ca­da po­vo tem seu co­nhe­ci­men­to, sua ciên­cia. Sa­be­mos va­lo­ri­zar o que é do ou­tro e nun­ca va­mos dei­xar de ser Asha­ninka por is­so. Nos­sa raiz é mi­le­nar", afir­ma Benki, em re­fe­rên­cia ao uso da in­ter­net na al­deia, ali­men­ta­da, via sa­té­li­te, por pla­cas so­la­res.

HIS­TÓ­RIA DE LU­TA

O pro­ta­go­nis­mo Asha­ninka to­mou cor­po a par­tir da dé­ca­da de 1980, quan­do a re­gião pas­sou a ser sis­te­ma­ti­ca­men­te de­vas­ta­da. "As in­va­sões mo­ti­va­ram a co­mu­ni­da­de a lu­tar pe­la ga­ran­tia do ter­ri­tó­rio e a bus­car al­ter­na­ti­vas de bai­xo im­pac­to am­bien­tal pa­ra a eco­no­mia da re­gião", lem­bra Benki. Até en­tão, diz, os Asha­ninka e os pos­sei­ros bran­cos atua­vam na ba­se do sis­te­ma ma­dei­rei­ro, abrin­do es­tra­das e cor­tan­do ár­vo­res em to­ras, que eram ro­la­das até os iga­ra­pés du­ran­te a es­ta­ção se­ca.

"Ha­via mui­ta coi­sa de­vas­ta­da que a gen­te pre­ci­sa­va re­cu­pe­rar. Já na­que­la épo­ca, co­me­ça­mos a dis­cu­tir o ma­ne­jo de tra­ca­já, a sus­pen­são de ca­ça­das com ca­chor­ro e o plan­tio de ma­dei­ra nas fa­zen­das dei­xa­das por fa­mí­lias que cria­vam ga­do e que saí­ram após a de­mar­ca­ção da nos­sa ter­ra", ex­pli­ca.

Não que os pro­ble­mas es­te­jam re­sol­vi­dos, diz Benki. Lon­ge dis­so, a Co­mis­são Pró-Ín­dio do Acre tem aler­ta­do que tra­fi­can­tes pe­rua­nos e bra­si­lei­ros, em gru­pos for­te­men­te ar­ma­dos, têm usa­do di­fe­ren­tes tre­chos do Par­que Na­cio­nal da Ser­ra do Di­vi­sor, da Re­ser­va Ex­tra­ti­vis­ta do Al­to Ju­ruá e das Ter­ras In­dí­ge­nas da re­gião, co­mo ro­ta do trá­fi­co, amea­çan­do fa­mí­lias e ali­cian­do jo­vens.

Os in­dí­ge­nas tam­bém re­cla­mam da ati­vi­da­de ma­dei­rei­ra rea­li­za­da por em­pre­sas pe­rua­nas, sob re­gi­me de con­ces­são. Bas­ta ver o exem­plo de em­pre­sas que fa­zem ma­ne­jo flo­res­tal em ter­ri­tó­rios de seis co­mu­ni­da­des na­ti­vas Asha­ninka, Ja­mi­na­wa e Amahua­ca. A am­plia­ção da ex­tra­ção de ma­dei­ra, aler­ta o gru­po, tem ocor­ri­do tam­bém nas Re­ser­vas Ter­ri­to­riais Mu­ru­nahua e Mashco-Pi­ro e no Par­que Na­cio­nal Al­to Pu­rus, ter­ri­tó­rios de ha­bi­ta­ção de ín­dios iso­la­dos Mu­ru­nahua e Chi­to­naua, re­sul­tan­do em res­tri­ções ter­ri­to­riais, con­ta­tos for­ça­dos e tra­ba­lho es­cra­vo. "Nos­sos ir­mãos pe­rua­nos es­tão en­fren­tan­do as mes­mas con­di­ções que vi­ve­mos aqui nas dé­ca­das de 1970 e 80. Es­ta­mos mui­to preo­cu­pa­dos", diz.

A preo­cu­pa­ção se es­ten­de tam­bém à ex­plo­ra­ção de pe­tró­leo na sel­va pe­rua­na. Em maio des­te ano, o go­ver­no da­que­le país anun­ciou a aber­tu­ra de pro­ces­sos de li­ci­ta­ção pa­ra a ex­plo­ra­ção do óleo em mais 10 mi­lhões de hec­ta­res em cam­pos na Ama­zô­nia, in­cluin­do ter­ras Asha­ninka. Um mês de­pois, um bar­co já ha­via der­ra­ma­do 63 mil li­tros de óleo na Ama­zô­nia pe­rua­na.

Com a re­per­cus­são do fa­to, em­pre­sas de ex­plo­ra­ção de pe­tró­leo e gás fo­ram proi­bi­das de ope­rar nu­ma re­ser­va de ín­dios iso­la­dos da Ama­zô­nia pe­rua­na. A maior par­te da área da re­ser­va foi li­be­ra­da pa­ra a ex­plo­ra­ção da Pe­tro­bras. Apro­vei­tan­do a le­gis­la­ção pe­rua­na, a em­pre­sa bra­si­lei­ra tor­nou-se, em de­zem­bro de 2005, con­ces­sio­ná­ria de uma área de 1,4 mi­lhão de hec­ta­res de flo­res­ta na­ti­va, por um pe­río­do de 40 anos.

O lo­te é so­bre­pos­to à Re­ser­va Ter­ri­to­rial Mu­ru­nahua e a ter­ri­tó­rios de co­mu­ni­da­des Asha­ninka, Ja­mi­na­wa e Amahua­ca, já ti­tu­la­dos ou rei­vin­di­ca­dos no Pe­ru. A les­te, a área es­ta­ria so­bre­pos­ta à zo­na de amor­te­ci­men­to da Re­ser­va Ter­ri­to­rial Mashco-Pi­ro, cria­da em 1997 pa­ra pro­te­ger gru­pos iso­la­dos Mashco-Pi­ro. Um de­les ha­bi­ta a tri­bo Mu­ru­nahua. Quan­do fo­ram con­ta­ta­dos pe­la pri­mei­ra vez, em mea­dos da dé­ca­da de 1990, na­da me­nos que 50% de sua po­pu­la­ção mor­reu.

Saiba mais:

A área de ocupação dos Ashaninka estende-se desde a região do Alto Juruá, em terras brasileiras, até as vertentes da cordilheira andina, no Peru. Abrange parte das bacias dos rios Urubamba, Ene, Tambo, Alto Perene, Pachitea, Pichis, Alto Ucayali, e as regiões de Montaña e do Gran Pajonal. A maior parte dos Ashaninka - cerca de 80 mil pessoas - vive no Peru. Aqui, cerca de 1.300 Ashaninkas vivem em Terras Indígenas distintas e descontínuas, todas situadas na região do Alto Juruá.

22/11/2010

Benki Piyãko em entrevista à UnBTV fala sobre o encontro de saberes e diferentes culturas

Programa especial da UNBTV sobre a participação do mestre e agente agroflorestal Benki Piyãko no Encontro de Saberes. O projeto Encontro de Saberes - Artes e Ofícios dos Saberes Tradicionais é uma iniciativa do Ministério da Cultura com a Universidade de Brasília.







17/11/2010

Programa apresenta documentário realizado por cineastas Ashaninka


Uma Aldeia Chamada Apiwtxa

O programa A’Uwe deste domingo (21) apresenta mais uma produção realizada por índios do povo Ashaninka que vive no Vale do Rio Amônea, no estado do Acre. Neste documentário inédito, a nova geração de cineastas Ashaninka revela o dia a dia da aldeia Apiwtxa, com alguns de seus personagens mais pitorescos.

Horário: Domingo às 16h00

Uma Aldeia Chamada Apiwtxa. Direção: Coletivo Ashaninka de Cinema. Ano: 2010. Produção e distribuição: Vídeo nas Aldeias.

16/11/2010

Brasil: Índio, Internet e Interculturalidade

Photo by Lorena Medeiros

por Elisa Thiago, Global Voices, 14/08/2010

A noção presente no imaginário popular brasileiro de que o índio deixa de ser índio no momento que adota costumes e tecnologias de herança ocidental é contraposta pela prática, cada vez mais difundida nas aldeias indígenas, de utilizar ferramentas de tecnologia de informação exatamente com o intuito de tornar mais eficiente a defesa do estilo de vida e da cultura indígenas.

No Taqui Pra Ti, encontramos um artigo do Prof. José Bessa Freire, coordenador do Programa de Estudos dos Povos Indígenas (UERJ) e pesquisador no Programa de Pós-Graduação em Memória Social (UNIRIO). Nele, o autor discute a apropriação indígena dos veículos de mídia cidadã disponíveis na Internet e a utilização de conteúdos multimída com o intuito de promover a socialização, reivindicar direitos e afirmar a identidade indígena no ciberespaço:

"No Brasil, índios de diferentes línguas e etnias foram estimulados a usar a Internet por organizações governamentais e não governamentais. Embora a situação ainda seja bastante precária, inúmeras das 2.698 escolas indígenas existentes nas aldeias, frequentadas por mais de duzentos mil alunos, foram dotadas de computadores. Ali onde isso não foi possível, os computadores dos postos de saúde da Funasa foram disponibilizados dentro dos Pontos de Cultura no Programa Governo Eletrônico – Serviço de Atendimento ao Cidadão."

Com o aumento de acesso a computadores, os primeiros sítios indígenas na Internet surgiram em 2001. Segundo Eliete Pereira, do Centro de Pesquisa Atopos, da Escola de Comunicação e Artes/Universidade de São Paulo, a presença indígena na net ainda é bastante irregular. No mapeamento que fez da participação indígena na Internet, Eliete encontrou três tipos de sítios: os sítios pessoais, os sítios de etnias e os sítios de organizações indígenas.

Os usuários de sítios pessoais utilizam a Internet de forma inovadora para mostrar a produção indígena individual. Nesta categoria, encontramos o sítio, por exemplo, do escritor Daniel Munduruku e da escritora Eliane Potiguara que apresentam os seus livros e dialogam com seus leitores. Também nesta categoria, vamos encontrar os blogs de grandes líderes indígenas como Ailton Krenak.

Já os sítios de diferentes etnias indígenas são criados com o intuito de alcançar uma maior visibilidade indígena no cenário nacional e internacional por meio da divulgação da arte, do artesanato, dos padrões gráficos, das narrativas e da língua de cada etnia. É o caso dos Baniwa, dos Ashaninka e de tantos outros que, após terem participado, em 2005 no Rio de Janeiro, das discussões sobre o acesso indígena à tecnologia da informação e à internet, assim como do lançamento do Portal Rede Povos da Floresta, passaram a fazer uso dessas ferramentas digitais como parte de projetos educacionais de base intercultural com o apoio do Ministério da Educação e Cultura (MEC) e de ONGs como, por exemplo, o Instituto Socioambiental.

Por fim, os sítios de diferentes organizações indígenas são mantidos na rede por instituições representativas de diferentes etnias cuja abrangência pode ser local, regional ou nacional e que estão associadas à conquista por direitos pela terra, pela educação bilíngue e pela saúde da população indígena. Esses sítios constituem-se em ferramentas de reivindicação e ação política. É o caso, por exemplo, do portal da Coordenação das Organizações Indígenas da Amazônia Brasileira - COIAB, do Indios Online ou o da Federação das Organizações Indígenas do Rio Negro - FOIRN.

Leia mais aqui!

12/11/2010

Uma aldeia chamada Apiwtxa


Uma Aldeia Chamada Apiwtxa
(Brasil, 2010, Doc, 51’, Txirotsi Ashaninka – PE)

A nova geração de cineastas Ashaninka revela o dia a dia da aldeia APIWTXA, no rio Amônia no Acre, com alguns de seus personagens mais pitorescos.

Saiba mais aqui:
Vídeo nas Aldeias e
Amazônia Doc.2 Festival Pan-amazônico de Cinema

Uma aldeia chamada Apiwtxa na Mostra da Amazônia

Gêneros se misturam na mostra Amazônia

Diário do Pará, 12/11/2010


A programação de hoje da Mostra Especial Amazônia Doc.2, que segue até domingo, no Cine Olympia, exibe os filmes “Limite”, de Felipe Filgueiras (SP); “Uma aldeia chamada Apitwtxa”, de Txirotsi Ashaninka (PE); “Só não tem quem não quer”, de Hildalgo Romero (SP); e “Inocente”, de Thiago Luciano e Beto Schultz (SP).

Desenvolvido através do projeto ‘Vídeo nas Aldeias’, o média-metragem “Uma aldeia chamada Apitwtxa” é uma produção realizada pela nova geração de cineastas Ashaninka.

O filme registra o cotidiano da tribo, mostrando também um pouco do histórico da etnia. O filme será exibido na segunda sessão de hoje da Mostra Especial, a partir das 19h30.

O povo da aldeia Apitwtxa habita a região de Marechal Thaumaturgo, município no estado do Acre, uma das regiões de maior biodiversidade do planeta. O povo Ashaninka, situado em territórios do Acre e do Peru, se considera como guardião da floresta, e, desde 1980, vem combatendo a exploração de madeiras, além de desenvolver técnicas de manejo sustentável.

Além de “Uma aldeia...”, os Ashaninka também já produziram “A gente luta mas come fruta” (2006); “Caminho para a vida”, “Aprendizes do Futuro”, e “Floresta Viva” em 2004; “Índios no Brasil. 10. Nossos direitos” (2000), em parceria com as tribos Kaiowá, Kaxinawá, Yanomami e Kaingang; e “No tempo das chuvas”, também em 2000.

As outras três produções que o público poderá conferir hoje no Cine Olympia vêm de São Paulo. Em pouco mais de 15 minutos, Felipe Filgueiras, diretor de “Limite”, conta a história de Ivan, funcionário de um escritório que segue a mesma rotina há muito tempo, e que, apesar de não gostar de seu trabalho, agüenta as intempéries do chefe sem reclamar. Quando essa situação atinge um nível insuportável para Ivan, ele começa a pensar em soluções extremas para sair dessa situação.

Como lidar com o autocontrole também é tema predominante em “Só não tem quem não quer”, de Hildalgo Romero. Um pequeno acontecimento na vida de Anderson faz com que as coisas percam o sentido e tudo pareça estar errado. Confuso, o protagonista opta pelo único caminho que lhe parecia possível: transbordar a raiva silenciosa e corrosiva que estava guardando.

Em “Limite”, de Thiago Luciano e Beto Schultz, a discussão vai mais além. Mais do que lidar com suas próprias emoções e com sua capacidade de autodomínio, o curta traz ao público a reflexão sobre quem realmente somos. A partir da incapacidade de lidar com um erro, o filme constrói uma narrativa que confronta a realidade humana com a sua ideia de perfeccionismo dos indivíduos. Em jogo estão dois ideais: aquele de como deveríamos ser, e aquele de como realmente somos.

ASSISTA

A Mostra Especial Amazônia Doc.2 segue em cartaz no Cine Olympia até domingo (14). Serão realizadas duas sessões por dia: uma às 17h e outra às 19h30 . Para ver a programação completa, acesse o site http://www.amazoniadoc.com. A entrada é franca.

01/11/2010

Uma Aldeia Chamada Apiwtxa


O programa A’Uwe, da TV Cultura, apresentado por Marcos Palmeira, exibirá o documentário produzido pelo Coletivo Ashaninka de Cinema com o Vídeo nas Aldeias: “Uma Aldeia Chamada Apiwtxa”. Dia 14/11/2010.

"Nós do A’Uwe somos grandes admiradores do trabalho da Associação e de toda a cultura do povo Ashaninka!"

20/09/2010

Viagem à Floresta, por Benki Piyãko



Viver na floresta é o verdadeiro paraíso quando sabemos respeitá-la, porque a beleza está em tudo quando sabemos usar.

Quero aqui mandar minha mensagem de uma semana que passei com os mestres na floresta, ensinado os jovens, essa criançada de nosso povo Ashaninka, de como devemos viver com o mundo encantado da Amazônia.

Este encanto está em nossa própria vida, por isso que eu o amo de verdade, e para que isso permaneça para minha futura geração.

Pude ouvir histórias lindas e ouvi gritos e falas de sabedoria vindos dos mestres, como viessem saindo de dentro daquele verdadeiro paraíso. Vendo o anoitecer, a lua brilhar, o sol nascer, os animais na floresta contar, que beleza de fazer coração chorar.

Este mundo é sem maldade. Assim quero viver milhões de décadas com esta história sendo revelada e mostrando porque amamos tanto a floresta.

Peixe, veado, porco, jacaré, passarinho, onça e tatu, entre outros, estava em nosso banquete. Trinta jovem e oito mestres estavam junto nesta imensa história sem fim.

Vivenciei revelações do começo do mundo, parecia que estava tudo começando de novo, olhando fora da floresta e o que está acontecendo com o mundo e a terra, sentindo uma dor que só faltou chorar de tanta tristeza com a destruição.

Mas não vou deixar de viver o que aprendi e nem deixar de ajudar o mundo que está pedindo paz.

Mando em anexo algumas fotos dessa exuberante viagem, no meio da natureza.

Forte abraço a todos,

Benki Piyãko

06/09/2010

Comitiva do MinC é recebida com festa na aldeia Apiwtxa



por Carolina Monteiro, com fotos de Pedro França, Comunicação Social/MinC, Ministério da Cultura, 06/09/2010.

Na quinta-feira, 2 de setembro, segundo dia da passagem da comitiva do Ministério da Cultura pelo Acre, as atividades começaram cedo. Às 6h30, todos já estavam de pé para tomar o café da manhã no refeitório do Centro Yorenka Ãtame e, logo depois, seguir para os barcos que esperavam na beira do Alto Juruá. O destino era a aldeia Apiwtxa, da comunidade Ashaninka, localizada às margens do Rio Amônea, a três horas e meia dali.

Essa foi a segunda visita de um ministro da Cultura à aldeia dos Ashaninka, no Acre. A primeira foi em 2008, quando Gilberto Gil ainda ocupava o cargo. Na ocasião, o então secretário executivo Juca Ferreira não pôde acompanhá-lo.

A subida pelo rio, com a comitiva dividida em diversos barcos, é longa. No caminho, muitos troncos encontram-se caídos nas águas. É o reflexo do desmatamento desordenado e da erosão das margens, devido à época de pouca chuva. Os barcos foram chegando aos poucos, e, no alto de um barranco, muitas crianças esperavam a comitiva. Com olhares curiosos, um pouco envergonhadas, acompanharam a chegada de cada um.

Kaiaçuma e tambores

Já no pátio onde a festa aconteceria, o ministro da Cultura foi recebido com frutas e kaiaçuma, uma bebida feita à base de mandioca fermentada e água. Como a ocasião era especial, a irmã de Benki e Francisco, Dora, havia preparado quase 300 litros dela (o líquido é preparado em caixas d´água com 150 litros, cada).

E foi assim, entre goladas de kaiaçuma, sempre servida em cumbucas por uma jovem índia, e as cores e a alegria contagiante do povo Ashaninka, que os irmãos Pyanko apresentaram um pouco de sua cultura e de seus costumes a Juca Ferreira e à comitiva que o acompanhava.

Após o almoço e uma breve sesta, Benki e Francisco convocaram todos da comunidade para formar uma grande roda no pátio para uma conversa. Eles queriam apresentar todos do Ministério da Cultura ao seu povo. Para que a comunicação fosse geral, falaram em português e em aruak.

Francisco fez uma fala emocionada sobre a trajetória de sua família. “Isso que estou relatando para vocês é pouco, perto do que passamos. Vi meu pai ser enganado por seringueiros e nossas mulheres, maltratadas. Ainda muito jovem, comecei a seguir as orientações do meu avô e da minha mãe, de começar um diálogo com o povo branco e, assim, tentar buscar uma relação de equilíbrio entre nós”, contou.

O filho mais velho de Antônio e Francisca, o casal que deu início a esse processo de aproximação entre índios e não índios, hoje, praticamente não mais vive na aldeia, e parece sentir uma certa amargura em relação a isso. No entanto, ele sabe que essa foi uma missão traçada pelo seu avô, Samuel Pyanko, para salvar sua comunidade. “Me afastar daqui, ter que aprender a lidar com a cultura lá de fora, me custou muito. Hoje, venho para a aldeia a cada dois, três meses, e fico apenas poucos dias. Mas tem que ser assim”, disse.

Já Benki explicou à comunidade a importância do apoio do Ministério da Cultura nas conquistas realizadas por eles. “Queremos que essa parceria seja apenas o começo. Acreditamos na possibilidade de uma convivência harmoniosa para o bem da nossa floresta”.

Costumes Ashaninka

O povo Ashaninka tem descendência andina, vindo de territórios, hoje, localizados no Peru. Os homens usam vestes de cores claras, salpicadas por desenhos de diferentes formatos e cores, feitas com um tecido fabricado por eles mesmos. Já as mulheres usam tecidos mais escuros, comprados nas zonas urbanas. Todos se embelezam com a ajuda de acessórios como pulseiras, brincos e colares muito coloridos, feitos, principalmente, com miçangas, sementes, folhas e penas. Seus rostos estão quase sempre pintados de urucum.

É costume da comunidade que meninos por volta dos 12 anos já comecem a construir a casa onde, futuramente, morarão com suas esposas. O namoro começa cedo, por volta dos 13, 14 anos, e em poucos meses já vira casamento. As moças ashaninkas tornam-se mães muito jovens e têm vários filhos. No entanto, aos homens é permitido ter mais de uma mulher, desde que eles tenham condições de sustentá-las.

Na aldeia Apiwtxa, todos falam o aruak. As crianças começam a aprender o português só por volta dos 10 anos. Os mais velhos são respeitados e são símbolos de sabedoria. Para eles, a palavra “envelhecer” não faz o menor sentido. O correto, segundo Benki, é “ficar carregado de sabedoria”. A alegria e o sorriso parecem uma marca registrada da comunidade. Todos são muito falantes, não importa a idade. Eles não seguem o calendário romano e não tiram o sábado e o domingo para descansar. Todos os dias são de trabalho e podem ser, também, de diversão.

A equipe do MinC, junto ao ministro Juca Ferreira, passou a noite na aldeia e dormiu em redes, em uma casa de arquitetura típica dos Ashaninkas, sem paredes e alta, como palafitas (é uma prevenção contra os períodos de cheia do rio). Logo após a roda de conversa, todos jantaram, e a batucada de alguns tambores começou. Índios e não-índios dançaram, riram, se divertiram e aprenderam um pouco mais uns com os outros.

Às 6h30 da manhã da sexta-feira, 3 de setembro, a claridade já despontava e acordava quem não tinha agüentado passar a noite em claro. Foi o momento de passear mais um pouco pela aldeia, tomar um café-da-manhã típico e se despedir – mas uma despedida mais para ‘até breve’, já que o Ministério da Cultura acompanhará a construção do Centro de Cultura da Floresta pelos próximos anos.

Mais fotos, aqui.

01/09/2010

Ministro Juca Ferreira assina acordo para criação de Centro de Cultura da Floresta e anuncia resultado


Página 20 Online - 01/09/2010

O ministro da Cultura, Juca Ferreira, assina, nesta quarta-feira, 1º de setembro, às 9h, no Palácio Rio Branco, acordo para a criação do Centro de Cultura da Floresta, no Acre, - parceria entre o Ministério da Cultura e a Associação de Cultura e Meio Ambiente - que beneficiará 220 mil pessoas. O ministro também anuncia o resultado do edital Microprojetos Mais Cultura para Amazônia Legal.

Centro de Cultura da Floresta - O Estado do Acre será beneficiado com o Centro de Cultura da Floresta, a partir de assinatura de acordo entre o Ministério da Cultura (MinC) e a Associação de Cultura e Meio Ambiente (ACMA). A parceria beneficiará 220 mil pessoas, como os indígenas da etnia Ashaninka, responsáveis pela manutenção e desenvolvimento do Centro Yorenka Ãtame, que significa “Saberes da Floresta”, na língua aruak.

A meta é construir um espaço multiuso com auditório, estúdio de gravação musical e sonorização, camarim, depósito para materiais e um Teatro Arena. “Por uma questão de preservação da tradição todas essas instalações serão desenvolvidas dentro do formato da arquitetura dos Ashaninkas”, observa João Augusto Fortes, coordenador executivo do projeto. A infraestrutura, orçada em R$ 4,7 milhões, será implementada ao longo de três anos e vai permitir a fomentação de projetos artísticos, cursos de formação em gestão de projetos culturais e na área de políticas públicas em diferentes módulos, além do fortalecimento da comunicação local.

A parceria do MinC com a ACMA irá beneficiar diretamente mais de 6 mil habitantes de 16 povoados da etnia Ashaninka na região - parte no Brasil, parte no Peru - e outras 9 mil que vivem na reserva extrativista da bacia do Alto Juruá. “O Centro Yorenka Atãme já é uma referência. Não apenas no Acre, mas em outros estados como Rondônia, Roraima, Amazônia e, pela proximidade com a fronteira, até com o Peru. Então essa infraestrutura trará benefício para aproximadamente 220 mil pessoas entre comunidade indígena e não índios”, acredita João Fortes.

Idealizado em 2007 por sete irmãos da família Pianko Ashaninka, o Centro Yorenka Ãtame funciona como um espaço de formação, educação, intercâmbio e difusão de práticas de manejo sustentável dos recursos naturais da região. Aberto para jovens e adultos, o Centro, à margem direita do rio Juruá, em frente do município de Marechal Thaumaturgo (AC), desenvolve trabalhos nas áreas de proteção da biodiversidade, do meio ambiente, manejo de recursos, práticas agros florestais e outras.

Microprojetos para Amazônia - Através do edital Microprojetos para Amazônia Legal foram selecionados, ao todo, 753 projetos de artistas, grupos artísticos independentes e produtores culturais da região amazônica. Os investimentos do MinC somam R$ 11,43 milhões.

O primeiro edital da pasta destinado à Amazônia Legal recebeu 2.702 propostas. Foram beneficiados projetos em todos os nove estados da região amazônica: 26 do Acre, 14 do Amapá, 70 do Amazonas, 159 do Maranhão, 141 do Mato Grosso, 132 do Pará, 53 de Rondônia, 24 de Roraima e 134 do Tocantins.

Os 26 projetos do Acre vão receber pouco mais de R$ 338 mil e beneficiar 16 municípios. As iniciativas selecionadas receberão até 35 salários mínimos, valor máximo estabelecido no edital. A ação conta com o apoio da Funarte, Banco da Amazônia (BASA) e dos governos estaduais da região amazônica.

Ação do Programa Mais Cultura, o edital Microprojetos para Amazônia Legal visa fortalecer e apoiar a diversidade cultural da região amazônica por meio do financiamento não-reembolsável de projetos. As propostas contempladas têm como beneficiários ou proponentes jovens entre 17 e 29 anos que residem na região.

A relação dos selecionados poderá ser consultada nas páginas eletrônicas do Ministério da Cultura (www.cultura.gov.br), do Programa Mais Cultura (http://mais.cultura.gov.br) e da Funarte (www.funarte.gov.br).

31/08/2010

Yorenka Ãtame: Centro de Cultura da Floresta

Espaço multiuso beneficiará 220 mil pessoas no estado do Acre


por Comunicação Social/MinC, 30/08/2010

O ministro da Cultura, Juca Ferreira, assina nesta quarta-feira (1º de setembro), às 9h, no Palácio Rio Branco, na capital acreana, acordo entre o Ministério da Cultura e a Associação de Cultura e Meio Ambiente (ACMA), para a criação do Centro de Cultura da Floresta, no estado. A parceria beneficiará 220 mil pessoas, como os indígenas da etnia Ashaninka, responsáveis pela manutenção e desenvolvimento do Centro Yorenka Ãtame, que significa ‘Saberes da Floresta’, na língua aruak.

A meta é construir um espaço multiuso com auditório, estúdio de gravação musical e sonorização, camarim, depósito para materiais e um Teatro Arena. “Por uma questão de preservação da tradição todas essas instalações serão desenvolvidas dentro do formato da arquitetura dos Ashaninkas”, observa João Augusto Fortes, coordenador executivo do projeto. A infraestrutura, orçada em R$ 4,7 milhões, será implementada ao longo de três anos e vai permitir a fomentação de projetos artísticos, cursos de formação em gestão de projetos culturais e na área de políticas públicas em diferentes módulos, além do fortalecimento da comunicação local.

A parceria do MinC com a ACMA irá beneficiar diretamente mais de seis mil habitantes de 16 povoados da etnia Ashaninka na região - parte no Brasil, parte no Peru - e outras nove mil que vivem na reserva extrativista da bacia do Alto Juruá. “O Centro Yorenka Atãme já é uma referência. Não apenas no Acre, mas em outros estados como Rondônia, Roraima, Amazônia e, pela proximidade com a fronteira, até com o Peru. Então essa infraestrutura trará benefício para aproximadamente 220 mil pessoas entre comunidade indígena e não índios”, acredita João Fortes.

Centro Yorenka Ãtame

Idealizado em 2007, por sete irmãos da família Pianko Ashaninka, o Centro Yorenka Ãtame funciona como um espaço de formação, educação, intercâmbio e difusão de práticas de manejo sustentável dos recursos naturais da região. Aberto para jovens e adultos, o Centro, à margem direita do rio Juruá, em frente do município de Marechal Thaumaturgo (AC), desenvolve trabalhos nas áreas de proteção da biodiversidade, do meio ambiente, manejo de recursos, práticas agros florestais e outras.

Mais informações: (61) 2024-2407, na Comunicação Social/MinC.

27/08/2010

A Segunda Turma, por unanimidade, rejeitou o recurso de Oleir Cameli e Abrahão Cândido






Amigos,

a todos que acompanharam solidários a nossa luta, divulgamos o resultado do julgamento da tarde de ontem, feito pela Segunda Turma do STJ, do recurso de Oleir Cameli e Abrahão Cândido contra o povo Ashaninka:

RESULTADO DE JULGAMENTO FINAL: "PROSSEGUINDO-SE NO JULGAMENTO, APÓS O VOTO-VISTA DO SR. MINISTRO MAURO CAMPBELL MARQUES, ACOMPANHANDO A SRA. MINISTRA ELIANA CALMON, A TURMA, POR UNANIMIDADE, REJEITOU OS EMBARGOS DE DECLARAÇÃO, NOS TERMOS DO VOTO DA SRA. MINISTRA-RELATORA." - PETIÇÃO Nº 292063/2009 - EDCL NO RESP 1120117

Agradecemos o apoio e a solidariedade que recebemos de tantos lados e pela visibilidade que deram ao caso.

30 anos de ausência, morosidade e impunidade começou a ter fim nessa tarde.

Confiamos na Constituição Federal, confiamos na Justiça brasileira, e esperamos, assim como o Brasil espera, que os criminosos Oleir Cameli e Abrahão Cândido sejam punidos e condenados a reparar todos os seus crimes.


26/08/2010

30 anos de ausência, morosidade e impunidade podem ter fim nesta tarde






Amigos,

a vocês que acompanham solidários a nossa luta, informamos que o Recurso de Oleir Cameli e Abrahão Cândido contra o povo Ashaninka será julgado hoje (26/08/2010) pela Segunda Turma do STJ.

Pedimos que acompanhem e divulguem amplamente o resultado.

30 anos de ausência, morosidade e impunidade podem ter fim nesta tarde, se houver Justiça no Brasil.


24/08/2010

Pela punição e condenação de Oleir Cameli e Abrahão Cândido, pedimos a todos os Ministros da Segunda Turma do STJ urgência no julgamento


Terra Indígena Kampa do Rio Amônia, 24 de agosto de 2010,



Amigos,

Publicamos a seguir uma carta que recebemos do Ministro Mauro Campbell Marques à respeito da nossa nota Repudiamos a atuação do Ministro Mauro Campbell Marques do STJ.

Pedimos a todos que leiam com atenção a carta do Ministro, porque com ela ao mesmo tempo em que demonstrou consideração ao nosso apelo por Justiça também nos deixou ainda mais preocupados.

O Ministro nos afirmou conhecer “profundamente todo o fato ora sob exame nesse recurso e o absurdo que foi cometido contra a natureza e contra os índios”. E, na carta, escreve: “FALEI, EM VOZ ALTA, PERANTE TODOS, E REPUDIEI PUBLICAMENTE O QUE FOI FEITO CONTRA ESSE POVO INDÍGENA”.

No entanto, afirma também que o que pende de manifestação em seu VOTO-VISTA é, exclusivamente, uma “prejudicialidade processual”: “Nesta fase de julgamento, a de EMBARGOS DE DECLARAÇÃO, só estou fazendo análise de um ponto específico e que não se relaciona com os fatos criminosos praticados contra esse Honrado Povo Indígena, é apenas uma questão processual.”

Isto que o Ministro Mauro Campbell Marques chama de “prejudicialidade processual” e “questão processual” se refere ao tempo que a própria Justiça levou para condenar Oleir Cameli e Abrahão Cândido por seus crimes.

O que discutem, hoje, na Segunda Turma é se o crime cometido por Cameli e Abrahão - contra o nosso povo, contra a floresta, contra a Constituição Federal e contra o planeta, 29 mil hectares de madeira de Lei devastados, 1374 metros cúbicos de mogno e 1374 metros cúbicos de cedro tombados, aberturas de estradas e destruição de inúmeros igarapés em uma das regiões de maior biodiversidade do planeta, infundando em nosso povo, por sete longos anos, de 1981 a 1987, o mais pavoroso terror com seu poder de mando, armas, ameaças e destruição - discutem se o crime cometido por Oleir Cameli e Abrahão Cândido prescreveu ou não prescreveu.

O que o Ministro Mauro Campbell Marques discute hoje na Segunda Turma do STJ é se o fato de a Justiça ter demorado quase 30 anos, 30 longos anos de ausência, morosidade e impunidade, para julgar os crimes de Oleir Cameli e Abrahão Cândido não acabou por prescrever os crimes de Oleir Cameli e Abrahão Cândido.

O Ministro nos disse que “é importante estudar com afinco esse tema da imprescritibilidade do dano ambiental e não das ações de reparação do dano ambiental”. Em sua carta ele escreve: “Aprendi nos bancos da faculdade de Direito que imprescritível é aquilo que a Constituição afirmar como tal... não deixarei de expressar meus pontos de vista técnicos pois estou em um Tribunal de Precedentes, além do que, como reza Marco Aurélio Mello, processos não possuem autuação e sim conteúdo.”

Amigos, a comunidade Apiwtxa soube dos seus direitos quando aprendeu a ler a Constituição Federal. Os crimes de Oleir Cameli e Abrahão Cândido foram e são, ainda hoje, crimes contra a Constituição Federal.

E a Constituição Federal diz (Art.231 § 4º) que as terras de que trata este artigo são inalienáveis e indisponíveis, e os direitos sobre elas, imprescritíveis.

CAPÍTULO VIII
DOS ÍNDIOS
Art. 231 - São reconhecidos aos índios sua organização social, costumes, línguas, crenças e tradições, e os direitos originários sobre as terras que tradicionalmente ocupam, competindo à União demarcá-las, proteger e fazer respeitar todos os seus bens.
§ 1º - São terras tradicionalmente ocupadas pelos índios as por eles habitadas em caráter permanente, as utilizadas para suas atividades produtivas, as imprescindíveis à preservação dos recursos ambientais necessários a seu bem-estar e as necessárias a sua reprodução física e cultural, segundo seus usos, costumes e tradições.
§ 2º - As terras tradicionalmente ocupadas pelos índios destinam-se a sua posse permanente, cabendo-lhes o usufruto exclusivo das riquezas do solo, dos rios e dos lagos nelas existentes.
§ 3º - O aproveitamento dos recursos hídricos, incluídos os potenciais energéticos, a pesquisa e a lavra das riquezas minerais em terras indígenas só podem ser efetivados com autorização do Congresso Nacional, ouvidas as comunidades afetadas, ficando-lhes assegurada participação nos resultados da lavra, na forma da lei.
§ 4º - As terras de que trata este artigo são inalienáveis e indisponíveis, e os direitos sobre elas, imprescritíveis.
§ 5º - É vedada a remoção dos grupos indígenas de suas terras, salvo, ad referendum do Congresso Nacional, em caso de catástrofe ou epidemia que ponha em risco sua população, ou no interesse da soberania do País, após deliberação do Congresso Nacional, garantido, em qualquer hipótese, o retorno imediato logo que cesse o risco.
§ 6º - São nulos e extintos, não produzindo efeitos jurídicos, os atos que tenham por objeto a ocupação, o domínio e a posse das terras a que se refere este artigo, ou a exploração das riquezas naturais do solo, dos rios e dos lagos nelas existentes, ressalvado relevante interesse público da União, segundo o que dispuser lei complementar, não gerando a nulidade e a extinção direito a indenização ou ações contra a União, salvo, na forma da lei, quanto às benfeitorias derivadas da ocupação de boa fé.
§ 7º - Não se aplica às terras indígenas o disposto no art. 174, §§ 3º e 4º.
Art. 232 - Os índios, suas comunidades e organizações são partes legítimas para ingressar em juízo em defesa de seus direitos e interesses, intervindo o Ministério Público em todos os atos do processo.

Como reza a Constituição (Art. 129), o Ministério Público, em sua função de defender judicialmente os direitos e interesses das populações indígenas, tem defendido judicialmente os direitos e interesses do povo Ashaninka.

Diferentemente de Oleir Cameli e Abrahão Cândido, não temos advogados em Brasília, como sugeriu o Ministro Mauro Campbell Marques. Contamos, graças à Constituição, com a ajuda do MPF e não temos como acessar da floresta onde moramos as notas taquigráficas. Mas temos acesso, sim, ao que é informado ao público pelo STJ, que o Ministro Mauro Campbell Marques foi quem pediu vistas e tem indicado o adiamento do julgamento.

Pedimos formalmente a todos os Ministros, e à Presidência da Segunda Turma urgência no julgamento. O STJ precisa cumprir o seu dever e chegar a uma conclusão rapidamente.

O povo Ashaninka da aldeia Apiwtxa do rio Amônia não aguenta mais esperar para ver reparado um crime e uma injustiça tão grande, que é crime e continuará sendo independentemente do tempo em que ocorreu, e cujos danos à floresta e ao nosso povo, são imprescritíveis, indeléveis, permanentes. Nunca mais a floresta devastada por estes homens voltará a ser como era. E o nosso povo nunca mais será o mesmo, o dano que causaram ao nosso povo não tem cura.

Confiamos na Constituição Federal, confiamos na Justiça brasileira, e esperamos, assim como o Brasil espera, que os criminosos Oleir Cameli e Abrahão Cândido sejam punidos e condenados a reparar todos os seus crimes.

Isaac Pinhanta Ashaninka e Benki Piyãko Ashaninka

Carta de Esclarecimento do Ministro Mauro Campbell Marques

Caríssimos Cidadãos,

Chega ao meu conhecimento um manifesto dessa honrada tribo que muito me toca por inúmeros aspectos. O primeiro deles diz respeito a absoluta falta de conhecimentos dos senhores acerca do que se passou no julgamento originário na nossa Segunda Turma, oportunidade em que FALEI, EM VOZ ALTA, PERANTE TODOS, E REPUDIEI PUBLICAMENTE O QUE FOI FEITO CONTRA ESSE POVO INDÍGENA. Basta que peçam aos senhores advogados e procuradores que defendem os interesses dos senhores nesse recurso as notas taquigráficas daquela sessão de julgamento para verificarem o grau de injustiça da manifestação de repúdio que ora esclareço.

Segundo: é que o reiterado ADIAMENTO está ocorrendo por pedidos sucessivos de um dos meus colegas, o senhor Ministro HERMAN BENJAMIN, que está fazendo uma análise mais detalhada do problema abordado no meu voto para, só assim, poder proferir o voto dele.

Sou um Ministro cumpridor de meus deveres e célere nos meus julgamentos, aliás, um dos integrantes do STJ que mais rápido trabalha com seus processos, nada a merecer elogio algum de ninguém já que é meu DEVER agir assim.

Sei que o que agora vou escrever não é igualmente necessário, MAS FIQUEM CERTOS DE QUE NÃO ME OFENDI COM AS CRÍTICAS E ME ORGULHO EM PODER DAR ESTA SATISFAÇÃO AOS SENHORES, INDEPENDENTE DO RESULTADO FINAL DESSE JULGAMENTO.

Quanto às respostas às perguntas feitas no manifesto dos senhores, espero que as encontrem nas notas taquigráficas que bem reproduziram o meu pensamento naquela sessão.

Esclareço, ainda, que nesta fase de julgamente, a de EMBARGOS DE DECLARAÇÃO, só estou fazendo análise de um ponto específico e que não se relaciona com os fatos criminosos praticados contra esse Honrado Povo Indígena, é apenas uma questão processual que mereceu especial atenção deste mero Juiz e que, de tão importante, provocou no Ministro Herman Benjamin a necessidade de melhor análise do caso.

Renovo meu apreço e minha responsabilidade pela defesa da Constituição e da Leis do nosso País, bem como minha convicção de que é por atitudes como a dos senhores que poderemos chegar a uma Estado realmente Democrático de Direito.

Cordialmente,

Mauro Campbell Marques
20 de agosto de 2010


19/08/2010

Repudiamos a atuação do Sr. Ministro Mauro Campbell Marques da Segunda Turma do STJ



Terra Indígena Kampa do Rio Amônia, 19 de agosto de 2010.



Nota de repúdio à atuação do Sr. Ministro Mauro Campbell Marques da Segunda Turma do STJ


Por desmatar ilegalmente 1/3 da Terra Indígena do povo Ashaninka da aldeia Apiwtxa, Abrahão Cândido e Orleir Cameli foram condenados em 1ª instância (JF/Acre) a indenização.

Os réus Abrahão e Cameli apelaram. Mas perderam também em 2ª Instância: o STJ negou provimento e a relatora Ministra Eliana Calmon rejeitou os Embargos Declaratórios.

Os réus perderam em 1ª e 2ª instâncias, foram condenados, faltando apenas publicar a sentença. Mas o Ministro Mauro Campbell Marques pediu vista.

Para publicar a sentença de condenação de Abrahão e Cameli por desmatar 1/3 da Terra Ashaninka, o STJ precisa terminar de julgar o Recurso dos réus.

No entanto, toda vez que o processo volta à mesa de julgamento o Ministro Mauro Campbell Marques determina adiar a decisão.

O julgamento vem sendo marcado, vai à mesa e então é adiado pelo Ministro Mauro Campbell Marques, repetidas vezes, nas datas de 18/2, 17/6, 22/6, 3/8 e 17/8.

Hoje, dia 19/8, às 14h, o recurso de Abrahão e Cameli irá, pela sexta vez, para a mesa de julgamento da Segunda Turma do STJ.

Será que o Ministro Mauro Campbell Marques hoje, às 14h, adiará novamente a decisão do STJ, em benefício de desmatadores criminosos?

Ou será que o Ministro Mauro Campbell Marques não considera crime invasão de terra indígena, abertura de estradas e derrubada ilegal de árvores?

Será que o Ministro Mauro Campbell Marques não considera crime a retirada ilegal de 1.374 metros cúbicos de mogno e 1.374 metros cúbicos de cedro?

Amigos, a comunidade Apiwtxa acompanha com tristeza esse longo processo e os adiamentos da decisão final pelo Ministro Mauro Campbell Marques.

Repudiamos a atuação do Sr. Ministro Mauro Campbell Marques da Segunda Turma do STJ neste caso.

Não temos como não responsabilizar o Ministro Mauro Campbell Marques por tanto adiamento.

Estamos em estado de alerta. Preparados para o combate.

Os crimes de Abrahão Candido e Oleir Cameli não podem ficar impunes. A derrubada da floresta é crime contra o nosso povo e contra o planeta.

O Brasil não pode engolir o desmatamento cruel e devastador de 29 mil hectares de madeira de Lei pela cobiça de Abrahão Cândido e Oleir Cameli.

O povo Ashaninka da Apiwtxa não aceita o crime de Abrahão e Cameli.

Já estivemos antes em Brasília. E se preciso retornaremos a Brasília, até o Ministro Mauro Campbell Marques.

Queremos justiça!

Benki Piyãko Ashaninka e Isaac Pinhanta Ashaninka
Associação Apiwtxa do Povo Ashaninka do Rio Amônia


03/08/2010

Saiba o que Oleir Cameli e o Ministro Mauro Campbell Marques, juntos, estão fazendo com a decisão do Superior Tribunal de Justiça



por Leila Soraya Menezes

Depois que a Advocacia-Geral da União (AGU) conseguiu manter, no Superior Tribunal de Justiça (STJ), a condenação imposta a Oleir Cameli e seus cúmplices (por retirar ilegalmente madeiras da terra indígena Kampa do Rio Amônia: 1.374 metros cúbicos de mogno e 1.374 metros cúbicos de cedro, extraídos durante os anos de 1981, 1982, 1985 e 1987), Oleir Cameli entrou com um novo Recurso Especial (1120117/AC) contra o Acórdão do TRF 1 que julgou improcedente a apelação da mesma parte, a qual pleiteava reforma de sentença que havia julgado os pedidos da Funai e MPF procedentes. (Objeto: Pedido de indenização pelo desmate ilegal de 1/3 da área dos Ashninka - TI Kampa do Rio Amônia-, quando a terra ainda estava em fase de identificação pela FUNAI.)

O Recurso Especial foi conhecido em parte, e nessa parte foi improvido, por unanimidade. Oleir Cameli entrou com Embargos de Declaração. A relatora (Ministra Eliana Calmon) proferiu voto rejeitando os Embargos.

Oleir Cameli, quase perdeu de vez... mas o MINISTRO MAURO CAMPBELL MARQUES entrou em cena! E pediu vista (em 18 de fevereiro). O processo, então, foi colocado e retirado da pauta de julgamento várias vezes. E hoje foi novamente incluído na Pauta do dia 10/08/2010 da SEGUNDA TURMA.

Entenda o caso

A condenação decidida por unanimidade pelos ministros da 2ª Turma do Tribunal considerou válida decisão das instâncias ordinárias que determinaram aos réus o pagamento de R$1.461.551,28, como indenização. Oleir Cameli e cúmplices foram condenados, ainda, a pagarem o valor de R$ 3 milhões a título de indenização por danos morais causados aos membros da comunidade indígena Ashaninka, e de R$ 5.928.666,06 ao Fundo de Defesa de Direitos Difusos, para custear a recomposição ambiental na área explorada. Em valores atualizados, o montante da condenação soma aproximadamente R$ 15 milhões.

A Ação Civil Pública contra os exploradores foi movida pela Fundação Nacional do Índio (Funai) e pelo Ministério Público Federal (MPF). No julgamento do Recurso Especial os réus alegaram que a Justiça Federal era incompetente para julgar a demanda. No mérito, solicitaram a redução do valor da indenização e requereram que o processo foi considerado prescrito. Esses argumentos foram rebatidos pela Funai, representada pela Adjuntoria de Contencioso da Procuradoria-Geral Federal (PGF). Em voto favorável à Fundação e ao MPF, a ministra relatora, Eliana Calmon, afastou os argumentos apresentados pelos madeireiros e ressaltou que a reparação de danos ao meio ambiente não prescreve, ou seja, pode ser requerida a qualquer tempo.

No que diz respeito à intenção dos réus de reduzir o valor da condenação milionária, a ministra ressaltou que os valores arbitrados pela primeira instância estão de acordo com a magnitude da degradação ambiental praticada com a invasão de terra indígena, abertura irregular de estradas, derrubada de árvores e retirada de madeira. A relatora lembrou que, de acordo com a Súmula 7, do STJ, não é possível revisar, em recurso especial, entendimento judicial que foi firmado com base em provas juntadas ao processo.

O STJ informou que nenhum dos réus impugnou objetiva e especificamente os valores fixados na sentença de primeiro grau. Isso impede a apreciação dessa matéria pelo Tribunal, nos termos da Súmula 284, do Supremo Tribunal Federal.

Acompanhe os últimos andamentos:

03/08/2010 - 17:20:00 - Resultado de Julgamento Parcial: "Adiado por indicação do Sr. Ministro Mauro Campbell Marques." - Petição: EDcl no REsp 1120117/AC (2009/0074033-7)

02/08/2010 - 19:29 - PETIÇÃO Nº 292063/2009 - EDCL NO RESP 1120117/AC - INCLUÍDO NA PAUTA DO DIA 10/08/2010 DA SEGUNDA TURMA

24/06/2010 - 16:20 - EM MESA PARA JULGAMENTO - SEGUNDA TURMA - SESSÃO DO DIA 03/08/2010 14:00:00

22/06/2010 - 20:40 - RESULTADO DE JULGAMENTO PARCIAL: "ADIADO POR INDICAÇÃO DO SR. MINISTRO MAURO CAMPBELL MARQUES." - PETIÇÃO: EDCL NO RESP 1120117/AC (2009/0074033-7)

17/06/2010 - 20:04 - EM MESA PARA JULGAMENTO - SEGUNDA TURMA - SESSÃO DO DIA 22/06/2010 13:00:00

17/06/2010 - 15:04 - RESULTADO DE JULGAMENTO PARCIAL: "ADIADO POR INDICAÇÃO DO SR. MINISTRO MAURO CAMPBELL MARQUES." - PETIÇÃO: EDCL NO RESP 1120117/AC (2009/0074033-7)

16/06/2010 - 07:44 - EM MESA PARA JULGAMENTO - SEGUNDA TURMA - SESSÃO DO DIA 17/06/2010 14:00:00

10/06/2010 - 10:27 - PETIÇÃO Nº 292063/2009 - EDCL NO RESP 1120117/AC - INCLUÍDO NA PAUTA DO DIA 17/06/2010 DA SEGUNDA TURMA NO DJE EM 11/06/2010

18/02/2010 - 16:55 - RESULTADO DE JULGAMENTO PARCIAL: "APÓS O VOTO DA SRA. MINISTRA ELIANA CALMON, REJEITANDO OS EMBARGOS DE DECLARAÇÃO, PEDIU VISTA DOS AUTOS, ANTECIPADAMENTE, O SR. MINISTRO MAURO CAMPBELL MARQUES."

02/02/2010 - 09:57 - PETIÇÃO Nº 292063/2009 - EDCL NO RESP 1120117/AC - INCLUÍDO NA PAUTA DO DIA 09/02/2010 DA SEGUNDA TURMA NO DJE EM 03/02/2010

10/11/2009 - 15:25 - RESULTADO DE JULGAMENTO FINAL: "A TURMA, POR UNANIMIDADE, CONHECEU EM PARTE DO RECURSO E, NESSA PARTE, NEGOU-LHE PROVIMENTO, NOS TERMOS DO VOTO DO(A) SR(A). MINISTRO(A)-RELATOR(A)."

Acompanhe o caso aqui!

20/07/2010

Projeto que levará mestres tradicionais para dar aulas na UnB terá agora etapa de residência

Encontro de Saberes

por Heli Espíndola, Comunicação Social/MinC, Ministério da Cultura, 19/07/2010

Maniwa Kamayurá - Arquiteto tradicional e Pajé. Representante dos povos indígenas do Alto Xingu, especialista em contrução da residência tradicional Kamayurá

A partir do segundo semestre de 2010, alunos da Universidade de Brasília poderão aprender, por exemplo, técnicas para se construir uma casa indígena ou como utilizar as raízes do cerrado na cura de várias doenças. Estudantes interessados poderão se matricular na disciplina Artes e Ofícios dos Saberes Tradicionais, que será ofertada em grade regular e módulo livre, e ministrada três vezes por semana, das 13h às 14h.

A matéria, que abrirá ainda espaço para aulas sobre as manifestações culturais do Cavalo Marinho, do Maracatu, do Congado e da Folia de Reis e como os indígenas preservam a flora, a fauna e as nascentes da floresta, integra o Projeto Encontro dos Saberes, que levará para as salas de aula da Universidade de Brasília mestres tradicionais de várias regiões do país.

O projeto piloto, uma parceria do Ministério da Cultura, por meio da Secretaria da Identidade e da Diversidade Cultural (SID/MinC), do Ministério da Educação, por meio da Secretaria de Educação Continuada, Alfabetização e Diversidade (Secad/MEC), e da Universidade de Brasília, foi lançado dia 13, em Brasília. Com o objetivo de integrar os mestres tradicionais ao ambiente universitário e discutir a metodologia a ser utilizada nas aulas, foram realizados, de 14 a 16, na Faculdade de Educação da UnB, um seminário e duas oficinas.

Sobre a metodologia a ser utilizada nas aulas, a professora de Educação Ambiental, Nina Paula Laranjeira, informa que durante as oficinas ficou decidido que cada mestre utilizará a que for mais adequada para ele. “Cada um tem uma metodologia diferente e pelo fato de não dominarem a escrita, vamos utilizar a oralidade, o “fazer” e o sentimento que eles têm para transmitir”, conta a docente. Ela será parceira, nas aulas, do Mestre Benki Ashaninka, que é presidente do Centro Saberes da Floresta (Yorenka Ãtame), do povo Ashaninka, no estado do Acre e desenvolve um trabalho de conhecimento da floresta comprometido com a proteção ambiental e o reflorestamento.

Mas, segundo ela, essa metodologia será aprofundada com o professor parceiro, durante o período da residência, a terceira etapa do Projeto Encontro de Saberes, que acontecerá durante toda a semana de 19 a 23 de julho. “Ainda faremos uma reunião geral após essa última etapa para finalizarmos as discussões sobre a metodologia”, informa Nina, que dentro da residência levou o Mestre Benki Ashaninka para conhecer o projeto do Centro de Estudos do Cerrado que está sendo criado pela UnB na Chapada dos Veadeiros.

“Eu espero, com essas aulas, causar uma reflexão nos estudantes sobre a importância da mudança de atitude em relação à natureza”, sonha o líder Ashaninka. “Precisamos mudar a maneira de olhar e qualificar nosso saber de uma maneira prática, conhecendo e tendo responsabilidade na busca de um mundo novo”, filosofa o mestre indígena que adquiriu seus conhecimentos com seus antepassados, com seus pais e com os espíritos da floresta.

Outro mestre indígena selecionado para as aulas, Maniwa Kamayurá, arquiteto especialista em construção da residência tradicional kamayurá, fará uma maquete das casas indígenas para ser utilizada nas aulas. Também pajé e representante dos povos indígenas do Alto Xingu, ele disse que está muito contente por participar do projeto. “É muito importante, para mim, contar um pouco da minha cultura e o que eu sei”, afirma Maniwa, que também ensina sua técnica de construção aos jovens de sua aldeia. Também dentro da programação da residência, ele ainda visitou o Centro Cultural Banco do Brasil, acompanhado do seu mestre parceiro, o professor de arquitetura Jaime Santana.

Os cinco mestres tradicionais - três da cultura popular e ofícios e dois da cultura indígena - selecionados para as aulas da disciplina Artes e Ofícios dos Saberes Tradicionais são: Benki Ashaninka, presidente do Centro Saberes da Floresta do povo Ashaninka (AC); Maniwa Kamayurá, arquiteto tradicional e pajé; Lucely Pio, Mestra raizeira da Comunidade Quilombola do Cedro (GO); Biu Alexandre, Mestre do Cavalo Marinho e Estrela de Ouro de Condado no Pernambuco; e José Jerome, Mestre de Congado de Cunha (SP) e Folia de Reis do Vale do Paraíba.

A equipe de docentes parceiros da UnB é formada pelos professores das áreas de Artes Cênicas (Rita de Cássia Castro e Luciana Hartmann), Música (Antenor Ferreira), Arquitetura (Jaime Santana), Saúde (Silvéria dos Santos) e Educação Ambiental (Nina Laranjeira.

O Projeto Encontro de Saberes tem, ainda, a parceria do Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia (INCT), de Inclusão no Ensino Superior e na Pesquisa, órgão do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq).

18/07/2010

Uma aldeia chamada Apiwtxa


por Vídeo nas Aldeias, 16/07/2010

Durante o mês de junho aconteceu no Acre a oficina de edição Ashaninka, na aldeia Apiwtxa, em Marechal Thaumaturgo. O povo Ashaninka está situado em territórios do Acre e do Peru e desde 1980 vem combatendo a exploração de madeiras, bem como vem desenvolvendo técnicas de manejo sustentável da floresta.

Filmes como “A gente luta, mas come fruta”, 2006, de Isaac Pinhanta e Bebito Pinhanta retratam os processos de manejo, cultivo e preservação da floresta amazônica, as relações na escola indígena, que inclui a lida com a natureza essencial na formação das crianças.

Vincent Carelli e Ernesto de Carvalho levaram da sede em Olinda o último corte de edição do mais novo filme produzido pelos cineastas indígenas, “Uma aldeia chamada Apiwtxa” e retornaram com tudo aprovado para finalização do filme. Durante os dias em que estiveram por lá, trabalharam em entrevistas e registro do cotidiano para produção de mais um filme Ashaninka, que trará para o vídeo um pouco do histórico da etnia.

No blog http://apiwtxa.blogspot.com/ é possível acompanhar um pouco do dia a dia desta harmoniosa comunidade.

13/07/2010

Encontro de Saberes


Encontro de Saberes promoverá diálogo entre o saber tradicional e o saber científico

O Ministério da Cultura, por meio da Secretaria da Identidade e da Diversidade Cultural, em parceria com a Universidade de Brasília e o Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia (INCT) de Inclusão no Ensino Superior e na Pesquisa, órgão do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq), realizará nos dias 13 e 14 de julho, no auditório Dois Candangos, o Seminário Internacional - A inclusão das artes e dos saberes indígenas, afro-americanos e tradicionais na universidade.

O seminário é a primeira etapa do projeto e tem como objetivo conhecer as iniciativas já realizadas, no Brasil e na América do Sul, de inclusão de mestres de saberes tradicionais, populares e indígenas, no ensino superior.

O Encontro de Saberes tem como proposta promover o diálogo entre os saberes acadêmicos e os saberes tradicionais, populares e indígenas, além de contribuir para o processo de reconhecimento de mestres de artes e ofícios como docentes no ensino superior, aliando esses dois universos por meio da realização de cursos e ações interculturais.

Etapas - O Encontro de Saberes será realizado em três etapas:

1ª etapa: Seminário Internacional. O evento tem como objetivo apresentar iniciativas já realizadas no Brasil e no exterior de inclusão de protagonistas de conhecimentos tradicionais no ensino superior, além de realizar oficinas de trabalho envolvendo os mestres docentes, os professores parceiros e outros professores convidados.

2ª etapa: Residência, preparação da metodologia e dos recursos didáticos necessários para a disciplina com a participação de cinco mestres de artes e ofícios populares e indígenas e dos professores parceiros;

3ª etapa: Criação da disciplina “Artes e Ofícios dos Saberes Tradicionais”, que será ministrada pelos mestres tradicionais populares e indígenas, junto com os professores parceiros e será ofertada na grade regular de graduação do segundo semestre de 2010 da UnB, acessível a estudantes de todos os cursos.

Confira aqui a programação!

Mais informações acesse http://www.encontrodesaberes.com.br/

12/07/2010

Xamãs, artesãos e mestres da cultura popular serão professores da UnB


Universidade será a primeira no Brasil a ter uma disciplina baseada nos saberes tradicionais. Aulas devem começar no próximo semestre

por Ana Lúcia Moura, da Secretaria de Comunicação da UnB, UnB Agência, 12/07/2010

Benki Pianko é um grande especialista brasileiro em reflorestamento. Maniwa Kamayurá conhece em detalhes as técnicas de construção indígena. Lucely Pio é capaz de identificar com precisão qualquer planta do cerrado. Mas o conhecimento de nenhum deles veio das salas de aula. Eles aprenderam o ofício com o avô, com a avó, com o pai, com a mãe. E passam sua sabedoria aos mais novos, aos filhos, aos netos. Agora, vão ensinar o que aprenderam também aos alunos da Universidade de Brasília.

Benki, Maniwa e Lucely serão professores de uma disciplina de módulo livre que deve ser inaugurada no próximo semestre: Artes e Ofícios dos Saberes Tradicionais. Benki, que é mestre do povo indígena Ashaninka, no Acre, Maniwa, pajé e representante dos povos indígenas do Alto Xingu e Lucely, mestre raizeira da Comunidade Quilombola do Cedro, em Goiás, vão passar adiante o conhecimento acumulado durante mais de séculos nas comunidades onde cresceram e vivem até hoje. Benki e Maniwa são xamãs indígenas, líderes espirituais com funções e poderes ritualísticos. Lucely é mestre quilombola.

Além deles serão também professores da nova disciplina Zé Jerome, mestre de Congado e Folia de Reis do Vale do Paraíba, em São Paulo, e Biu Alexandre, mestre do Cavalo Marinho Estrela de Ouro de Condado, um dos tradicionais grupos folclóricos da Zona da Mata pernambucana, que reúne teatro, dança, música e poesia.

A criação da disciplina, que deve ter carga semanal de seis horas e depende ainda de aprovação do Decanato de Ensino de Graduação, faz parte de um projeto de introdução dos saberes tradicionais na universidade. “Queremos promover um diálogo, uma troca de conhecimentos", explica o professor José Jorge de Carvalho, criador e coordenador do projeto e também dos Institutos Nacionais de Ciência e Tecnologia. "Os mestres que aqui estarão tem um modo de construir saberes que leva em conta não só o pensar, que é característico da cultura das universidades, mas também o fazer e o sentir”, completa o professor.

AVANÇO - O professor José Jorge destaca, no entanto, que a introdução dos saberes tradicionais não é uma negação da forma utilizada pelas universidades de produzir e transmitir conhecimento. “Pelo contrário. É uma soma. Sabemos coisas que os mestres tradicionais não sabem, assim como eles sabem muito do que não conhecemos. A universidade pode ser muito mais rica do que é”, acrescenta. Cada mestre passará duas semanas na UnB e será acompanhado por um professor na sala de aula. “A universidade pode ser mais rica do que é e para isso precisa fazer justiça à riqueza de saberes que existem no Brasil”, completa o professor José Jorge.

O diretor do Departamento de Antropologia, Luís Roberto Cardoso de Oliveira, lembra que a criação de disciplinas de módulo livre, que permitem aos alunos contato com um conhecimento totalmente fora de sua área, foi um avanço. "E colocar os mestres frente a frente com os alunos e ao lado dos professores é uma proposta que vai ainda mais além", comenta.

Para Nina de Paula Laranjeira, diretora de Acompanhamento e Integração Acadêmica do Decanato de Ensino de Graduação, a iniciativa por si só já demostra uma mudança nos modos de pensar. "Precisamos superar o paradigma de que o conhecimento está limitado à comprovação científica", afirma.

TROCA DE SABERES - As bases pedagógicas e antropológicas da nova disciplina serão discutidas nos dias 15 e 16 de julho, como parte do seminário internacional que vai tratar da introdução de novos saberes nas universidades. “O método de transmissão dos mestres tradicionais é completamente diferente do nosso. O ideal para a raizeira Lucily, por exemplo, é ensinar caminhando pelo cerrado”, explica o professor José Jorge.

Organizado pelos Institutos Nacionais de Ciência e Tecnologia e Ministério da Cultura, o Encontro de Saberes vai reunir mestres indígenas e de atividades folclóricas, professores brasileiros e latino americanos, além de representantes do Governo Federal. No encontro, serão apresentadas experiências de universidades de cinco países da América Latina que desenvolvem projetos de inclusão de saberes tradicionais em seus cursos, disciplinas e programas de extensão. O seminário, que acontece no Auditório Dois Candangos, também será uma oportunidade para os novos professores conhecerem melhor a UnB.

Entre os palestrantes estão o reitor da Universidade Amawtay Wasi do Equador, Maria Mercedes Díaz, da Universidade de Catamarca na Argentina, Jaime Arocha, professor de Antropologia da Universidade Nacional da Colômbia, Carlos Callisaya, coordenador das Universidades Indígenas da Bolívia no Ministério da Educação boliviano e Maria Luísa Duarte Medina, que atua em projetos de inclusão dos saberes indígenas nas instituições de ensino superior do Paraguai. “A presença de cada um deles mostra que a inclusão dos saberes tradicionais na academia é um movimento cada vez mais forte”, afirma o professor José Jorge.