15/04/2010
Índio no Cinema
Em Rio Branco, capital do Estado, mais de 70 obras podem ser vistas sobre o cotidiano das comunidades de várias regiões. Os filmes foram feitos pelos próprios índios.
por Globo Rural, Edição Diária, 15/04/2010
Documentários gravados em aldeias indígenas são exibidos nesta semana no Acre. Em Rio Branco, são vistas mais de 70 obras sobre o cotidiano das comunidades de várias regiões feitas pelos próprios índios.
Em um dos documentários, a comunidade xavante do Mato Grosso realiza a iniciação espiritual de jovens índios. No início, havia uma grande resistência dos índios por causa do medo das câmeras filmadoras. “O pessoal acredita que eles roubam a alma. Então, no início teve toda a preparação. É importante registrar”, falou Caimi Xavante, cineasta indígena.
Superado o medo, o resultado é visto em belas imagens que retratam a cultura dos povos. Bebito Pianko produz filmes há mais de dez anos. Ele é da comunidade Ashaninka do Acre. Manusear a câmera virou tarefa fácil. O último filme dele mostra o trabalho da comunidade para recuperar os recursos naturais da floresta amazônica.
“Não é apenas para o financeiro. É mais para que as pessoas entendam quem somos e nossa preocupação com o território”, falou Pianko.
As cenas da vida real das aldeias ganham as telas em exibições públicas que ultrapassaram as fronteiras. Os vídeos exibidos em Rio Branco foram vistos em mais de 20 países, como os Estados Unidos, Canadá, França e até no Japão.
Na platéia, com a maioria de crianças, os filmes despertaram o interesse pela preservação da cultura e também do meio ambiente.
“São filmes que estão sendo reconhecidos como um novo olhar sobre a realidade indígena. A visibilidade nacional é muito importante para os índios”, falou Vicente Carelli, organizador da mostra.
Veja mais aqui!
14/04/2010
Alunos de escolas públicas do Rio assistem documentário produzido por Apiwtxa
Assista aqui um trecho do filme A gente luta mas come fruta!
Currículo escolar da rede estadual inclui aula de cultura indígena
por O Dia Online - Educação, 14/04/2010
Rio - A valorização da cultura indígena e a importância do índio como principal protagonista da história do Brasil são algumas das lições aprendidas pelos alunos dos colégios Paulo Freire, no Cachambi, Zona Norte do Rio, e Joracy Camargo, em Belford Roxo, na Baixada Fluminense. Durante todo o ano letivo, as escolas estaduais cumprem as exigências da Lei n° 11.645, que inclui no currículo acadêmico a história indígena. Nesta terça-feira, na semana do Dia do Índio, que é comemorado dia 19 de abril, alunos das duas unidades escolares se reuniram para desvendarem juntos as verdades e os mitos sobre os nativos brasileiros.
Na aula especial, os estudantes conheceram as tradições dos índios, relatadas pelos “caras pálidas” em canções, filmes e livros. Os diferentes costumes, rituais religiosos, danças, artes e línguas encantaram os jovens. Eles tiveram a oportunidade de entender um pouco mais sobre essa diferente manifestação cultural e o modo de vida dos mais antigos habitantes do Brasil no documentário A gente luta, mas a gente come a fruta. No filme, produzido por índios Ashaninka de Apiwtxa, os alunos acompanharam o cotidiano da tribo que vive na fronteira com o Peru.
"Eu acho muito interessante a inclusão da história indígena na nossa grade curricular e a exibição de documentários que nos aproximam da cultura desse povo. Os estudantes precisam conhecer mais profundamente a história dos índios e do Brasil. Esse debate é muito legal, porque reúne opiniões diferentes e nos ajuda a refletir. Precisamos aprender mais sobre eles. São os nossos antepassados", afirmou a aluna do Colégio Paulo Freire.
13/04/2010
Apiwtxa é contemplada com o Prêmio Culturas Indígenas

FEM entrega vídeos para SEE e anuncia contemplados no Prêmio Culturas Indígenas
por Tatiana Campos, com foto de Angela Peres, Agência de Notícias do Acre, 13/04/2010
A Fundação Elias Mansour (FEM) entregou à Secretaria Estadual de Educação, na manhã desta terça-feira, 20 Kits Cineastas Indígenas, compostos por 5 DVD's com produções cinematográficas indígenas. Também foram anunciados os contemplados no Prêmio Culturas Indígenas, que receberão R$ 10 mil para executar projetos de atividades culturais.
Para a secretária de Educação, Maria Corrêa, os kits chegam em boa hora. "Estamos num momento de discussão dos referenciais curriculares da secretaria e pretendo que se amplie esse debate em torno das questões culturais que deram origem ao nosso povo", disse.
A intenção da Secretaria de Educação é mudar a visão que os alunos possam ter sobre a cultura indígena. "Muitas vezes os índios são vistos como folclore e um material como esses DVDs vai permitir diversas abordagens interdisciplinares para que os nossos alunos tenham contato com esta cultura, seus costumes e tradições, seu modo de vida", explicou.
Bebito Piãnko, da etnia Ashaninka, é um dos videastas que participam da Mostra Vídeo nas Aldeias e o material produzido por ele e seus parceiros também faz parte do Kit Cineastas Indígenas. "Trabalhar com o audiovisual é uma experiência nova e uma oportunidade interessante. A câmera é um equipamento que não faz parte da nossa cultura, mas nos permite mostrar a nossa cultura para outros povos e este intercâmbio está acontecendo no Brasil", comentou.
Os kits contêm documentários produzidos pelas etnias Ashaninka, Guarani, Huni Kui, Kuikuro e Xavante.
FEM anuncia contemplados no Prêmio Culturas Indígenas
As 20 iniciativas contempladas no editado do Prêmio Culturas Indígenas foi divulgada na manhã desta terça-feira, pelo presidente da Fundação de Cultura Elias Mansour (FEM), Daniel Zen. O anúncio aconteceu na mesma cerimônia que entregou à Secretaria de Estadual de Educação os Kits Cineastas Indígenas. Foram apresentadas 42 propostas de atividades culturais que variaram de produção de vídeos a festivais de cultura.
Segundo Zen, o edital teve um caráter atípico, pois ficou aberto durante um longo período de tempo. "A intenção era percorrer a maior quantidade possível de terras indígenas e aldeias para divulgar o prêmio, que é uma oportunidade de contemplar e promover a cultura indígena no nosso Estado".
O prêmio faz parte do Programa de Valorização dos Povos Indígenas e visa fortalecer as expressões culturais e a identidade dos povos, contribuindo para o fortalecimento de suas tradições e para o reconhecimento da sua importância para a diversidade cultural acreana.
Cada proposta contemplada vai receber R$ 10 mil, que serão repassados para as aldeias e comunidades responsáveis pelas iniciativas, além do certificado de premiação. As iniciativas beneficiadas atendem as áreas de audiovisual, artes visuais, literatura/comunicação, música, patrimônio material e imaterial e abrangem todos os segmentos como os rituais, festas tradicionais, língua, tradição oral, entre outras.
Confira a lista das 20 iniciativas contempladas com o Prêmio Culturas Indígenas do Acre aqui!
12/04/2010
Mostra Vídeo nas Aldeias: com a presença dos cineastas indígenas

Filmes produzidos por índios levam o olhar das tribos para a população: Começa a Mostra Vídeo nas Aldeias
por Samuel Bryan, Agência de Notícias do Acre, 12/04/2010
O cinema é mais do que entretenimento, é um processo de aprendizagem. Sob essa ótica, Rio Branco recebe a partir desta segunda-feira, 12, a Mostra Vídeo nas Aldeias, que vai até o dia 18 de abril, levando filmes produzidos por cineastas indígenas dentro de suas próprias aldeias. A mostra acontece em 5 pontos da cidade em diversos horários, Filmoteca Acreana, Cineclube Som da Floresta, Cineclube Aquiry, Teatro Barracão e Biblioteca da Floresta, sendo esse último ponto exclusivo para exibições agendadas de alunos do sistema público. Todas as sessões possuem debate após as exibições com os cineastas que produziram os vídeos.
Assim, os vídeos demonstram a ótica do próprio índio. A mostra, que é a primeira do gênero, também é uma forma de abordar como as novas gerações indígenas conseguem interagir muito bem entre manter suas tradições culturais e novas maneiras de preservar a cultura de seu povo, através dessa forma importante que é a documentação cinematográfica. São dezenas de filmes premiados e aclamados em diversas partes do mundo, como a Europa e alguns países da Ásia, como o Japão.
A mostra traz produções realizadas nas aldeias dos povos Ashaninka, Guarani, Huni Kui, Kuikuro e Xavante. Vicente Carelli, cineasta curador da mostra, explica que "levar ao conhecimento da população brasileira a cultura indígena é fundamental. É um novo olhar sobre essa cultura". Já para o cineasta acreano Valdete da Silva Pinhanta, o Bebito, da etnia Ashaninka, que também está com produções na mostra, afirma que as produções "ajudam a mudar o conceito de visão dos índios. Quando se fala de índio, as pessoas pensam que tudo é uma cultura só, não é. Cada tribo tem sua cultura e os filmes servem para mostrar parte disso".
Educação
A mostra também será um momento importante para divulgar em Rio Branco a distribuição dos Kits Cineastas Indígenas para as escolas de todo o Brasil, numa cerimônia de lançamento com a Secretaria de Educação do Acre, na Biblioteca da Floresta, no dia 13 de abril, às 9 horas. Os kits são compostos de 5 DVD's contendo produções cinematográficas indígenas. Financiado pela Petrobras , o projeto almeja chegar a 3 mil escolas em todo o território nacional.
Veja a Programação em PDF aqui!
01/04/2010
Almamaque de Cultura e Transformação Ibero-Americana
“Eu fico lá com meus pais, e a gente vem trabalhando o desenvolvimento, o reflorestamento e repovoamento. Depois que conseguimos nosso território, que era muito devastado na época pelas madeireiras, começamos a fechar e trabalhar para que isso não acontecesse de novo.”
Por Thereza Dantas, no Almanaque de Cultura e Tranformação Ibero-Americana
São quase 15 anos de trabalho de repovoamento e reflorestamento a partir da Aldeia Apiwtxa, Terra Indígena Kampa do Rio Amônia, no município de Marechal Thaumaturgo, Vale do Juruá, no Estado do Acre. Quem conta um pouco dessa história é Wewite Ashaninka, também conhecido por Bebito, o cameraman do povo Ashaninka.
A família de Wewite é uma das fundadoras da Apiwtxa, uma ONG que trabalha com questões ligadas à terra e ao reconhecimento do patrimônio cultural desse povo. Um detalhe curioso: o povo Ashaninka, oriundo do Peru, é numericamente mais populoso do outro lado da fronteira (cerca de 60 mil) e no Brasil não chegam a 1 mil. Mas os que estão em terras brasileiras estão se articulando para manter suas terras e as tradições da sua cultura por meio de parcerias com instituições públicas e particulares, brasileiras e estrangeiras. O irmão de Wewite, Isaac Pinhantã Ashaninka, é hoje Secretário do Meio Ambiente do Município de Marechal Thaumaturgo. “A minha família é quem está mais integrada nos assuntos da Apiwtxa. O meu trabalho é mais com a documentação de imagens da região”, explica Wewite. O “trabalho de documentação”, feito com equipamento profissional audiovisual, também faz parte da estratégia do povo Ashaninka para preservar suas tradições.
O cameraman Wewite Ashaninka é um dos realizadores indígenas que participam do trabalho da ONG Vídeo nas Aldeias e que, junto com seu irmão Isaac, realizou o documentário A gente luta mas come fruta, que recebeu em 2007 o prêmio Panamazônia ActionAid, da organização não-governamental internacional ActionAid. No documentário, cenas de como os Ashaninkas estão trabalhando para recuperar os recursos da terra, explorada de modo desordenado pelos brancos. Madeireiros peruanos são sempre a grande preocupação do povo Ashaninka para poder manter a floresta em seu território, já antes ali destruída, tal como continua a acontecer do outro lado da fronteira. O mesmo vale para os traficantes, cuja rota, a partir da Colômbia ou do Peru, atravessa seu território. Eles já ofereceram fortunas para que se estendesse nas aldeias a plantação e o refino da coca – cujas folhas os indígenas mastigam em situações que exigem esforço físico e ainda utilizam em seus rituais xamânicos, sendo, portanto, cultivada nas unidades domésticas da aldeia, mas sempre em quantidade ínfima. Sua recusa em transformar em economia de escala uma prática enraizada em seus costumes, mostra o quanto compreendem a necessidade de manter seu modo de vida para poder preservar as tradições de sua cultura.
Outro líder reconhecido da ONG Apiwtxa, Benki Piyãko, um dos responsáveis pelo Centro de Saberes da Floresta Yorenka Ãtame, viaja o mundo explicando o trabalho de se manter “a floresta viva, em pé”. O Centro Yorenka Ãtame, criado em 2006, foi idealizado por sete irmãos para realizar um sonho de seu avô, Samuel Piyanko, desde os tempos em que se discutiam as primeiras propostas de se manterem reservas extrativistas para assegurar a exploração sustentável dos seringais: era preciso “promover a união de índios e brancos para perpetuar a principal fonte de abastecimento de suas famílias e vizinhos – a floresta viva”. No Centro são oferecidas oficinas de capacitação de índios e não-índios, jovens, homens e mulheres, que recebem bolsas para aprender e trabalhar com os “saberes da floresta”, acumulados pelo povo Ashaninka em séculos de sua história. O Centro foi construído em uma área de pasto próxima à cidade de Marechal Thaumaturgo, que está sendo totalmente reflorestada. Índios Ashaninkas do Peru, em sua maioria jovens, são presença constante nessas oficinas de capacitação, que incluem desde conhecimentos sobre apicultura até o registro da memória das comunidades por meio das TIC’s – Tecnologias da Informação e da Comunicação. Dada a presença dos sofisticados equipamentos de gravação e projeção de vídeos, proporcionados pelo MinC, ao incorporar em 2008 o Ponto de Cultura Interação: Culturas Indígenas e Cultura Digital da ONG Apiwtxa, o Centro vem se tornando cada vez mais um lugar de lazer para a população da cidade.
E aí Wewite é peça fundamental na manutenção das tradições do povo Ashaninka. O apelido cameraman veio em função das belas imagens captadas por sua filmadora. É numa oficina de edição de imagens, oferecida pela ONG Vídeo nas Aldeias, que converso com ele sobre a cultura Ashaninka. É por Wewite que descubro que sua mãe é mulher branca, cabocla filha de seringueiro que nunca mais voltou para o mundo dos homens brancos depois de casar com seu pai, porque este é o costume Ashaninka, mas educou seus filhos para fazer a ponte entre a aldeia e os seringueiros. Descubro, também, que ele é casado com uma indígena de outro povo, mas que seu filho será Ashaninka porque, na tradição de seu povo, as esposas vão para a terra do marido e passam a fazer parte do grupo, incorporando seus costumes e sua cultura. É com ele que vejo as casas de madeira erguidas a um metro de altura do chão e crianças aprendendo a falar a língua de seus antepassados. “Além de realizador, também sou professor, membro da OPIAC: a Organização dos Professores Indígenas do Acre”, ele nos conta.
São estas redes, virtuais e físicas, que aproximam várias iniciativas indígenas na manutenção da floresta e tradições culturais de povos distintos. Além da OPIAC, que tem como objetivo promover, defender, desenvolver e divulgar a educação escolar indígena de forma específica e diferenciada, a Rede dos Povos da Floresta investe na infra-estrutura de comunicação e informação, inclusão digital e intercâmbio entre os diversos povos tradicionais da região amazônica. Criada em 2003, como uma revitalização da Aliança dos Povos da Floresta – mobilização feita por índios e seringueiros liderada por Chico Mendes e Ailton Krenak em fins da década de 80 –, ela retoma a agenda que resultou na criação das reservas extrativistas e na correção das políticas do Banco Mundial para o financiamento de grandes projetos de impacto socioambiental, nas regiões de florestas tropicais em todo o mundo.
O realizador indígena Wewite conta que a Cooperativa Ayonpare, que vende via internet adornos e roupas pelo blog da Apiwtxa, mobiliários e peças de decoração criados pelos Ashaninkas, foi durante anos o único meio de sustento da comunidade. “Pode parecer estranho, mas o que nos sustentou durante alguns anos foi a venda on-line de peças que fabricamos na nossa aldeia”. Não é nenhuma surpresa e nem estranho, quando se sabe que o povo Ashaninka, orgulhoso de sua cultura, tem como forte característica a capacidade de conciliar sabiamente costumes e valores tradicionais com idéias e práticas do mundo dos brancos, na defesa de suas tradições.
Conheça aqui outros Pontos de Cultura!
Por Thereza Dantas, no Almanaque de Cultura e Tranformação Ibero-Americana
São quase 15 anos de trabalho de repovoamento e reflorestamento a partir da Aldeia Apiwtxa, Terra Indígena Kampa do Rio Amônia, no município de Marechal Thaumaturgo, Vale do Juruá, no Estado do Acre. Quem conta um pouco dessa história é Wewite Ashaninka, também conhecido por Bebito, o cameraman do povo Ashaninka.
A família de Wewite é uma das fundadoras da Apiwtxa, uma ONG que trabalha com questões ligadas à terra e ao reconhecimento do patrimônio cultural desse povo. Um detalhe curioso: o povo Ashaninka, oriundo do Peru, é numericamente mais populoso do outro lado da fronteira (cerca de 60 mil) e no Brasil não chegam a 1 mil. Mas os que estão em terras brasileiras estão se articulando para manter suas terras e as tradições da sua cultura por meio de parcerias com instituições públicas e particulares, brasileiras e estrangeiras. O irmão de Wewite, Isaac Pinhantã Ashaninka, é hoje Secretário do Meio Ambiente do Município de Marechal Thaumaturgo. “A minha família é quem está mais integrada nos assuntos da Apiwtxa. O meu trabalho é mais com a documentação de imagens da região”, explica Wewite. O “trabalho de documentação”, feito com equipamento profissional audiovisual, também faz parte da estratégia do povo Ashaninka para preservar suas tradições.
O cameraman Wewite Ashaninka é um dos realizadores indígenas que participam do trabalho da ONG Vídeo nas Aldeias e que, junto com seu irmão Isaac, realizou o documentário A gente luta mas come fruta, que recebeu em 2007 o prêmio Panamazônia ActionAid, da organização não-governamental internacional ActionAid. No documentário, cenas de como os Ashaninkas estão trabalhando para recuperar os recursos da terra, explorada de modo desordenado pelos brancos. Madeireiros peruanos são sempre a grande preocupação do povo Ashaninka para poder manter a floresta em seu território, já antes ali destruída, tal como continua a acontecer do outro lado da fronteira. O mesmo vale para os traficantes, cuja rota, a partir da Colômbia ou do Peru, atravessa seu território. Eles já ofereceram fortunas para que se estendesse nas aldeias a plantação e o refino da coca – cujas folhas os indígenas mastigam em situações que exigem esforço físico e ainda utilizam em seus rituais xamânicos, sendo, portanto, cultivada nas unidades domésticas da aldeia, mas sempre em quantidade ínfima. Sua recusa em transformar em economia de escala uma prática enraizada em seus costumes, mostra o quanto compreendem a necessidade de manter seu modo de vida para poder preservar as tradições de sua cultura.
Outro líder reconhecido da ONG Apiwtxa, Benki Piyãko, um dos responsáveis pelo Centro de Saberes da Floresta Yorenka Ãtame, viaja o mundo explicando o trabalho de se manter “a floresta viva, em pé”. O Centro Yorenka Ãtame, criado em 2006, foi idealizado por sete irmãos para realizar um sonho de seu avô, Samuel Piyanko, desde os tempos em que se discutiam as primeiras propostas de se manterem reservas extrativistas para assegurar a exploração sustentável dos seringais: era preciso “promover a união de índios e brancos para perpetuar a principal fonte de abastecimento de suas famílias e vizinhos – a floresta viva”. No Centro são oferecidas oficinas de capacitação de índios e não-índios, jovens, homens e mulheres, que recebem bolsas para aprender e trabalhar com os “saberes da floresta”, acumulados pelo povo Ashaninka em séculos de sua história. O Centro foi construído em uma área de pasto próxima à cidade de Marechal Thaumaturgo, que está sendo totalmente reflorestada. Índios Ashaninkas do Peru, em sua maioria jovens, são presença constante nessas oficinas de capacitação, que incluem desde conhecimentos sobre apicultura até o registro da memória das comunidades por meio das TIC’s – Tecnologias da Informação e da Comunicação. Dada a presença dos sofisticados equipamentos de gravação e projeção de vídeos, proporcionados pelo MinC, ao incorporar em 2008 o Ponto de Cultura Interação: Culturas Indígenas e Cultura Digital da ONG Apiwtxa, o Centro vem se tornando cada vez mais um lugar de lazer para a população da cidade.
E aí Wewite é peça fundamental na manutenção das tradições do povo Ashaninka. O apelido cameraman veio em função das belas imagens captadas por sua filmadora. É numa oficina de edição de imagens, oferecida pela ONG Vídeo nas Aldeias, que converso com ele sobre a cultura Ashaninka. É por Wewite que descubro que sua mãe é mulher branca, cabocla filha de seringueiro que nunca mais voltou para o mundo dos homens brancos depois de casar com seu pai, porque este é o costume Ashaninka, mas educou seus filhos para fazer a ponte entre a aldeia e os seringueiros. Descubro, também, que ele é casado com uma indígena de outro povo, mas que seu filho será Ashaninka porque, na tradição de seu povo, as esposas vão para a terra do marido e passam a fazer parte do grupo, incorporando seus costumes e sua cultura. É com ele que vejo as casas de madeira erguidas a um metro de altura do chão e crianças aprendendo a falar a língua de seus antepassados. “Além de realizador, também sou professor, membro da OPIAC: a Organização dos Professores Indígenas do Acre”, ele nos conta.
São estas redes, virtuais e físicas, que aproximam várias iniciativas indígenas na manutenção da floresta e tradições culturais de povos distintos. Além da OPIAC, que tem como objetivo promover, defender, desenvolver e divulgar a educação escolar indígena de forma específica e diferenciada, a Rede dos Povos da Floresta investe na infra-estrutura de comunicação e informação, inclusão digital e intercâmbio entre os diversos povos tradicionais da região amazônica. Criada em 2003, como uma revitalização da Aliança dos Povos da Floresta – mobilização feita por índios e seringueiros liderada por Chico Mendes e Ailton Krenak em fins da década de 80 –, ela retoma a agenda que resultou na criação das reservas extrativistas e na correção das políticas do Banco Mundial para o financiamento de grandes projetos de impacto socioambiental, nas regiões de florestas tropicais em todo o mundo.
O realizador indígena Wewite conta que a Cooperativa Ayonpare, que vende via internet adornos e roupas pelo blog da Apiwtxa, mobiliários e peças de decoração criados pelos Ashaninkas, foi durante anos o único meio de sustento da comunidade. “Pode parecer estranho, mas o que nos sustentou durante alguns anos foi a venda on-line de peças que fabricamos na nossa aldeia”. Não é nenhuma surpresa e nem estranho, quando se sabe que o povo Ashaninka, orgulhoso de sua cultura, tem como forte característica a capacidade de conciliar sabiamente costumes e valores tradicionais com idéias e práticas do mundo dos brancos, na defesa de suas tradições.
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29/03/2010
Começa hoje nova consulta sobre Princípios e Critérios de REED+
Começa hoje e vai até quarta nova Consulta sobre Princípios e Critérios de REED+
Por Pedro Cesar Batista. Assessoria de Comunicação do GTA, 29/03/2010
Continuando às Consultas sobre Princípios e Critérios de REDD+ o GTA – Grupo de Trabalho Amazônico, o CNS – Conselho Nacional das Populações Extrativistas e a COIAB – Coordenação das Organizações Indígenas da Amazônia Brasileira realizarão nos próximos dias 29 a 31 de março, em Porto Velho (RO), a segunda Consulta sobre REDD+, reunindo lideranças dos movimentos sociais do Acre, Mato Grosso e Rondônia.
A primeira reunião, realizada em Manaus, contou com a participação de representantes dos estados do Amazonas e Roraima. Durante três dias as lideranças aprofundaram o debate sobre os Princípios e Critérios de REDD – Redução de Emissões por Desmatamento e Degradação. Ao final dos três seminários – o terceiro será em Belém (PA) – será elaborado um relatório final com as propostas colhidas durante as consultas.
Os mecanismos de redução de emissões por desmatamento e degradação (REDD) têm conquistado um espaço central na discussão internacional sobre mudanças climáticas. Estudos sugerem que a emissão de gases de efeito estufa a partir de desmatamento represente algo entre 10 e 20% do total das emissões antrópicas mundiais. Este papel central nas discussões sobre mudanças climáticas tem aberto diversas oportunidades para a realização de ações de combate ao desmatamento, tanto na esfera governamental (federal e estadual) quanto na escala de projetos demonstrativos.
Entretanto, os mecanismos de governança para que estas oportunidades sejam traduzidas em reduções efetivas de desmatamento, benefícios à conservação da biodiversidade, benefícios sociais e respeito aos direitos das populações tradicionais, ainda não estão estabelecidos. Isso implica em uma situação de risco em que, tanto os projetos de carbono, como os programas governamentais, podem gerar impactos indesejáveis às populações tradicionais e à biodiversidade, e/ou não resultarem em reduções efetivas das taxas de desmatamento.
As consultas terão como base para discussão os documentos elaborados no final de 2009, por um grupo multissetorial, integrado por representantes do movimento social, indígena, ambientalista e do setor privado, que apontou as diretrizes para iniciar a elaboração de Princípios e Critérios Socioambientais de REDD+. Através de um processo includente de consulta aberta a toda a sociedade brasileira, espera-se que esse documento reflita as preocupações de toda a sociedade civil em relação ao tema, criando as condições para que o REDD não resulte em impactos negativos socioambientais.
Os seminários se propõem a capacitar lideranças dos povos da floresta, incluindo índios, seringueiros, ribeirinhos e demais atores locais interessados em assuntos relacionados às mudanças climáticas e REDD, no intuito de colher sugestões e recomendações que serão considerados na versão final dos Princípios e Critérios Socioambientais de REDD+.
A atividade é uma iniciativa do GTA, CNS e COIAB, com o apoio técnico do IMAFLORA - Instituto de Manejo e Certificação Florestal e Agrícola e IPAM – Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia. A sua realização tem o apoio financeiro da Fundação Packard.
Serviço:
Seminário em Porto Velho (RO)
Dias 29 a 31 de março de 2010
CASA BETÂNIA
RUA BEIRA SUL, 7746 -
BAIRRO TRÊS MARIAS
PORTO VELHO - RO
RESPONSÁVEL NO LOCAL - CRISTIANE
69 – 9969 1889
Seminário em Belém – PA
Dias 13 a 15/4
Informações:
Luiz Menezes – (68) 9984 9103
Rubens Gomes – (92) 9122 4647
Edjales Benício (69) 8414 9994
http://www.reddsocioambiental.org.br/
Por Pedro Cesar Batista. Assessoria de Comunicação do GTA, 29/03/2010
Continuando às Consultas sobre Princípios e Critérios de REDD+ o GTA – Grupo de Trabalho Amazônico, o CNS – Conselho Nacional das Populações Extrativistas e a COIAB – Coordenação das Organizações Indígenas da Amazônia Brasileira realizarão nos próximos dias 29 a 31 de março, em Porto Velho (RO), a segunda Consulta sobre REDD+, reunindo lideranças dos movimentos sociais do Acre, Mato Grosso e Rondônia.
A primeira reunião, realizada em Manaus, contou com a participação de representantes dos estados do Amazonas e Roraima. Durante três dias as lideranças aprofundaram o debate sobre os Princípios e Critérios de REDD – Redução de Emissões por Desmatamento e Degradação. Ao final dos três seminários – o terceiro será em Belém (PA) – será elaborado um relatório final com as propostas colhidas durante as consultas.
Os mecanismos de redução de emissões por desmatamento e degradação (REDD) têm conquistado um espaço central na discussão internacional sobre mudanças climáticas. Estudos sugerem que a emissão de gases de efeito estufa a partir de desmatamento represente algo entre 10 e 20% do total das emissões antrópicas mundiais. Este papel central nas discussões sobre mudanças climáticas tem aberto diversas oportunidades para a realização de ações de combate ao desmatamento, tanto na esfera governamental (federal e estadual) quanto na escala de projetos demonstrativos.
Entretanto, os mecanismos de governança para que estas oportunidades sejam traduzidas em reduções efetivas de desmatamento, benefícios à conservação da biodiversidade, benefícios sociais e respeito aos direitos das populações tradicionais, ainda não estão estabelecidos. Isso implica em uma situação de risco em que, tanto os projetos de carbono, como os programas governamentais, podem gerar impactos indesejáveis às populações tradicionais e à biodiversidade, e/ou não resultarem em reduções efetivas das taxas de desmatamento.
As consultas terão como base para discussão os documentos elaborados no final de 2009, por um grupo multissetorial, integrado por representantes do movimento social, indígena, ambientalista e do setor privado, que apontou as diretrizes para iniciar a elaboração de Princípios e Critérios Socioambientais de REDD+. Através de um processo includente de consulta aberta a toda a sociedade brasileira, espera-se que esse documento reflita as preocupações de toda a sociedade civil em relação ao tema, criando as condições para que o REDD não resulte em impactos negativos socioambientais.
Os seminários se propõem a capacitar lideranças dos povos da floresta, incluindo índios, seringueiros, ribeirinhos e demais atores locais interessados em assuntos relacionados às mudanças climáticas e REDD, no intuito de colher sugestões e recomendações que serão considerados na versão final dos Princípios e Critérios Socioambientais de REDD+.
A atividade é uma iniciativa do GTA, CNS e COIAB, com o apoio técnico do IMAFLORA - Instituto de Manejo e Certificação Florestal e Agrícola e IPAM – Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia. A sua realização tem o apoio financeiro da Fundação Packard.
Serviço:
Seminário em Porto Velho (RO)
Dias 29 a 31 de março de 2010
CASA BETÂNIA
RUA BEIRA SUL, 7746 -
BAIRRO TRÊS MARIAS
PORTO VELHO - RO
RESPONSÁVEL NO LOCAL - CRISTIANE
69 – 9969 1889
Seminário em Belém – PA
Dias 13 a 15/4
Informações:
Luiz Menezes – (68) 9984 9103
Rubens Gomes – (92) 9122 4647
Edjales Benício (69) 8414 9994
http://www.reddsocioambiental.org.br/
25/03/2010
Povos indígenas protegem a floresta com ferramentas de alta tecnologia

por Jutta Schwengsbier e Kate Bowen, Replanting The Rainforests, 02/02/2010
O verde exuberante da floresta tropical oferece ricos recursos naturais onde os índios Ashaninka vivem por séculos. Na escola Saberes da Floresta Yorenka Ãtame, no Brasil, jovens indígenas e não-indígenas foram aprendendo a fazer uso deles de forma sustentável.
Desde 2007, a escola já ensinou mais de 2.000 participantes em cultivo de árvores de frutos, criação de abelhas, e a erguer represas em riachos e lagos para aumentar a desova de peixes.
"Isso é como nós, índios Ashaninka, aqui na região de fronteira entre Brasil e Peru, queremos passar o nosso conhecimento tradicional", disse Moisés Piyãko. Ele foi co-fundador da escola Yorenka Atame, junto com seu irmão de Benki, em 2007.
A exploração madeireira ilegal ameaça a biodiversidade
Problemas políticos entre o Brasil e o seu vizinho Peru tornam a vida complicada para os povos indígenas na região de fronteira.

"Estamos sofrendo o ataque de empresas madeireiras peruanas, e agora o governo peruano também pretende explorar petróleo ao longo da fronteira", disse Moisés Piyãko.
A exploração ilegal de madeira no Peru cada vez mais avança sobre a floresta tropical de ambos os lados da fronteira.
A terra e seus recursos pertencem aos Ashaninka, de acordo com a Convenção sobre Povos Indígenas e Tribais em Países Independentes, adotada pela Convenção 169 da Organização Internacional do Trabalho, OIT. Ela reconhece os direitos de propriedade dos povos sobre as terras que tradicionalmente ocupam. Mas o Peru vem tentando burlar o direito internacional por meio de concessões de mineração em áreas que são de propriedade dos povos indígenas.
"As empresas madeireiras peruanas, mesmo ilegalmente, atuam em território brasileiro", disse o porta-voz Benki Ashaninka Piyãko. "A exploração madeireira ilegal coloca toda a nossa região e a sua biodiversidade em risco."
A invasão da floresta Ashaninka por madeireiros ilegais começou em 2001 com a empresa Forestal Venao, que é propriedade da filha do ex-presidente peruano, Alberto Fujimori. Ele foi recentemente levado a julgamento por corrupção e já foi condenado a 25 anos de prisão por graves violações aos direitos humanos e por matar políticos da oposição.
Sua filha, Keiko Fujimori, anunciou sua candidatura à presidência, bem como seu objetivo ao chegar ao poder: conseguir oficialmente o perdão a seu pai. Sua campanha política é parcialmente financiada pelos lucros de sua empresa madeireira.
À procura de uma proibição
Para deter a devastação da floresta causada pela empresa Forestal Venao em Território brasileiro, Benki e Moisés Piyãko demandam uma proibição ao nível mundial sobre as importações de madeira cortada ilegalmente na floresta.

"Há apenas uns poucos espécimes de muitas das espécies de árvores, e nós estamos tentando recultivar estas plantas", disseram, acrescentando que há uma falta de entendimento para a importância da gestão de recursos de forma sustentável.
"Precisamos ter certeza de que nossos recursos naturais não serão destruídos na luta pela sobrevivência".
Em sua luta pela proteção ambiental, os Ashaninka combinam o conhecimento tradicional e a tecnologia moderna. Algumas comunidades remotas já possuem o suporte de sistemas de comunicação por satélite na floresta. Ao verificar as fotografias de satélite em um computador, as comunidades podem monitorar a exploração madeireira ilegal ou a construção de estradas ilegais na região.
"Nós instalamos esse sistema de monitoramento, e nós ensinamos a população local como operar a tecnologia GPS", disse Benki Piyãko.
Alta tecnologia para proteger a floresta
Além disso, Benki Piyãko e a Aldeia Apiwtxa criaram um blog e muitos vídeos sobre a vida na floresta. Lá, eles também postam fotos de satélite que documentam como a exploração madeireira ilegal está devastando grandes áreas. É seu objetivo ensinar as pessoas que a floresta e seus recursos podem ser utilizados sem destruir. E eles também querem a criação de uma rede global de apoio à proteção da sua região.

Modernas ferramentas também são utilizadas quando se trata de proteção ambiental. A organização indígena Apiwtxa vende certificados de CO2, e os Ashaninka também os oferecem a empresas que queiram apoiar a proteção da floresta. Várias bandas de rock internacional, já plantaram novas árvores na floresta para compensar o consumo de energia durante os shows.
Leia aqui a versão original em inglês!
24/03/2010
Pagamento por serviços ambientais é tema de oficina para indígenas
Iniciativa do Governo do Estado visa garantir participação da comunidade nesse amplo projeto ambientalpor Leandro Chaves, assessoria CPI/AC, Agência de Notícias do Acre, 24/03/2010
Teve início nesta quarta-feira, 24, no Centro de Formação dos Povos da Floresta (CFPF) da Comissão Pró-Índio do Acre (CPI/AC), a "Oficina de Consulta sobre o Projeto de Pagamento por Serviços Ambientais - Carbono". O evento acontece até sábado e é uma iniciativa do Governo do Estado, através da Secretaria Estadual de Meio Ambiente - responsável pela criação do projeto - que busca a elaboração do plano de forma participativa.
Estão presentes na oficina cerca de 30 indígenas das etnias Huni Kui (ou Kaxinawá), Apolima-Arara, Manchineri, Jaminawá, Yawanawá, Nukini, Ashaninka e Shawadawa (ou Arara).
O objetivo do evento é apresentar aos índios o projeto Pagamento por Serviços Ambientais (PSA), colher sugestões para melhorá-lo e compartilhar aprendizados sobre a temática abordada durante a oficina.
No primeiro dia, os participantes tiveram acesso à informações sobre mudanças climáticas, desmatamento e serviços ambientais. Depois, conhecerão mais sobre o projeto e a política estadual para a gestão de terras. Durante a oficina, os indígenas formarão grupos de trabalho para discutirem pagamento por serviços ambientais, apresentando, mais tarde, suas considerações para encaminhamentos e avaliações.
O Projeto Pagamento por Serviços Ambientais no Acre ainda está em fase de elaboração. Para isso, são realizadas consultas públicas, onde se ouve diferentes tipos de comunidades que vivem no território acreano para o aperfeiçoamento do projeto. O objetivo do PSA é reduzir o desmatamento, beneficiando as comunidades que preservam as florestas, como os índios, extrativistas e seringueiros.
19/03/2010
Turismo vivencial nas aldeias
Com incentivo do Governo, indígenas trabalham no resgate e valorização da cultura e o turismo sustentável como fonte alternativa de rendapor Tatiana Campos, com foto de Sérgio Vale/Secom, Agência de Notícias do Acre, 18/03/2010
Natureza, energia, cultura. A paz e o mistério dos sons da floresta. A troca entre os povos. A renovação de um banho de rio. O flagra de animais selvagens. É difícil dizer o que se pode esperar de uma visita a uma aldeia indígena. A garantia que o turista tem é de que ele terá uma experiência única. E para quem quiser se lançar numa aventura como esta, bem-vindo ao etnoturismo acreano.
Apesar de recente, o turismo indígena tem atraído adeptos do Acre, do Brasil e do mundo. E para 2010 o setor aposta numa intensa movimentação em torno das duas principais aldeias abertas para a atividade: a Nova Esperança, na Terra Indígena do Rio Gregório, dos Yawanawá, e a Apiwtxa, no rio Amônia, no município de Marechal Thaumaturgo, dos Ashaninkas. Os índios Kaxinawá do rio Jordão também estão de olho no segmento e abrem as portas para receber visitantes este ano, com uma programação cultural que promete atrair os turistas encantados pelos rituais xamânicos.
Se você se interessou é bastante provável que viva experiências inesquecíveis, pois a emoção dita os passos dos turistas. Mas não espere encontrar nas aldeias índios semi-arredios de flechas em punho ou com uma cultura original intacta. O contato com o branco, explica o secretário de Turismo, Esporte e Lazer, Cassiano Marques, aconteceu há várias décadas e hoje os índios não vivem isolados em suas aldeias: vêm à cidade, utilizam internet e vivem a consequência deste contato. Mas, no Acre, você pode experimentar "o caminho" de volta às origens. "Aqui os indígenas estão há algum tempo fazendo um resgate de suas histórias, culturas, costumes, e trabalham, com o apoio do Governo, para fortalecer estas raízes. Um exemplo é o Festival Yawa que acontece em outubro, nos Yawanawás, um momento em que eles vivem sua cultura de forma bastante intensa e param as atividades da aldeia para celebrar isso, resgatar os hábitos de antigamente".
Experiências únicas
Quem tem as portas abertas para os visitantes há mais de 15 anos são os Ashaninkas, embora só agora estejam estruturando o turismo na aldeia. O público é formado por pesquisadores, ambientalistas e outras pessoas que tenham ligação com a preservação da natureza e a cultura indígena. "Mas o povo Ashaninka não faz do turismo uma fonte de renda como principal motor econômico da aldeia. Também estamos abertos ao turismo tradicional, mas a princípio é necessário passar por uma avaliação de interesses antes de ser autorizado a entrar na Terra", explica Francisco Pianko, do povo Ashaninka, que também é Assessor de Povos Indígenas do Governo do Estado.
Pianko explica que só agora o enfoque sobre o tema tem caminhado para o setor do turismo. "Há uma preocupação na aldeia, e o Governo do Estado através da Setul, tem nos apoiado nisso, para a estruturação desta atividade nos padrões turísticos. Mais de 80% das pessoas que vão a Marechal Thaumaturgo são atraídas pelos Ashaninkas", disse Pianko.
E a experiência de visitar a Apiwtxa, garante o indígena, é de uma riqueza cultural imensa.
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18/03/2010
Ufac e índios de 11 etnias discutem curso de docência indígena no Vale do Juruá
Formação ajuda na valorização e resgate da cultura indígena nas aldeias da regiãopor Flaviano Schneider, Agência de Notícias do Acre, 17/03/2010
O Curso de Formação de Docentes Indígenas (CFDI) da Ufac e a Organização dos Professores Indígenas do Acre (Opiac) realizam durante esta semana o ‘II Seminário Encontro com os Conhecimentos', com a finalidade de promover o debate sobre o curso entre os próprios alunos e a comunidade.
Segundo Andréa Martini, coordenadora interina do CFDI, está em debate a estrutura do curso dentro do projeto político pedagógico. "É hora de trazer contribuições, revisar ementas, avaliar a capacidade das disciplinas em trabalhar com os conceitos indígenas e não-indígenas e também o momento em que várias pessoas de vários lugares e organizações são convidadas a contribuir com o curso, sejam indígenas ou não."
São 11 etnias participando do seminário: Ashaninka, Kaxinawa (Huni Kuin), Jaminawa, Yawanawa, Manchineri, Marubo, Nukini, Nawa, Puyanawa, Shawandawa e Katuquina. Todas apresentaram uma pequena mostra de sua cultura na abertura. O CFDI funciona com duas turmas, num total de 52 alunos, tem duração de quatro anos e a primeira turma se forma em 2012.
Com o curso, os professores indígenas obtêm a Licenciatura Intercultural. No quarto, quinto e sexto semestres, acontece a opção por uma das áreas de atuação: Ciências Sociais e Humanidades, Ciências da Natureza, Artes e Linguagem, ou seja, os participantes têm formação completa do ponto de vista pedagógico e no encerramento partem para uma área de atuação de acordo com o interesse de pesquisa ou como professores. Alguns já trabalham nas aldeias e os outros também querem trabalhar nas aldeias.
Troca de conhecimentos
Wewito Pinhanta é índio Ashaninka, reside na Terra Indígena do rio Amônia e é professor pertencente aos quadros da Opiac.
Participante do seminário, ele considera o curso de docência indígena importante "para entender um pouco do conhecimento que não é do nosso mundo". E para bem entender, ele acha preciso discutir o que é bom para cada índio. "Estamos adquirindo conhecimentos e levaremos para a comunidade o que ela necessita. Colocar este conhecimento em prática junto com a comunidade, dentro do nosso processo de desenvolvimento e preservar nosso conhecimento e também divulgar nossa cultura", argumenta.
Fernando Katuquina, liderança em sua aldeia situada na BR-364, é acadêmico do curso. Para ele, é muito significativo o fato de que os próprios alunos índios possam contribuir na construção do curso e acredita que a orientação toda deva ser no sentido de melhorar a vida das populações indígenas do vale do Juruá.
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10/03/2010
Campanha Nacional de Vacinação contra a Influenza A

Começou a Campanha Nacional de Vacinação contra a Influenza A. Nesta etapa, que vai de 8 a 19 de março, vão ser vacinados todos os indígenas aldeados. As secretarias estaduais e municipais de Saúde são as responsáveis por montar a estrutura de atendimento, planejar a abertura das Unidades Básicas de Saúde e oferecer a vacina.
O Ministério da Saúde junto com a Fundação Nacional da Saúde, usou o critério de vulnerabilidade e principalmente de risco para determinar os grupos sociais que seriam vacinados primeiro, são eles: Trabalhadores de serviços de saúde, População Indígena, Gestantes e População com morbidade. O público-alvo é estimado em 1.915.000 trabalhadores de serviços de saúde e 566.000 mil indígenas.
A meta é vacinar, pelo menos, 80% dessas pessoas. É importante que toda a população indígena se vacine, pois a vacina cria uma proteção coletiva e evita muitas vítimas como no ano passado. A imunização deve ser feita na própria aldeia da comunidade, e só é contra-indicada para quem tem alergia a ovo. É importante se vacinar, mesmo que não tenha ocorrido nenhum caso da doença.
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05/03/2010
A cultura dos índios na sala de aula
O "Vídeo nas Aldeias" distribuirá, gratuitamente, para escolas do Brasil o kit “Cineastas Indígenas”, com DVDs que mostram a realidade dos povos indígenas, contada pelos próprios índiospor Débora Spitzcovsky, Planeta Sustentável, 04/03/2010
Ao contrário do que muita gente pensa, os índios não são todos iguais. Entre os povos dessa etnia, há uma série de particularidades, que a coleção de DVDs “Cineastas Indígenas: um outro olhar” mostra de uma forma superdidática, para alunos do ensino médio. O material foi produzido pelo projeto Vídeo nas Aldeias, que, com o patrocínio do Programa Petrobras Cultural, montou um kit com cinco DVDs que mostram um pouco da história e cultura de cinco povos indígenas diferentes – Kuikuro, Panará, Huni Kui, Xavante e Ashaninka –, a partir da visão dos próprios índios que fazem parte dessas comunidades.
Três mil escolas do Brasil receberão gratuitamente o material. A ideia é que os professores do ensino médio possam trabalhar o tema em disciplinas como História, Geografia, Línguas e Cidadania. “Há um ciclo vicioso de falta de informação nas escolas, que faz com que os alunos se formem pensando que os índios são personagens do passado, que viviam em ocas na época de Pedro Álvares Cabral e estão desaparecendo.
Com o kit ‘Cineastas Indígenas’ queremos apresentar para os estudantes uma outra realidade, contada pelos próprios índios”, disse Vincent Carelli, fundador do Projeto Vídeo nas Aldeias.
O kit que será distribuído para as escolas conta, ainda, com o “Guia para professores e alunos”, que traz informações sobre cada um dos povos filmados, dicas de fontes que podem ser utilizadas em pesquisas complementares e, ainda, sugere uma série de temas para serem discutidos com os alunos em sala de aula. As escolas interessadas em receber o kit devem se cadastrar aqui.
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04/03/2010
Oficina Ashaninka de edição

por Vídeo nas Aldeias
De 06/01 até 04/02, aconteceu na aldeia Apiwtxa a edição do material filmado pelos alunos Ashaninka em outubro de 2009: um filme sobre a oficina de cerâmica patrocinada pelo PDPI e um filme sobre alguns personagens da aldeia nas suas atividades cotidianas e nos trabalhos comunitários.

Participaram da oficina Marinaldo Tsirotsi, Bebito Piyãko, Hadã Piyãko, Shãpi Kamintsi e Enisson que foi coordenada por Tiago Campos e Amandine Goisbault.

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Projeto: Kowitsi Cultura Tradicional Ashaninka
03/03/2010
Conselho Curador da EBC busca indicações para três novos conselheiros
Da Redação da TELA VIVA, 02/03/2010
O conselho curador da EBC (Empresa Brasil de Comunicação) convocou consulta pública para obter indicações de candidatos a membro do Conselho Curador da EBC. Venceram os mandatos de três dos representantes da sociedade civil: José Bonifácio de Oliveira Sobrinho (Boni), Rosa Lúcia Benedetti Magalhães e Isaac Pinhanta.
Os três novos titulares terão mandatos de quatro anos, renováveis por uma única vez. As inscrições das entidades e a indicação de candidatos serão realizadas em formulário disponível no site do Conselho Curador da EBC (www.ebc.com.br/conselho-curador), no prazo de até 40 dias contados da data de publicação do edital, dia 1º de março.
Não poderão se inscrever partidos políticos ou instituições religiosas ou voltadas para a disseminação de credos, cultos, práticas e visões devocionais ou confessionais. Cada entidade poderá indicar um nome para cada uma das vagas a serem preenchidas.
Uma lista com as indicações deve ser submetida ao plenário do Conselho Curador, que escolherá uma lista tríplice a ser submetida à designação do Presidente da República.
Veja o regulamento no site do conselho curador.
O conselho curador da EBC (Empresa Brasil de Comunicação) convocou consulta pública para obter indicações de candidatos a membro do Conselho Curador da EBC. Venceram os mandatos de três dos representantes da sociedade civil: José Bonifácio de Oliveira Sobrinho (Boni), Rosa Lúcia Benedetti Magalhães e Isaac Pinhanta.
Os três novos titulares terão mandatos de quatro anos, renováveis por uma única vez. As inscrições das entidades e a indicação de candidatos serão realizadas em formulário disponível no site do Conselho Curador da EBC (www.ebc.com.br/conselho-curador), no prazo de até 40 dias contados da data de publicação do edital, dia 1º de março.
Não poderão se inscrever partidos políticos ou instituições religiosas ou voltadas para a disseminação de credos, cultos, práticas e visões devocionais ou confessionais. Cada entidade poderá indicar um nome para cada uma das vagas a serem preenchidas.
Uma lista com as indicações deve ser submetida ao plenário do Conselho Curador, que escolherá uma lista tríplice a ser submetida à designação do Presidente da República.
Veja o regulamento no site do conselho curador.
23/02/2010
Peru vende Amazônia e ameaça comunidades indígenas da fronteira com o Brasil
Em nome do desenvolvimento, governo peruano cede terras para empresas estrangeiras explorarem recursos naturais, colocando em risco as populações tradicionais do Peru e do Acrepor Leandro Chaves, Comissão Pró-Índio do Acre, 23/02/2010
Em junho de 2009, no massacre de Bagua, no Peru, dezenas de indígenas foram mortos pela polícia e centenas ficaram feridos e detidos, fruto da repressão oficial, que impedia os protestos contra o decreto de implantação do Tratado de Livre Comércio com os EUA. O tratado visava o aumento do investimento de empresas em áreas ricas em recursos naturais. O descaso com o meio ambiente e seus habitantes e a criminalização do movimento indígena refletem a política neoliberal do Peru, que cede terras a empresas multinacionais para a exploração de petróleo, gás, minérios e madeira.
Hoje, 49 milhões de hectares de terras na Amazônia peruana (72% da região) estão entregues a empresas petroleiras – dentre elas à brasileira Petrobrás. São 65 lotes para exploração e produção de petróleo, muitos dos quais sobrepostos a terras indígenas e a unidades de conservação, segundo dados de 2008 da Plos One. A retirada ilegal de madeira e o tráfico de drogas se intensificam nas regiões fronteiriças do Peru, resultando em invasões de territórios protegidos no Acre, como aconteceu, anos atrás, na Terra Indígena Ashaninka do Rio Amônia e no Parque Nacional da Serra do Divisor.
Desde 2004, a Comissão Pró-Índio do Acre e a SOS Amazônia coordenam o Grupo de Trabalho para a Proteção Transfronteiriça da Serra do Divisor e Alto Juruá, grupo de instituições que debatem as questões da fronteira e os impactos sobre os povos da região. Em novembro de 2009, realizaram mais um encontro para discutir o tema, que reuniu organizações indígenas e do movimento social do Brasil, Peru e Bolívia.
Vítimas do ‘desenvolvimento’
Durante o evento, duas lideranças indígenas do Peru, da Comunidade Nativa Sawawo Hito 40, na fronteira com o Acre, relataram como a comunidade se aliou à empresa madeireira Forestal Venao, de Pucallpa, para tentar superar as dificuldades causadas pelo isolamento e o descaso do governo. Os irmãos Ashaninka, João e Luis Garcia Campos, contaram em entrevista que, em troca da retirada da madeira, a empresa prestaria serviços à comunidade, inclusive aqueles de responsabilidade do governo.
Mesmo certificado pela Smartwood-Rainforest Alliance com o selo FSC em 2007, a atividade madeireira, fundamentada em um plano de manejo elaborado pela empresa e aprovado pelo Instituto de Recursos Naturales (Inrena), resultou na abertura de uma estrada, em uma extensa rede de ramais, em grande devastação, na fuga das caças e na obstrução de cursos de água, deixando as famílias Ashaninka sem a sua principal fonte de sobrevivência: a floresta.
Este é um retrato do que acontece em regiões da Amazônia peruana. Assim como a Forestal Venao, outras empresas, dentre elas as estrangeiras, exploram recursos naturais do país e causam prejuízos ao patrimônio natural e cultural das comunidades e às suas formas de organização social e política. Em nome do desenvolvimento sustentável e do progresso, essas atividades são apoiadas por políticas favorecidas por vários órgãos do governo peruano. Nos debates oficiais, costuma-se analisar apenas o lado positivo desses processos para a economia. A mídia, por sua vez, continua a retratar os povos indígenas como atrasados ou como obstáculos ao desenvolvimento.
Integração Brasil-Peru
Nos últimos anos os governos do Brasil e do Peru têm construído processos de integração física e energética. Além da pavimentação da Rodovia Interoceânica, estão em fase de planejamento a construção de uma estrada e de uma ferrovia ligando o município de Cruzeiro do Sul a Pucalpa. Já a parceria energética visa promover a produção e exportação de energia hidrelétrica e a integração de empreendimentos de empresas estatais e privadas - brasileiras e peruanas - nas áreas de petróleo e gás.
Esses processos de integração têm sido discutidos há anos por organizações do movimento social e associações indígenas e extrativistas do Acre e Peru. Elas têm exigido que os dois governos cumpram as recomendações da Convenção 169 da Organização Internacional do Trabalho (OIT) e da Declaração das Nações Unidas sobre os Direitos dos Povos Indígenas. Essas recomendações garantem o direito das comunidades e organizações à realização de consultas, prévias, consentidas, informadas e de boa-fé, a respeito das políticas oficiais de desenvolvimento e de “integração regional” que venham a afetar seus territórios e modos de vida.
Têm também reivindicado que os governos de ambos os países implementem políticas fronteiriças comuns, voltadas à conservação do meio ambiente e da biodiversidade, à proteção de terras indígenas e unidades de conservação e à garantia de direitos dos povos indígenas, assegurando plena participação desses povos e dos demais moradores da região de fronteira na definição e execução dessas políticas.
ENTREVISTA
“O governo peruano tem contrato com empresas para a exploração de recursos naturais nas terras protegidas”, afirma liderança indígena Ashaninka do Peru
Leandro Chaves – Fale um pouco sobre a empresa Forestal Venao.
Luis Garcia e João Garcia – Forestal Venao é uma grande madeireira peruana. Foi ela que acabou com as madeiras da nossa aldeia. Hoje é uma empresa muito grande e só cresceu às nossas custas, porque quando a conhecemos, não tinha quase nada. Ela saiu da nossa comunidade e não nos deixou nada, nenhum recurso. Hoje ela trabalha com outras terras indígenas no Alto Juruá e está repetindo a mesma destruição que fez na nossa comunidade.
LC – O que aconteceu entre sua comunidade e a madeireira?
LG/JG – Nós estávamos abandonados pelo governo do Peru. Estávamos muito longe de qualquer tipo de comunicação com as instituições peruanas, inclusive as que representam os direitos das comunidades indígenas. Estávamos longe, também, das cidades e ficava difícil fazer compras. Tinha os problemas de saúde, adoecia uma pessoa e não tínhamos como sair. Sabe quanto custa um avião de Pucallpa para a nossa aldeia? 1.800 dólares para pegar um doente lá, trazer e mandar tratar na cidade. A única coisa que nos ajudaria a cobrir essa necessidade era a madeira. Esse foi o único meio que vimos para sair dessa situação. Por isso, fizemos o acordo com a empresa, em 2002. Entramos com a proposta do que a gente queria também. Faltou uma boa administração da parte deles com os mais de 4 milhões de dólares gerados dentro da nossa terra. Em 2007, começamos a perceber que isso não estava certo. Nossa madeira estava acabando e, por isso, terminamos o contrato. Agora, essa empresa não trabalha mais com a gente e nos deixou sem madeira e sem benefícios. Percebemos um pouco tarde que com a nossa madeira não poderíamos mexer. Estamos sofrendo bastante, mas tentando nos reerguer. Apanhamos, mas aprendemos.
LC – Que outros problemas vocês sofreram por causa das ações da empresa?
LG/JG – Sempre antes de a madeireira chegar à comunidade, ela ficava uns seis meses em Pucallpa fazendo manutenção das máquinas. Nesses meses não tínhamos muitos problemas. Mas quando as máquinas começavam a transitar pela terra, dia e noite, não encontrávamos nenhum tipo de caça. Elas corriam. Pesca nunca tivemos problemas.
LC – O que está sendo feito para reverter a situação do desmatamento na sua terra?
LG/JG – Começamos a fazer um plano de manejo e aprendemos a usar nossa madeira. Também estamos reflorestando. Após a saída da empresa, já plantamos mais de 85 mil árvores. Estamos sobrevivendo somente através do nosso recurso, pois continuamos abandonados pelo governo. Vamos buscar outras alternativas e maneiras de trabalhar, como o artesanato e o ecoturismo. Isso sim é uma fonte de renda que não causa problemas. Queremos também uma parceria com as comunidades do lado acreano, que possuem mais experiência, como é o caso da Apiwtxa, onde vivem muitos de nossos parentes.
LC – Vocês possuem alguma organização?
LG/JG – Sim, temos a UCIFP (Unión de Comunidades Indígenas Fronterizas del Perú), que abrange as comunidades Sawawo, Dorado, Santa Rosa, Nueva Shawaya e Vitória, das etnias Ashaninka, Jaminawá, Amauaca. Acontece que essa organização não funciona para a gente. Ela funciona só para as empresas. Na época da Forestal Venao, defendia mais o interesse da empresa do que o nosso. Não reclamo da organização, mas das pessoas que estão à frente dela e só vêem benefícios que não são o dos povos indígenas, que ficam no prejuízo. Quem sabe se trocasse de direção, as coisas não mudariam?
LC – Hoje vocês sofrem algum tipo de pressão por parte de outras empresas?
LG/JG – Sem dúvida. Nossa principal preocupação hoje é com essas companhias petroleiras que estão se aproximando da nossa comunidade. Tem uma que está com as suas bases instaladas a cerca de 80 km da nossa terra. O governo peruano tem contrato com essas empresas para explorar recursos nas terras protegidas, tudo isso sem consultar nós, que somos donos do lugar. Isso já está acontecendo, como na Forte Esperança, dos nossos parentes Ashaninka. Já não bastou a Forestal Venao e agora vêm essas petroleiras? Nossa terra vai se acabar! Sobrevivemos da mata, nossas crianças precisam dela, a nossa alimentação vem daí. Tem que haver um mínimo de respeito. A exploração já chegou à comunidade Paraíso. Eu vi muitas coisas por lá. Mexer com petróleo pode trazer consequências ruins para todo mundo. Se os canos vazarem, por exemplo, podem contaminar todos os rios, inclusive os do Acre, porque os rios correm no rumo do Brasil. Se sofremos com a retirada da madeira, pois agora é que vem o pior.
LC – A imprensa peruana tem dado alguma visibilidade à causa de vocês?
LG/JG – Estive um tempo em Lima e tentei informar sobre isso. Tive até a oportunidade de chegar à televisão para levar informações sobre esse problema. Os empresários, que tem dinheiro e controlam os meios de comunicação, cortaram tudo. Acabaram com a informação. Falaram: “Vocês vão acreditar nesse índio? Ele está sendo pago para fazer essa denúncia”.
LC – Qual sua opinião em relação ao mandato do atual presidente Alan Garcia?
LG/JG – Ele está deixando as comunidades indígenas da fronteira abandonadas e dando mais valor aos empresários, petroleiros e mineradores. Gente que já tem dinheiro o bastante. Está deixando de lado o nosso direito enquanto povos indígenas, que vivemos da floresta, e dando parte dela para pessoas que já têm como sobreviver. São empresas grandes. O governo está vendendo a Amazônia e nos tratando como animais. Tudo isso por causa de interesses econômicos. Nos sentimos vendidos, nossa opinião é essa. Gostaríamos de falar para todos o que está acontecendo para ver se gera alguma cobrança. O Peru precisa saber do sofrimento que estamos passando por culpa dele mesmo. Muita gente nem sabe que existimos, mas estamos aí. Agora, graças a Deus tivemos essa oportunidade de estar aqui com vocês, em Rio Branco, discutindo esses problemas e compartilhando ideias. Por que não agir como o governo brasileiro, que mostra preocupação com as suas florestas? É isso que queremos.
LC – E a partir daqui? O que esperar para o futuro?
LG/JG – Nós temos que pensar somente em ir em frente e buscar os nossos direitos. Em relação à madeira, nossa situação melhorou com a saída da empresa e o começo do reflorestamento. Agora é só ver como vamos trabalhar. Ainda queremos indenização da Forestal Venao. Aprendemos com o que aconteceu e estamos retomando. Vamos reclamar ao governo peruano, pois as coisas não estão claras e não foram cumpridas como estavam no contrato. Nossa comunidade ainda está abandonada pelas autoridades. Tem o IBC (Instituto Bien Común) lutando pelos direitos indígenas, mas no geral não há o mesmo tipo de organização que existe no Brasil. Só sei que várias pessoas querem viver às custas das comunidades indígenas e no final não nos deixam nada. É necessário mudar essas ideias para que possamos ter melhores expectativas para o futuro. Pobres nós não somos porque temos toda a natureza.
22/02/2010
Encontro entre professores discute língua e cultura indígena no Acre
Representantes das 14 etnias participam do evento
por Ernani Baracho, assessoria SEE, Agência Acre, 20/02/2010
Professores vão participar de capacitação em Plácido de Castro (Foto: Arquivo SEE)
O município de Plácido de Castro vai sediar a partir desta segunda-feira, 22, a 1º de abril a décima etapa do Curso de Formação Intercultural e Bilíngue de Professores Indígenas. A qualificação é promovida pela Secretaria de Estado de Educação (SEE), por meio da Coordenação de Educação Indígena. O evento reunirá 223 professores indígenas das 14 etnias do Acre.
O encontro abordará os seguintes temas: Cultura, Língua indígena, Sociedade, Meio Ambiente e Saúde. Considerando a diversidade sociocultural e linguística dos professores, eles serão distribuídos em grupos distintos, sendo acompanhados por especialistas com amplo domínio das temáticas, que constituem questões de relevância para a construção dos projetos futuros dessas comunidades.
Na qualificação, os docentes também terão a oportunidade de receber orientação técnica ministrada por profissionais da SEE sobre a Política Nacional de Educação Especial e de como identificar e trabalhar com crianças portadoras de necessidades especiais. A iniciativa visa sensibilizar os professores quanto sua atuação diante dos alunos portadores de alguma deficiência.
Outro ponto alto do encontro será a discussão mediada pelo professor indígena e mestrando da Universidade de Brasília (UnB) Joaquim Mana sobre o acordo ortográfico dos povos Huni Kui(Kaxinawa), que correspondem a 50% da população de índios no Estado. Devido estarem espalhados por terras indígenas e situações sociolinguísticas diferentes, os Huni Kui necessitam do acordo para elaboração de material didático.
"Esperamos, com essa formação, fazer uma reflexão sobre a escrita e as línguas, pois tudo isso se resume na valorização das culturas desses povos. Por conta de nosso atendimento e respeito com os povos indígenas, o Acre avançou muito em relação a outros Estados", comenta a coordenadora de educação indígena, Socorro Oliveira.
Durante a realização do curso, os professores terão acesso a atendimento médico e participarão de atividades lúdicas desenvolvidas pela coordenação do evento. Essas atividades contam com a parceria da Prefeitura de Plácido de Castro, Funasa, Secretaria de Saúde, Fundação Elias Mansour, Fundação Garibaldi Brasil e SETUR.
A décima etapa do Curso de Formação de Professores Indígenas vai ao encontro com do Plano de Metas "Todos pela Educação" e é parte integrante do Plano de Desenvolvimento da Educação (PDE). Os cursos resultam da conjunção de esforços técnicos e financeiros da União, Governo do Estado e municípios.
De acordo com o último censo escolar, o Acre possui mais de cinco mil estudantes indígenas matriculados em 163 escolas da rede estadual de ensino, que estão distribuídas pelas etnias Puyanawa, Nukini, Nawa, Shawãdawa, Jaminawa Arara, Apolima Arara, Manchineri, Shanenawa, Ashaninka, Madija, Katukina, Yawanawa, Shanenawa e Jaminawa.
Serviços:
Local: Plácido de Castro (Pousada da Floresta)
Abertura: 22 fevereiro (segunda-feira)
Hora: 8 horas
Coordenadora: Socorro Oliveira
Contato: (68) 9978-6030
por Ernani Baracho, assessoria SEE, Agência Acre, 20/02/2010
O município de Plácido de Castro vai sediar a partir desta segunda-feira, 22, a 1º de abril a décima etapa do Curso de Formação Intercultural e Bilíngue de Professores Indígenas. A qualificação é promovida pela Secretaria de Estado de Educação (SEE), por meio da Coordenação de Educação Indígena. O evento reunirá 223 professores indígenas das 14 etnias do Acre.
O encontro abordará os seguintes temas: Cultura, Língua indígena, Sociedade, Meio Ambiente e Saúde. Considerando a diversidade sociocultural e linguística dos professores, eles serão distribuídos em grupos distintos, sendo acompanhados por especialistas com amplo domínio das temáticas, que constituem questões de relevância para a construção dos projetos futuros dessas comunidades.
Na qualificação, os docentes também terão a oportunidade de receber orientação técnica ministrada por profissionais da SEE sobre a Política Nacional de Educação Especial e de como identificar e trabalhar com crianças portadoras de necessidades especiais. A iniciativa visa sensibilizar os professores quanto sua atuação diante dos alunos portadores de alguma deficiência.
Outro ponto alto do encontro será a discussão mediada pelo professor indígena e mestrando da Universidade de Brasília (UnB) Joaquim Mana sobre o acordo ortográfico dos povos Huni Kui(Kaxinawa), que correspondem a 50% da população de índios no Estado. Devido estarem espalhados por terras indígenas e situações sociolinguísticas diferentes, os Huni Kui necessitam do acordo para elaboração de material didático.
"Esperamos, com essa formação, fazer uma reflexão sobre a escrita e as línguas, pois tudo isso se resume na valorização das culturas desses povos. Por conta de nosso atendimento e respeito com os povos indígenas, o Acre avançou muito em relação a outros Estados", comenta a coordenadora de educação indígena, Socorro Oliveira.
Durante a realização do curso, os professores terão acesso a atendimento médico e participarão de atividades lúdicas desenvolvidas pela coordenação do evento. Essas atividades contam com a parceria da Prefeitura de Plácido de Castro, Funasa, Secretaria de Saúde, Fundação Elias Mansour, Fundação Garibaldi Brasil e SETUR.
A décima etapa do Curso de Formação de Professores Indígenas vai ao encontro com do Plano de Metas "Todos pela Educação" e é parte integrante do Plano de Desenvolvimento da Educação (PDE). Os cursos resultam da conjunção de esforços técnicos e financeiros da União, Governo do Estado e municípios.
De acordo com o último censo escolar, o Acre possui mais de cinco mil estudantes indígenas matriculados em 163 escolas da rede estadual de ensino, que estão distribuídas pelas etnias Puyanawa, Nukini, Nawa, Shawãdawa, Jaminawa Arara, Apolima Arara, Manchineri, Shanenawa, Ashaninka, Madija, Katukina, Yawanawa, Shanenawa e Jaminawa.
Serviços:
Local: Plácido de Castro (Pousada da Floresta)
Abertura: 22 fevereiro (segunda-feira)
Hora: 8 horas
Coordenadora: Socorro Oliveira
Contato: (68) 9978-6030
18/01/2010
Mudanças Climáticas, Florestas Tropicais e Povos Indígenas
RCA promove encontro sobre mudanças climáticas e povos indígenas
De 23 a 25 de novembro de 2009, a RCA-Brasil promoveu, em Brasília, um Encontro Temático intitulado “Mudanças climáticas, florestas tropicais e povos indígenas”. O tema deste foi encontro foi decidido na Assembléia Anual da RCA, quando todas as organizações integrantes avaliaram que o tema tinha interesse, não só porque passava a ocupar cada vez mais o noticiário nacional e internacional, mas também porque percebiam que, de diferentes formas, esse tema dizia respeito a todos. A ele se vinculavam outras questões como o desmatamento da floresta, a manutenção da biodiversidade e a garantia dos modos de vida dos povos indígenas.
10 organizações indígenas e indigenistas visitam o povo Ashaninka

No último dia 24 de outubro, encerrou-se no Acre, o intercâmbio coletivo da RCA-Brasil de 2009, com o tema “Formação para a Gestão Territorial e Ambiental das Terras Indígenas”. Organizado pela Comissão Pró-Índio do Acre, o intercâmbio contou com a presença de mais de 40 participantes, representantes das 10 organizações indígenas e indigenistas que integram a RCA-Brasil.
O intercâmbio teve início no dia 14 de outubro com a chegada e recepção dos participantes ao Centro de Formação dos Povos da Floresta, da CPI-AC, em Rio Branco-AC, quando puderam conhecer a experiência de formação dos agentes agroflorestais indígenas do Acre, iniciada em 1996 e que já formou mais de uma centena de agentes indígenas que atuam em mais de 20 terras indígenas do Acre. De Rio Branco, o grupo partiu para Marechal Thaumaturgo, para conhecer a experiência do Centro de Formação Yorenka Ãtame e a aldeia Apiwtxa, do povo Ashaninka.
Lá, o grupo tomou contato com a história da Terra Indígena Apiwtxa, criada em 1995. Tratava-se de uma área que se resumia a um conjunto de pastagens degradadas que tiveram de ser recuperadas pelos próprios Ashaninka para que a população voltasse a viver em um ambiente de abundância florestal. O sistema agrícola, além da roça, foi enriquecido por quintais com sistemas agroflorestais de espécies de uso comum como algodão, urucum, paxiúba, mulateiro e espécies frutíferas. Incluem-se aí a criação de quelônios, peixes e mel de abelhas nativas. A merenda escolar dos Ashaninka, hoje, vem diretamente das áreas de sistemas agroflorestais (SAFs) e das roças da aldeia. No Centro Yorenka Ãtame o grupo pode conhecer o trabalho de apoio à produção de SAFs, recuperação de áreas, produção de mudas nativas - que atende índios e não indíos da região incluindo jovens da Reserva Extrativista do Alto Juruá e os Kashinawá entre outros, todos moradores do Rio Amônia e do município de Marechal Thaumaturgo.
Saiba mais aqui!
13/01/2010
Glenn Switkes (1951-2009)

"A International Rivers está de luto pelo falecimento do diretor de seu programa para a Amazônia Glenn Switkes, um amigo querido, colega respeitado, e batalhador de inesgotável paixão pelos rios."
Glenn dedicou a maior parte dos últimos vinte anos de sua vida à causa da proteção dos rios da América do Sul, em especial os da Amazônia, contra a construção de barragens e canais de navegação.
Glenn realizou o premiado documentário "Amazônia: Vozes da Floresta" e foi um dos fundadores da Coalizão Rios Vivos, para salvar o sistema fluvial Paraguai-Paraná, e sobretudo o Pantanal, a maior área alagadiça tropical do mundo.
Nos últimos anos, a atenção de Glenn estava voltada para dois dos principais rios da Amazônia, o Madeira e o Xingu. Glenn coordenou a produção de dois livros que denunciam os altos custos sociais e ambientais decorrentes das barragens no Madeira e no Xingu, e os argumentos distorcidos usados para justificar sua construção.
Saiba mais aqui.
Conheça o blog de Glenn Switkes, com o qual mantinha a todos informados sobre os rios da Amazônia.
Para informação sobre hidrelétricas e energia no Brasil, consulte a International Rivers em português.
04/01/2010
Komãyare Ashaninka fala sobre o artesanato Ashaninka

Por Fibras e mais fibras, 02/01/2010
O artesanato do povo Ashaninka é um dos mais conhecidos no Acre, pela qualidade e variedade.
O pesquisador Komãyari Ashaninka dá diversas informações sobre as peculiaridades da arte de seu povo.
Ele conta - em material preparado pelo coordenador Amilton - que as esteiras são feitas de talas e olho de palmeiras como o buriti, patoá, cocão, ouricuri e Jaci.
Geralmente quem faz as esteiras são as mulheres; na tradição cultural os homens não podem fazer.
Já as tipoias ou tangas são de algodão e tecido em linha e feitas manualmente pelas mulheres ashaninka. Os homens não fazem nem usam. Só as mulheres usam como enfeite e também para carregar o bebê. As bolsas são feitas de algodão, manualmente.
A mulher é quem faz, o homem só ajuda a fazer os enfeites. A bolsa só é usada pelos homens. A mulher Ashaninka faz bolsa para seu pai, seu marido ou seu filho.
Quando a moça é solteira também pode fazer bolsa para vender. A flauta é feita de taboquinha, que tem resistência e toca por muito tempo, segundo Komãyari.
Uma das peças mais valorizadas da cultura Ashaninka é o txooshiki, um colar grande feito de sementes da mata que é usado no corpo, cruzado.
É um adorno masculino, feito pelos homens. As mulheres podem ajudar o marido, mas não podem usar.
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