28/10/2007

Nosso mundo é complexo e funciona bem

Mundo ashaninka funciona sem burocracia

por Elson Martins*

O site da Biblioteca da Floresta Marina Silva continua em construção. Por isso não foram disponibilizadas na internet, ainda, as falas dos chefes Ashaninka do rio Amônia - Shãsha (Francisco) e Txeni (Moisés) - gravadas dia 18 como parte dos "diálogos da Florestania". Antecipo, entretanto, anotações que consegui fazer na ocasião. Vale a pena refletir sobre o que eles dizem:

foto Almanacre
Francisco (Shãsha) e Moisés (Txeni): “Nosso mundo é complexo e funciona bem”







FRANCISCO (Shãsha) ASHANINKA:

- Os povos indígenas se organizam com um projeto de vida bem complexo. Pará nós, o defeito quando acontece não está na pessoa, mas no nosso jeito de orientar. A responsabilidade é de todos. Na aldeia você é membro de uma grande família. Eu não posso ter o respeito só com meu pai, meu avô. Tenho que chamar a todos de pai, mãe, avô, irmão. Falo que tenho 50 pais, 50 mães, 200 irmãos. Essa é uma segurança que a gente tem. Não se chama ninguém pelo nome. Chama de pai, irmão, avô...

- O particular está no contexto social do grupo: é praticando que se mostra o que faz. Uma criança cresce aprendendo a fazer tudo. Isso é básico, para ele aprender a viver na sociedade. Quando dois jovens se casam, eles vão construir isso, para serem contados como parte da aldeia.

- Entre nós existe uma organização profunda, o nosso mundo funciona bem. Não tem burocracia. Sai tudo de dentro da pessoa, nada vem de fora.

- Quando separaram nossa floresta em Brasil e Peru, na passado, sentimos que estávamos morando na terra dos outros. Os não índios impuseram regras. Então, um outro tempo de nossa vida foi garantir nosso território. Foi difícil, a maioria de nós desconfiava: será que querem acabar com a gente? Mas começamos a nos sentir seguros com o movimento dos seringueiros e de outros grupos indígenas.

- Esses processos não mudaram nosso jeito de pensar. Mas fomos forçados a colocar em questão o diálogo com outros grupos. Estamos vivendo hoje um momento que nos deixa muito felizes.

- Nós entendemos o canto dos pássaros e outros sons da floresta, e ficamos tão íntimos dela que passamos a entender tudo. Quando um não índio chega a nossa aldeia, a partir do jeito como ele olha a gente, já entendemos como nos vê. Nem precisa falar. Às vezes as pessoas falam coisas bonitas mas não passam segurança. Elas precisam começar a "ver" de verdade.

- O problema dos Ashaninka é um problema do planeta. Queremos dialogar com o mundo inteiro. Não queremos ser do jeito de vocês, nem que vocês sejam como nós. Mas estamos no mesmo barco.

MOISÉS (Txeni) ASHANINKA:

-Tradição é uma palavra muito forte. É como uma árvore que está em pé, fincada na terra, mostrando sua beleza e dando frutos. A mesma coisa é a idade. Uma geração trabalha para as novas gerações.

- Muitos não índios fazem perguntas sem sentido para as quais não temos resposta. É como colocar um barco onde não tem rio. É preciso dar significação às perguntas. Eles costumam tratar a gente como pessoas que não sabem nada. Eu não vou perguntar algo assim a vocês. É preciso haver respeito entre os povos. Sem respeito não existe diálogo.

- Semente, árvore, folha, flor... nosso povo conhece isso e também o espírito das árvores. É dessa forma que sabemos respeitar a floresta. Para nosso povo todo mundo é doutor e todo mundo é mestre. Porque você sozinho não sabe de nada. Mas, juntos sabemos tudo.

- Esse diálogo (entre saberes) é uma coisa muito bonita. É uma coisa que, mais para frente, vai permitir aos não índios entenderem que no nosso mundo tem tudo que precisamos, como no mundo de vocês.

*Elson Martins, Almanacre, Página 20, Rio Branco, 28/10/2007


27/10/2007

O Artesanato Ashaninka e a Cooperativa Ayonpare da Comunidade Apiwtxa


por Alexandrina Piyãko*

Com uma população total de mais de 60.000 indivíduos, nós, Ashaninka, somos um dos principais povos indígenas da Bacia Amazônica.

foto apiwtxa/ayonpare

















Ocupamos um território que se estende dos Andes Centrais, no Peru, à Bacia do Alto Juruá, no Brasil. Devido ao contato com o mundo dos Wirakotxa (homem brancos), algumas famílias Ashaninka migraram para o leste no final do século XIX e se instalaram, progressivamente, na região do Alto Juruá, em terras que se tornaram brasileiras no início do século XX.

A definição das fronteiras dos Estados brasileiro e peruano separou de modo desigual os membros de nosso povo Ashaninka em dois países. A maioria da população vive em Território peruano. No Brasil, o povo Ashaninka conta com cerca de 900 pessoas que habitam cinco terras indígenas, todas situadas no Estado do Acre.

foto apiwtxa/ayonpare

















Nossa Terra Indígena Kampa do Rio Amônia se localiza na faixa de fronteira. No município de Marechal Thaumaturgo, ela faz limite com o Peru, com a Reserva Extrativista do Alto Juruá, com um assentamento do Incra e com o Parque Nacional da Serra do Divisor. Sendo a principal Terra Ashaninka no Brasil, nela se encontram reunidas cerca de 400 pessoas.

Permanentemente somos ameaçados pela exploração ilegal de madeireiros peruanos em nossa terra. Mas, mesmo com a presença ilegal das madeireiras peruanas em nosso território, não enfraquecemos, pois, sempre procuramos nos fortalecer, cada vez mais, na organização comunitária e na defesa sistemática do território e do meio ambiente. E, uma manifestação disso, é a produção do nosso artesanato.

foto apiwtxa/ayonpare













O artesanato Ashaninka é um artesanato milenar. Não é um simples artesanato como muitos outros que encontramos nas grandes cidades. O artesanato Ashaninka nos acompanha desde nossa história de origem, e cada um dos nossos desenhos tem seus significados e contos.

Nós, Ashaninka, temos nosso próprio comércio dentro da Aldeia que é o que chamamos de Ayonpare, troca de peças artesanais entre os Ashaninka ou com outros povos indígenas. Essa troca existe há muito tempo.

foto apiwtxa/ayonpare













Desde a criação da Cooperativa Ayonpare, nós, Ashaninka, passamos a vender nossos produtos na Aldeia também. Em 1993, criamos a Associação Ashaninka do Rio Amônia e, em 2003, a Ayonpare foi legaliza juridicamente, com o apoio do Governo do Estado, através do Sebrae.

Hoje, trabalhamos com duas lojas, uma na Aldeia e, outra, em Cruzeiro do Sul. A loja da Aldeia Apiwtxa foi construída em 2005, com apoio do Governo do Estado do Acre através de um convênio com a Associação Apiwtxa. Por ser dentro da Aldeia, há uma boa venda para visitantes brasileiros e não brasileiros. As pessoas do Município de Marechal Thaumaturgo também compram nossos produtos.

foto apiwtxa/ayonpare













Na Aldeia, você pode encontrar grande variedade de produtos criados pelas pessoas da Comunidade, como: tambor, flauta, pente, cocar, colares, malas, cestos, arco e flecha, cachimbo, urucum para pintura corporal, tecidos em algodão produzidos por nós mulheres como tipóia, bolsas, capuz, cushma (vestimenta tradicional Ashaninka, feita de algodão por nós mulheres da Aldeia), entre outros produtos.

Com a criação do Centro de Formação Yorenka-Ãtame, recentemente inaugurado por nós, Ashaninka do Rio Amônia, em frente ao Município de Marechal Thaumaturgo, houve a necessidade de criar uma loja e um escritório também em Cruzeiro do Sul. A loja fica em um Shopping Center, no centro da cidade.

foto apiwtxa/ayonpare













Em nossa loja de Cruzeiro do Sul, você pode encontrar bolsas, tipóias, capuz e cushmas (vestimenta masculina e feminina), cocar, malas, tambores, cachimbos, pulseiras, txoshiki (enfeite masculino em semente, feito por homens e mulheres da Aldeia), pulseira, colares, arco e flecha, estojo de urucum em bambu (para pinturas corporal), pentes, flautas em bambu, cestos, cadeiras em cipó, mesas de madeira entalhadas, cds e dvds produzidos pelos videastas Ashaninka. Esses são alguns de nossos artigos, vendidos aqui na loja, inaugurada em abril de 2007. Com a criação dessa loja, as vendas melhoraram bastante. Além das pessoas de fora, que visitam a cidade, muitas pessoas de Cruzeiro do Sul procuram nossos produtos e isso é muito bom.

A Cooperativa Ayonpare vem representando os interesses da Comunidade no que diz respeito à comercialização da produção de artesanato. Desde 1990, o artesanato é responsável pela manutenção do dia-a-dia da Aldeia Apiwtxa do Rio Amônia, onde vivemos da caça, da pesca e da produção alimentícia na própria Aldeia. Desde então, a produção e a comercialização externa de artesanato têm assegurado os trabalhos comunitários desenvolvidos pela Comunidade Apiwtxa, sendo a principal fonte de renda da nossa Comunidade.

foto apiwtxa/ayonpare

















Além de termos essas duas lojas, também trabalhamos com encomendas de outras lojas de outros Estados, como a Amoakonoya, de propriedade do Walter, e a Arte Indígena da Amazônia, de propriedade da Noriko e Junko, as duas em São Paulo, e o Museu do Folclore, no Rio de Janeiro. Paralelo a essas vendas, temos muitas encomendas pessoais, e ainda vendemos durante a participação em eventos nacionais e internacionais, como em 2005, quando estivemos na França e na Alemanha e nossos produtos foram muito bem aceitos.

Para quem quiser fazer encomendas, basta entrar em contato com a Cooperativa Ayonpare pelo endereço: shaatsy@yahoo.com.br

Para ver fotos dos nossos artesanatos, clique aqui.
Artesanato Ashaninka

*Alexandrina Piyãko, é diretora da Ayonpare Cooperativa Ashaninka

25/10/2007

Os Ashaninka, o Imaflora e a Smartwood vão à fronteira identificar a presença ilegal da madeireira peruana Forestal Venao no Território brasileiro

foto Ibama/AC

















Índios Ashaninka e organização internacional fiscalizam fronteira entre Brasil e Peru "Mais de 200 quilômetros de área entre os dois países serão percorridos para identificar a presença ilegal de madeireira peruana..." por Sandra Assunção, Rádio Aldeia – Cruzeiro do Sul, Hoje, 25 de outubro de 2007.
Leia a matéria aqui.
Ouça a matéria aqui.



16/10/2007

Mapa com coordenadas de desmatamentos













Amigos,

Localizamos no mapa algumas coordenadas dos desmatamentos dos peruanos em Território brasileiro, dentro da nossa Terra Indígena Kampa do Rio Amônia.

Observem que, dos pontos que levantamos em nossa última viagem, há um ponto com madeira marcada para corte dentro do Brasil.

E há, dentro do Peru, muito próximo da fronteira com o Brasil e do ponto onde as árvores estão marcadas para corte, o ponto da "picada" para a retirada de madeira.

Agradecemos aos amigos da Comissão Pró-Índio do Acre por ter nos ajudado a localizar as coordenadas no mapa.

Para ver o mapa ampliado, clique aqui.


Ministro da defesa visita obras do Pelotão de Fronteira em Marechal Thaumaturgo

foto AgNA
Por Sandra Assunção*

O ministro da defesa Nelson Jobim chegou a Cruzeiro do Sul nesta segunda-feira à uma hora da tarde. Vestido com trajes militares e acompanhado de comandantes militares da Amazônia e do governador do Amazonas, Eduardo Braga, o ministro Jobim foi recepcionado pelo vice-governador César Messias e pelo comandante do 61° BIS, Tenente Coronel Eduardo Janssem. Do aeroporto a comitiva seguiu para almoço no clube do BIS e depois foi de helicóptero para Marechal Taumaturgo, no alto Rio Juruá, onde está sendo construído um pelotão de fronteira provisório. A unidade definitiva será erguida em 2010. Por enquanto os homens do BIS ficam em uma balsa em regime de revezamento.

Com a construção do Pelotão de Fronteira definitivo, onde ficarão instalados soldados e oficiais, será solucionado um grande problema ambiental e diplomático. Atualmente madeireiros peruanos invadem a fronteira e retiram madeira nobre de forma ilegal [do Brasil] e vendem o produto no mercado internacional. Um dos objetivos do Pelotão de Fronteira é desarticular as quadrilhas que saqueiam a floresta brasileira.

À noite o ministro Jobim participou de um jantar com autoridades civis e militares e na manhã de terça-feira segue para Rio Branco onde visita as unidades do 4° BIS, e do 7° BEC. O ministro Jobim, que parte da viagem teve a companhia da ministra da Casa Civil, Dilma Roussef, visita todas as unidades do exército na Amazônia.

*Sandra Assunção, 15-10-2007 - 18h05
Agência de Notícias do Acre



14/10/2007

As coordenadas dos desmatamentos

Amigos,

Saímos da nossa aldeia dia 3 e retornamos dia 6 de outubro de 2007, com uma equipe de 17 pessoas para novamente fazer a fiscalização de nosso território.

Nessa ida, encontramos vários caminhos de caçadas feitos por pessoas da Comunidade Sawawo (Peru) e uma picada de 2 metros de largura feitas pela empresa peruana Forestal Venao para explorar madeira ilegalmente.

Essa picada que fica no Rio Arara já tem aproximadamente um ano, mas encontramos caminhos mais recentes onde estão marcando árvores de mogno.

Nessa ida, eu peguei algumas coordenadas de GPS e pedi que fossem verificadas, para ter idéia de onde estão esses pontos na nossa terra.

Saímos da Comunidade Apiwtxa subindo o Rio Amônia e entramos na mata sobre a coordenada:

- capoeira do Samuel “S 09º 22.691, W 072º 58.637”
- caminho de caçada da Comunidade Sawawo “S 09º 23.900, W 072º 56.570”
- primeira travessia, primeiro igarapé “S 09º 24.255, W 072º 55.985”
- nosso acampamento de dormida “S 09º 24.859, W 072º 55.132”
- primeiro caminho onde eles marcaram a madeira para corte “S 09º 24.985, W 072º 54.305”
- picada feita para entrada das máquinas “S 09º 25.654, W 72º 53.496” [Peru]

Essas coordenadas estão sendo processadas, analisadas e colocadas em mapa. Mas nós sabemos que estão dentro ou muito próximas da Terra Indígena Kampa do Rio Amônia, Brasil, Território brasileiro, para quem quiser ver, para quem tiver boa vontade e quiser ver com os próprios olhos o que não dá para esconder, tamanho o estrago já feito.

Nós precisávamos fazer mais esta viagem, para ver novamente o que os peruanos estão fazendo na nossa terra, porque precisávamos responder ao relatório da auditoria da SmartWood Rainforest Alliance que, para se proteger por ter concedido o padrão de certificação FSC à empresa madeireira peruana Forestal Venao, tem noticiado (aqui) que sua auditoria não encontrou nada de irregular nos desmatamento ilegais e criminosos que a Forestal Venao pratica com o apoio e a certificação da SmartWood Rainforest Alliance em nossa terra e no Território brasileiro.

Mas nós, povo Ashaninka do rio Amônia, não vamos nos cansar de denunciar e lutar por nossos direitos, o direito do nosso povo de viver na floresta e o direito da floresta ser mantida de pé.

Desde o ano de 1999 a gente vem fazendo as denúncias, e desde que as Instituições brasileiras assumiram a fiscalização na fronteira, desmontaram vários acampamentos de madeireiros peruanos na nossa área, e registraram em relatórios as coordenadas em GPS dos acampamentos peruanos desmontados e as áreas de floresta desmatada. E estes dados estão à disposição no IBAMA, para quem quiser investigar.

Mas a SmartWood Rainforest Alliance saber disso de nada adianta, eles mantém a certificação e a Forestal Venao está rindo muito agora. Conseguiu convencer alguns índios peruanos, o Inrena e a própria SmartWood que derrubar a floresta e invadir o Território brasileiro é um grande negócio, que eles chamam de “manejo florestal sustentável”, mas não passa de uma grande fraude da Forestal Venao certificada pela SmartWood Rainforest Alliance que está acabando com a nossa floresta.

Isaac Piyãko, Líder ashaninka da aldeia Apiwtxa do rio Amônia.

08/10/2007

O paco-paco do Beré

por José Carlos dos Reis Meirelles*

Para quem não sabe, paco-paco é uma árvore que cresce na beira de todos os rios do Acre, também conhecido como algodoeiro. É madeira mole, levíssima e que tem muitas serventias. Cortado em pedaços pequenos, dá excelente bóia de malhadeira, cortado em toras, é madeira usada para fazer balsas quando não existe canoa para travessia de um rio ou igarapé de repiquete. As crianças, índias e brancas, fazem pequenas canoas e ubás de seu âmago mole e bom de trabalhar. Suas folhas servem pra cobrir a carga em viagens no verão, quando a chuva inesperada chega. Sabendo usar e fazer, sua casca dá boa corda.

E assim o paco-paco vai paco-pacando sua vidinha leve e tranqüila, com as raízes fincadas nos barrancos dos rios, satisfeito com suas utilidades. O Beré, mateiro da Frente Envira, sabedor de todas elas, recentemente descobriu outra, inédita.

Pois bom, Beré estava voltando para casa com o Chicão, de uma caçada num sábado, de canoa. Nestas horas o mateiro cansado de andar e carregar a caça nas costas, vem com aquele olhar perdido no horizonte. De um olho só. O outro vem conferindo o barranco. Um olho na banana e outro na irara! Por lá tem índio isolado, flechadas. Mas ninguém consegue ver através da vegetação da beira do barranco. São inúmeras espécies de plantas barranqueiras disputando a luz do sol, criando um muro verde na beira. O paco-paco do Beré, também está nesta disputa, jovem ainda, um palmo de roda, planejando crescer, florar e despejar suas flores no rio para encher o bucho das pirapitingas.

De repente um tiro! A água, bem do lado do Beré é espalhada pelo chumbo, que passou muito próximo de suas costas. O Chicão acelera o motor e chega logo em casa. Passado o susto, no outro dia, de manhã, o pessoal foi verificar o local do ocorrido. Ainda estavam lá alguns “índios isolados” que correram e deixaram uma flecha com as penas amarradas com linha de nylon 020 multicolor, que só tem pra vender no Peru, ou na Feira do Paraguai, em Brasília.

Foi aí que viram o paco-paco com a banda toda lascada por um tiro. O atirador deve ter acompanhado o movimento da canoa com a espingarda e na hora exata em que apertou o gatilho, o paco-paco do Beré estava ali, entre a linha de tiro e suas costas. Desviou a camaçada de chumbo o suficiente para que o tiro desse na água.

O Beré escapuliu, como se diz por aqui. Os madeireiros peruanos estão mandando “índios isolados” atirarem na gente. Não sei como o governo brasileiro pode negociar com o do Peru, para acabar com esta exploração irracional de mogno nas fronteiras dos dois países, protegendo seus parques, terras indígenas e “nóis que véve nas fronteiras”. Digo dos dois países porque os patrícios peruanos, vez por outra, invadem nosso território para roubar mogno.

O que sei, e principalmente o Beré sabe, é que até agora podemos contar mesmo é com a proteção do santo paco-paco.

*José Carlos dos Reis Meirelles, sertanista, é chefe da Frente de Proteção Etno-Ambiental do Rio Envira, na fronteira do Brasil com o Peru.
Direto do Blog do Altino

01/10/2007

A história do Yorenka Ãtame

por Benki Piyãko*

Através da Associação Apiwtxa viemos informar os parceiros e amigos da Rede a proposta criada por nós, líderes do povo Ashaninka, como vemos o mundo através de nossas experiências e, no mesmo instante, colocando nosso propósito de trabalho para complementar e difundir nossas experiências com outras regiões do planeta.

A grande degradação da biodiversidade responsável pelas mudança climática que vem ocorrendo na Terra nos causa preocupação.

Somos responsáveis pela minimização desses problemas que vem ocorrendo na Terra e nós indígenas estamos dando a nossa contribuição em meio a essa situação.

A longa história, sobre a preservação da natureza, contada pelos mais velhos sobre as invasões ocorridas em nossa terra, causava grande impacto pra nossa comunidade Ashaninka, da Terra Indígena Kampa do Rio Amônia.

Nossa terra fica situada na faixa de fronteira Brasil/Peru, sendo a principal terra Ashaninka no Brasil, reunindo 500 pessoas residindo na Aldeia Apiwtxa, fazendo limite com: o Peru, com a Reserva Extrativista (RESEX) do Alto Juruá, um assentamento do INCRA e o Parque Nacional da Serra do Divisor (PNSD).

Essa história fez com que as lideranças representativas dessa comunidade: Benki, Moisés, Isaac, Francisco e outras lideranças mais velhas, entre homens e mulheres da comunidade, se articulassem a um modelo de manejo para a reconstrução da natureza que foi e continua sendo devastada em nossa região e do entorno, criando assim um modelo de sustentabilidade social e ambiental.

Apesar do longo contato com a sociedade ocidental, o nosso povo preservou até os dias de hoje seus conhecimentos tradicionais, contados pelos mais velhos. Esses conhecimentos apresentam uma cultura milenar, sábia e rica que é repassada de geração a geração. Ao longo dos últimos quinze anos, nosso povo se tornou um exemplo de sustentabilidade social e ambiental para a região amazônica. As ações desenvolvidas por nós também serviram de fonte de inspiração para o governo do estado do Acre que, desde 1998, se denomina de “Governo da Floresta” e fez do desenvolvimento sustentável seu modelo estratégico de trabalho com a população indígena e não-indígena do Estado do Acre.

O nosso território, assim como toda região, passou e continua passando por grandes invasões predatórias, ocasionadas por madeireiros peruanos e caçadores de animais silvestres, que vêm de diversos lugares do entorno.

Diante desse constante fato, o nosso povo se organizou internamente para defesa do nosso território, no sentido de fortalecer a identidade cultural e étnica do nosso povo, com objetivo de mostrar uma nova forma de equilíbrio sustentável em relação aos nossos recursos naturais, ampliando tais conhecimentos para outras etnias e servindo de modelo a nível nacional e internacional.

Desde 1989, nós, Asheninka, criamos o primeiro Sistema de Recuperação de nosso território, utilizando as práticas de manejo sustentável.

Em 1992, ano da demarcação de nossa terra, criamos um projeto de pesquisa onde analisamos a riqueza de nosso território com o objetivo de criar alternativas de sustentabilidade econômica e ambiental visando a autonomia do povo Ashaninka e da região.

No âmbito do Centro de Pesquisa Indígena, com a centralização de um pequeno espaço isolado, começamos efetivamente o reflorestamento de nossa região, na qual foram plantadas mais de 80 mil mudas com uma diversidade de 146 espécies de árvores frutíferas e madeiras de leis, onde se pode em um ano tirar mais de 50 toneladas de alimentos para a comunidade.

Dentro desse trabalho de Sistemas Agroflorestais foi consorciada uma diversidade de espécies tais como apicultura, manejo de peixes em rios e lagos, além do manejo da fauna e flora.

Nossa luta em defesa do nosso território trouxe hoje uma nova reflexão para ampliar o conhecimento desse equilíbrio sustentável, mobilizando seminários e encontros nacionais e internacionais com outros parentes indígenas para defender o nosso território de onde tiramos nosso alimento e toda nossa sustentabilidade.

A necessidade de difundir este conhecimento acumulado pela comunidade Apiwtxa para a população da região, que inclui uma Reserva Extrativista, um Parque Nacional e outras terras indígenas, levou à criação de um projeto idealizado por Benki Piyanko, a partir de sua experiência como Secretário do Meio Ambiente do Município de Marechal Taumaturgo.

Esse projeto foi elaborado pelas lideranças da comunidade e chamado Centro de Formação Yorenka Ãtame – Saber da Floresta.

Com o apoio financeiro de alguns parceiros a comunidade Apiwtxa adquiriu uma área de 86 hectares em frente à sede do município de Marechal Thaumaturgo, onde está montada a estrutura física do Centro de Formação.

O projeto “Centro de Formação Yorenka Ãtame (Saber da Floresta)” foi inaugurado em julho de 2007. Ele é a continuação, fortalecimento e ampliação da longa luta do nosso povo para a proteção do meio ambiente e o desenvolvimento sustentável da região do Alto Juruá, uma das regiões mais ricas em biodiversidade do planeta.

Fruto da rica experiência do nosso povo com a sustentabilidade, o Yorenka Ãtame (Saber da Floresta) funciona como um centro de formação, educação, intercâmbio e difusão de práticas de manejo sustentável dos recursos naturais da região do Alto Juruá.

Estamos apresentando um projeto do espaço Yorenka Ãtame, como uma oportunidade para a população do rio Juruá poder ver os modelos de uso dos recursos naturais de forma mais prática e técnica.

Esse projeto também é para fortalecer os conhecimentos tradicionais, para que a população tenha uma nova visão sobre a floresta. Esta visão é saber como usar os recursos naturais sem agredir o meio ambiente e a natureza, de forma que esse saber possa ser reconhecido como ciência de conhecimentos práticos, recuperando terras, florestas e animais, cuidando da biodiversidade em geral.

Para isso, vamos disseminar novos conhecimentos na área da sustentabilidade e formar jovens e adultos para trabalhar uma nova forma de manejo da floresta, manejo dos recursos naturais.

Vamos fazer manejo de fauna, de quelônio para repovoação, manejo de rios e lagos com espécies de peixes que vivem na região, manejo de abelhas nativas. manejo de sementes e também recuperação da floresta com plantios de frutíferas, restaurando áreas degradadas, manejo de espécies de madeira, sobretudo protegendo as águas de nossos rios e igarapés e diversos outros trabalhos, assim como estudar as leis ambientais.

Com isso visamos o nosso futuro e o futuro de novas gerações.


O Centro Yorenka Ãtame também está aberto para pessoas de outras instituições para seminários, intercâmbios, oficinas com projetos de educação, cultura, meio ambiente.

*Benki Piyãko, Vice-Presidente da Associação Apiwtxa e Coordenador do Centro Yorenka Ãtame – Saber da Floresta


29/09/2007

O Ibama intensifica fiscalização na região do Vale do Juruá

Marcos são reavivados em operação binacional entre Brasil e Peru para garantir a segurança da região de fronteira

por Sandra Assunção*

A fiscalização nas cidades do vale do Juruá começou há 15 dias e até agora já foram descobertos cerca de 2,5 mil hectares de desmate. A direção do Ibama acredita que 70% do desmate seja ilegal, efetuado sem a autorização do Ibama. Os donos das terras devem comprovar a legalidade da derrubada. O gerente do órgão em Cruzeiro do Sul, Márcio Venícius relata que muitas delas foram realizadas na área do projeto de assentamento Santa Luzia. Ele quer propor uma parceria com o Incra na fiscalização destas terras.

A atenção das autoridades ambientais e militares se volta também para a área de fronteira entre Brasil e peru. É comum a retirada de madeira brasileira por madeireiros peruanos, que agora executam um plano de manejo na área que eles afirmam ser de propriedade daquele país. As autoridades brasileiras afirmam que a região de exploração está em solo nacional.

MARCOS DE FRONTEIRA

Para evitar dúvidas, o exército brasileiro reaviva os marcos da fronteira entre os dois países datados de 1926. O trabalho é feito por trinta homens do Ministério das Relações Exteriores do Brasil e Peru e da unidade do exército de Cruzeiro do Sul. Eles usam barcos e helicópteros para descer de rapel e resgatar os marcos no meio da floresta fechada ou dentro de igarapés. Também estão sendo instalados novos marcos, enormes blocos de cimento para demarcar toda a área da fronteira entre o Brasil e o Peru dentro do território acreano.

*Sandra Assunção, Rádio Aldeia FM - Cruzeiro do Sul
Agência de Notícias do Acre, 26-09-2007 - 17h37

27/09/2007

Audiência na Câmara dos Deputados

Henrique Afonso defende fronteiras amazônicas*

A Comissão da Amazônia, Integração Nacional e de Desenvolvimento Regional da Câmara dos Deputados realizou uma audiência pública sugerida pela deputada Dalva Figueiredo PT/AP sobre “Fiscalização e Controle de Fronteiras da Região Amazônica”.

Foram expositores Flávio Montiel, Diretor de Proteção e Controle Ambiental do Ibama, Vice-Almirante Arnon Lima, Diretor de Política e Estratégia do Ministério da Defesa e Mauro Spósito, Coordenador de Operações de Fronteira da Polícia Federal.

Henrique Afonso apresentou um resumo da carta-denúncia dos Ashaninkas sobre a invasão de suas terras e de outras áreas indígenas em território juruaense-brasileiro, e ressaltou que o problema é recorrente, embora as operações conjuntas do Ibama, Polícia Federal, Exército tenham sido relevantes para amortecer a exploração ilegal de madeira por peruanos. Informou que no sobrevôo realizado no início da semana pelo Ibama foram vistos tratores e uso de motosserras nas proximidades da fronteira. Apresentou também os riscos das atividades de prospecção depetróleo no lado peruano, que podem contaminar o rio Juruá e Purus, a partir das cabeceiras dos rios que nascem no Peru.

Para o deputado, é necessário que a diplomacia brasileira trate com mais vigor a questão com o governo do Peru, país cujas leis ambientais são "frouxas" e a livre concessão de exploração madeireira na fronteira com o Acre traz problemas novos como o estímulo ao deslocamento de indígenas peruanos avançando sobre áreas indígenas em território brasileiro, ocasionando conflitos entre os grupos indígenas. "Num contexto mundial importante sobre mudanças climáticas, é preciso um programa sistemático de defesa de nossas fronteiras, de nossas florestas, de nossos indígenas, de nossos ribeirinhos, inclusive envolvendo os demais países fronteiriços da Amazônia", afirmou Henrique.

Direto do AC24 Horas
Rio Branco, quinta, 27 de setembro de 2007



26/09/2007

Eles existem

Amigos,
enquanto o Peru, com sua política econômica de intensa exploração da floresta, alimenta empresas como a Forestal Venao que não respeitam planos de manejo nem o Território do Brasil, nós que vivemos na floresta da fronteira Brasil-Peru estamos todos em constante ameaça. E, entre nós, estão as populações de índios isolados. Vejam as informações mais recentes que o jornalista Altino Machado publicou em seu blog a respeito da existência dos índios isolados na região.



ELES EXISTEM

por Altino Machado*

Embora precárias, as fotos abaixo servem para dissipar eventuais dúvidas quanto à existência de índios isolados na fronteira Brasil-Peru.















Na terça-feira passada, funcionários peruanos da Intendência de Áreas Naturais Protegidas do Instituto Nacional de Recursos Naturais sobrevoaram o rio de Las Piedras.

Avistaram a um grupo de cinco tapiris construídos recentemente com folhas de palmeiras na margem esquerda do rio. Avistaram, ainda, a um grupo de 21 indígenas, entre mulheres, crianças e jovens, que saíram para ver o avião, mas logo se dispersaram. Havia outros cinco acampamentos abandonados nas duas margens do rio. Devido à estiagem, os índios isolados acampam nas praias, onde se alimentam de ovos de tartarugas.

Os índios isolados se deslocam entre as cabeceiras das bacias dos rios Sepahua, Inuya, Mapuya e Juruá, a norte; no médio curso dos rios Manu, Los Amigos, Las Piedras e Tahuamanu, ao sul; a oeste, chegam às cabeceiras dos rios Dorado, Serjali, Camisea, Timpia e Ticumpinia; e, a oeste, atravessam a fronteira Peru-Brasil. Para eles não existem limites políticos nem nacionalidades.



















*Altino Machado, 25/09/2007
Direto do Blog do Altino


23/09/2007

Exigimos ser ouvidos pela SmartWood/Rainforest Alliance


Aldeia Apiwtxa, 22 de setembro de 2007.

Amigos,

Saí da nossa aldeia dia 17 de setembro com outros líderes Ashaninka, Wewito, Moisés, David, Valdecir e Sooro, para ver as invasões que estão acontecendo no Igarapé Revoltoso, entre os marcos 42 e 43.

Ficamos nesse local até o dia 19 e retornamos dia 20 para a aldeia. Vimos vários caminhos usados para procurar madeira, ouvimos barulho de motoserra e muitos vestígios de caçada.

Nós não demos continuidade à nossa caminhada para evitar encontrar e evitar um conflito com os madeireiros.

Nós tivemos informações que são pequenos grupos de pessoas que são mandados por grandes empresas para tirar madeira roubada de nossa terra.

O tamanho da área que avançaram com seus caminhos deu para perceber que futuramente a destruição vai ser bem maior.

Estamos planejando uma outra ida, com mais pessoas, para destruir todos os locais e expulsar quem estiver invadindo nossa terra.

Nessa viagem ao Revoltoso, mais uma vez, deu para ver o tamanho da invasão e que já chegaram na antiga destruição feita pelos Cameli, em 1985 e 1987, já entrando em uma área que fica entre o rio Revoltoso e o rio Amoninha.

Até hoje estamos aguardando uma reunião com a SmartWood/Rainforest Alliance, que certificou com o padrão FSC a empresa Forestal Venao, principal responsável pelos desmatamentos ilegais na nossa área.

Queremos falar das invasões da empresa Forestal Venao, que vem invadindo nossa fronteira e nossa terra com máquinas pesadas, derrubando a floresta, retirando a madeira, poluindo nossos rios e igarapés.

Mas nada nos informam sobre a auditoria que a SmartWood faria no lado peruano para investigar as invasões da Forestal Venao. Nem sabemos se a vistoria já foi realizada, de que forma foi feita, qual o cronograma dos deslocamentos, os locais efetivamente visitados e os resultados.

Queremos uma resposta o mais rápido possível a respeito da vinda da equipe da SmartWood responsável pela investigação.

Exigimos ser ouvidos. Queremos uma reunião com a SmartWood, aqui na região, sobre as invasões. Queremos que vejam com os próprios olhos as áreas no Brasil da região de fronteira, dentro da terra Ashaninka, e até mesmo dentro da Reserva Extrativista do Rio Juruá, invadidas pela madeireira peruana Forestal Venao.

E, se vierem, nós mesmos podemos ir junto mostrar onde ficam e como crescem todos os dias as áreas invadidas e a nossa floresta derrubada. Podemos também chamar os amigos da Foz do Breu e da Reserva Extrativista, para que eles mesmos mostrem o estrago que a Forestal Venao vem fazendo nas áreas deles.

Queremos que a SmartWood constate por si mesma as derrubadas de madeira em Território brasileiro pela madeireira peruana Forestal Venao.

Nós sabemos que uma só visita será suficiente para que a SmartWood/Rainforest Alliance cancele imediatamente a certificação florestal que deu à empresa Forestal Venao.

Isaac Piyãko
Líderança do Povo Ashaninka do Rio Amônia


Notícias da Cooperativa Ashaninka Ayonpare



Ashaninkas abrem loja em shopping e dão exemplo de empreendedorismo

por Sandra Assunção*


A loja Apiwtxa dos índios Ashaninka do Rio Amônia fica em um Shoping Center no centro de cruzeiro do sul. Bolsas, cusmas (a vestimenta tradicional dos Ashaninka, feita de algodão pelas mulheres da aldeia) tambores, pulseiras, colares, cachimbos e CDs E Dvds gravados por eles, são alguns dos artigos vendidos na loja, inaugurada em abril deste ano. Uma cusma masculina, por exemplo, é vendida por R$ 400,00 e as femininas saem por R$ 150 e R$ 200.

Os Ashaninka já fazem e vendem artesanato na aldeia desde 1992, quando a associação dos moradores foi fundada no local. Várias peças são vendidas em duas lojas de São Paulo e há muita encomenda da França e da Alemanha. Em cruzeiro do sul o artesanato era vendido em uma residência, mas com o aumento das encomendas e por causa da escola Yorenkã atame, recentemente inaugurada pelos Ashaninka em frente á sede do município de Marechal Taumaturgo, houve necessidade da abertura da loja.

As vendas, segundo a administradora Alexandrina Pinhanta, estão boas. “Além de pessoas de foram, muita gente de Cruzeiro do Sul procura nosso artesanato. Fazemos também vendas em abertura de eventos e continuamos nossas vendas em outros estados e países. Um empresário de Fortaleza esteve aqui recentemente e levou muitas peças para vender e também para compor um museu do nordeste”, relata.

Alexandrina lembra que o artesanato, desde a década de 90, é responsável pela manutenção do “dia a dia” da Aldeia Apiwtxa no Rio Amônia, próximo a Marechal Taumaturgo, onde vivem cerca de 500 índios. “Lá se planta, há a caça e a pesca, mas há necessidade de outros insumos para manter tanta gente e o artesanato sempre garantiu renda para nossa Associação”, conta Alexandrina.

Francisco Pinhanta, um dos líderes dos Ashanika e atual assessor indígena do governo do Estado, diz que o acesso á equipamentos como computadores, motores de energia, GPS e outros, por meio do artesanato, garantiram também uma boa comunicação com o mundo externo. A tecnologia possibilitou a denúncia de crimes ambientais e a divulgação de várias ações desenvolvidas na aldeia, o que atraiu muita gente. A Aldeia Apiwtxa tem escola e posto de saúde, além de um telefone público-comunitário.

EMPREENDEDORISMO NA FLORESTA

O empreendedorismo dos Ashaninka começou pelo aspecto ambiental. Com as terras constantemente invadidas por madeireiros peruanos, eles apostaram na organização e na defesa sistemática de seu território e do meio ambiente. Desenvolveram métodos de manejo que garantem peixes, animais e recursos madeireiros e não madeireiros de forma sustentável. Conseguiram denunciar as invasões em viagens e por meio do telefone e também da internet, instalados na aldeia. Os equipamentos foram conseguidos, em grande parte, com recursos do artesanato.

Para abrigar pesquisadores, ambientalistas e outros visitantes da aldeia, por causa dos problemas ambientais, os Ashaninka construíram em 2005, em parceria com Governo do Estado, uma pousada com cozinha e banheiros com água encanada. A pousada já recebeu visitantes ilustres e autoridades políticas, militares e ambientalistas.

Em julho deste ano, um novo empreendimento: a Escola Saberes da Floresta _ YORENKÃ ATAME – Saberes da Floresta - localizada em frente á sede do município de Marechal Taumaturgo. O objetivo da escola é ensinar índios e brancos, práticas como o manejo florestal, de animais, coleta de sementes, artesanato e outros. Um curso de Agente Agro florestal foi ministrado para cerca de 100 seringueiros e ribeirinhos da localidade por Benki Ashaninka, que desenvolve manejo agro florestal na aldeia desde a década de 90. Na aldeia também há criação e manejo de peixes e quelônios para repovoar os rios. A apicultura é outra atividade que garante mel para o consumo da aldeia.

VISITAS ILUSTRES

A Escola Yorenkã atame foi idealizada pelos índios com vários parceiros como o casal de antropólogos Mauro e Daniela Almeida, da Universidade de Brasília, o vice-presidente do IBOPE e da WWF, Luis Paulo Montenegro, Txai Antônio Macêdo, educadora Vera Olinda e muitos outros. Os recursos vieram de várias fontes e hoje a escola tem estrutura completa de salas, bibliotecas e equipamentos modernos para a realização de cursos. No inicio de agosto a ex-primeira dama da França, Daniele Miterrand, ficou dois dias na escola. Ela, que preside uma ONG ambientalista, foi conhecer a realidade do local, para tentar mudanças nos critérios que medem índices de qualidade de vida de todo o planeta.

Ela ficou encantada com as ações da escola e com o artesanato Ashaninka “ Aqui no meio da floresta, onde não há elevadores ou creches, há sim qualidade de vida dentro dos costumes tradicionais dos índios, seringueiros e ribeirinhos”, declarou a ex-primeira dama da França Daniele Miterrand, que dormiu uma noite na escola indígena o meio da floresta amazônica.

*Sandra Assunção, Página 20, Sebrae-Página do Empreendedor, Rio Branco, 23/09/2007


10/09/2007

Índios isolados na fronteira Brasil-Peru e as madeireiras peruanas

O jornalista Altino Machado entrevistou, no último dia 2 de setembro, o sertanista José Carlos dos Reis Meirelles, que chefia a Frente de Proteção Etno-Ambiental do Alto Envira, na fronteira do Brasil com o Peru.

Assista aqui a entrevista de Meirelles sobre a ameaça vivida pelos índios isolados na região e a relação com as madeireiras peruanas.

30/08/2007

Apiwtxa recebe Danielle Mitterrand

por Líbia Almeida*

O Povo Ashaninka do Rio Amônia, na próxima semana, receberá na Aldeia Apiwtxa a visita de Danielle Mitterrand, presidente da Fondation France Libertés.

Acompanhada de sua comitiva e de representantes do Governo do Estado do Acre, Danielle também visitará o Yorenka Ãtame – Centro de Saberes da Floresta recentemente inaugurado pela Apiwtxa para promover a qualidade de vida dos povos da floresta, por meio de oficinas de geração de alternativas econômicas sustentáveis e valorização das culturas locais.

A presidente da Fondation France Libertés também sobrevoará, com técnicos do Ibama e do Exército brasileiro, a terra Ashaninka e a fronteira do Brasil com o Peru, para reconhecimento das áreas onde estão ocorrendo as invasões de madeireiras peruanas e a exploração ilegal de madeira.

O encontro de Danielle com o Povo Ashaninka é, há muito tempo, esperado pela Comunidade Apiwtxa. Houve pelo menos três encontros com lideranças da Aldeia ensejando este grande acontecimento.

Este ano, durante o Encontro das Águas de Março, em comemoração ao Dia Mundial das Águas, no Espaço Tom Jobim, no Jardim Botânico do Rio de Janeiro, a liderança Benki Piyãko convidou-a pessoalmente para conhecer o Povo Ashaninka e colaborar com as iniciativas da Comunidade para a conservação da floresta e valorização dos conhecimentos tradicionais dos povos da floresta.

O convite foi novamente feito durante um café da manhã em Brasília, também no mês de março, que reuniu Danielle, seus assessores, Francisco Pinhanta, Moisés e Benki Piyãko, também estavam presentes os amigos Ailton Krenak, João Fortes e Leila Soraya Menezes.

Este café da manhã também coroava uma importante campanha que a Comunidade Apiwtxa havia realizado em Brasília, que consignou a condenação do ex-governador do Acre, Orleir Cameli, por ter desmatado cerca de 30% de floresta na Terra Ashaninka.

Mas, mais recentemente, dessa vez na França, estiveram com Danielle as lideranças Valdete Piyãko (Bebito) e Alexandrina Pinhanta Ashaninka, quando estes representavam no Festival de Cinema Autres Brésils, o filme Shomõtsi, cuja apresentação contou com a presença de Danielle que também participou da mesa de debate “A situação dos indígenas”, em seguida à apresentação do filme.














Jantar entre Danielle Mitterrand, João Fortes, Bebito Piyãko, Alexandrina Pinhanta e outros, antes da apresentação do filme Shomõtsi, dirigido por Bebito Piyãko, no Festival Autres Brésils. 06 Junho/2007, Paris, França.














Palestra de Danielle Mitterrand, Bebito Piyãko, Alexandrina Pinhanta e outros, durante o Festival de Cinema Autres Brésils. 06 junho/2007. Paris, França.

A Presidente da Fondation France Libertés, Danielle Mitterrand, será muito bem vinda na Aldeia Apiwtxa.


*Líbia Almeida, Assessora Técnica da
Apiwtxa Associação Ashaninka do Rio Amônia


29/08/2007

Um tiro na fronteira

por José Carlos dos Reis Meirelles*

Ainda hoje cedo conversava com meu amigo Altino Machado sobre a exploração de madeira pelos peruanos na região da fronteira e também li no blog dele um apelo dos ashaninka do Amônea, sobre a existência de índios peruanos armados, a mando dos madeireiros, querendo matar os índios que são contra a exploração de madeira.

Nas cabeceiras do Envira, onde trabalhamos, de uns tempos para cá, passamos a ouvir muitos tiros. Alguns índios foram vistos, mas suas aparências não têm qualquer semelhança com a dos índios isolados que conhecemos. Ainda durante a conversa com o jornalista, disse que esta história vai acabar mal.

Pois bem, hoje recebo pelo rádio, às 16 horas, do pessoal da Frente de Proteção Etno-Ambiental (foto), a notícia de dois trabalhadores que receberam um tiro quando retornavam, de canoa, de uma caçada, próxima à sede da frente.














Felizmente o chumbo passou de raspão e deu nágua.

Tiro de cartucho de fábrica, de grosso calibre. Não há a mínima possibilidade de que seja de caçadores. A área é distante e para caçar é preciso ir de canoa. O fato ocorreu acima da base da Frente de Proteção Entno-Ambiental.

Já havia alertado uma vez que alguns "índios isolados", com muitas aspas, que estão transitando no alto Envira, poderiam ser índios aculturados, moradores do Peru, a mando dos madeireiros. Agora isso acontece!

Eu já levei uma flechada, nossos trabalhadores também. Agora tiro. É o início de um grande desastre que está por acontecer nas fronteiras. Conosco, com os ashaninka, ou com qualquer um que resida ou trabalhe na região.

Será que, além da invasão para retirar madeira em nosso país, os madeireiros peruanos vão nos matar a tiros, dentro de nosso território? Se nada for feito, acontecerá, mais breve do que se possa imaginar. Mais uma vez fica o alerta. Esperamos rapidez na prevenção e não no resgate de corpos.

*José Carlos dos Reis Meirelles chefia a Frente de Proteção Etno-Ambiental da Funai na fronteira do Brasil com o Peru. Direto do Blog do Altino

27/08/2007

Ameaças de morte na fronteira

Amigos,
mais uma notícia das mais graves na fronteira Brasil-Peru.
Recebemos a informação de que índios peruanos estariam atacando moradores da Reserva Extrativista do Rio Juruá que acompanharam, como guias da expedição, a última operação de fiscalização na nossa fronteira.
Essa é mais uma notícia para o blog porque, mesmo que ainda tenhamos pouquíssima informação à respeito, a gravidade da notícia justifica ficarmos todos em estado de alerta, e alertarmos, por meio de divulgação, todos que estão conosco acompanhando os acontecimentos da fronteira, e temos que divulgar, especialmente, para as organizações indígenas do Peru.
Também queremos agradecer a todos que já repercutiram, inclusive contando com o auxílio de outras fontes, as informações que trazemos agora.




Marechal Thaumaturgo, 15 de agosto de 2007.

Sr Francisco Pinhanta
Assessor de Assuntos Indígenas do Estado do Acre,

1. Através da Associação Apiwtxa venho informar que hoje, aqui em minha casa, esteve o senhor Isaac Machado de Azevedo, Tenente do 61 Bis, que me informou que, no dia 11 de agosto de 2007, o senhor Manoel Gomes Viana, morador da comunidade da Pedra Pintada, informou que alguns índios peruanos estavam querendo lhe matar, pois eles souberam que o senlhor Manoel participou como guia da operação do IBAMA com o EXÉRCITO, que havia denunciado a retirada ilegal de madeira na fronteira Brasil-Peru.

2. Entre outros, o senhor Manoel informou-nos que ficou sabendo da ameaça de morte através do seu genro Matiturã, abordado por oito índios peruanos armados de espingardas e flexas, onde um elemento de prenome Ernesto, filho do Davi, abordou por trás o seu genro e disse-lhe que estava à procura do senhor Manoel para lhe matar e disse ainda que só iria embora depois que matasse o referido.

3. Informo-vos, ainda, que esses índios supracitados são moradores da comunidade Santa Rosa, Peru, localizada abaixo do Tipisca, também Peru.

4. Através deste ofício queremos com urgência uma reunião na fronteira Brasil-Peru para que um conflito não venha acontecer na forma como está sendo explicitada pelo senhor Isaac Machado Azevedo.

Como líder da comunidade Apiwtxa, vejo que isso é um jogo sujo da empresa Forestal Venao, por estar manipulando nossos parentes indígenas para entrar em conflito com o nosso país brasileiro, ameaçando pessoas e comunidades, defendendo sua empresa.

Esperamos uma ação imediata do Itamaraty, trazendo a responsabilidade dos dois países para eliminar este tipo de invasão que vem trazendo uma ação de destruição conflituosa entre os dois países.

Benki Piyãko
Vice-Presidente da Associação Apiwtxa


24/08/2007

A gente luta mas come fruta












1º Lugar do Prêmio Panamazônia ActionAid 2007, o filme A gente luta mas come fruta, de Bebito Piyãko Ashaninka e Isaac Piyãko Ashaninka.

Produzido pelo projeto Vídeo nas Aldeias, o filme A gente luta mas come fruta "mostra o manejo agroflorestal realizado pelos índios Ashaninka na sua comunidade no rio Amônia, no Acre. Eles mostram como estão trabalhando para recuperar os recursos da terra, muito explorada pelos brancos".

A premiação ocorrerá no próximo dia 28 de agosto, às 18h, no Museu da República, Rio Janeiro. (Saiba mais aqui)







10/08/2007

Compromisso assumido por lideranças indígenas do Acre e Ucayali


Amigos,

nos dias 15 a 17 de setembro do ano de 2005, na aldeia Apiwtxa, reunimos lideranças indígenas dos povos Ashaninka, Kaxinawá, Kulina, Mastanawa, Sharanawa, Nukini e Katukina, que vivem em territórios situados na região fronteiriça do Estado do Acre, Brasil, e Departamento de Ucayali, Peru.

foto Papo de Índio
Estávamos todos muito preocupados com o impacto das atividades madeireiras peruanas na região, como ficariam as populações e a biodiversidade das terras indígenas? Entendíamos que era necessário e urgente envolver os governos e os diferentes grupos da sociedade civil do lado peruano e do lado brasileiro.

Mas a maior motivação da reunião das lideranças indígenas na Aldeia Apiwtxa foram acontecimentos, na Aldeia Sawawo, de revolta da população indígena, que provocou a mobilização de 50 guerreiros Ashaninka dispostos a avançar em direção aos acampamentos de madeireiros ilegais. Nós sabíamos que um confronto direto seria certamente desigual, podendo ocasionar mortes de ambos os lados.

Esta reunião foi um grande momento para fazer participar os povos indígenas na discussão da sua situação face à extração madeireira e outras atividades ilícitas nos territórios indígenas e nas unidades de conservação na região de fronteira. E contribuiu para fortalecer a articulação das lideranças da Apiwtxa com líderes Ashaninka das comunidades nativas dos rios Enê, Juruá, Vacapistea, Tamaya e alto Amônia.

Os compromissos assumidos pelas lideranças indígenas do Acre e Ucayali durante estes dias de setembro de 2005 foram amplamente divulgados (veja, por exemplo, o destaque dado pela coluna
Papo de Índio, em artigo assinado por Marcelo Piedrafita Iglesias, aqui).

No entanto, ao que tudo indica, as preocupações das lideranças indígenas e os compromissos assumidos durante a reunião de 2005 não lograram alcançar a tempo a SmartWood/Rainforest Alliance, que, em abril deste ano de 2007, concedeu certificação à Forestal Venao - empresa peruana responsável pelas principais atividades madeireiras ilegais na região de fronteira Brasil-Peru e que há vários anos invade o Território brasileiro para extrair madeira de maneira ilegal nas florestas da Terra Indígena Kampa do Rio Amônia e outras áreas protegidas no Estado do Acre.

Por isso, divulgamos, novamente, os compromissos comuns que as lideranças indígenas do Acre e do Ucayali assumiram, em 2005, para tentar deter as atividades madeireiras ilegais na região - e que permancem ainda hoje.



Aldeia Apiwtxa, Terra Indígena Kampa do Rio Amônia, Marechal Thaumaturgo, Acre, Brasil, 17 de setembro de 2005.

fotos Papo de Índio
COMPROMISSOS COMUNS DAS LIDERANÇAS INDÍGENAS DO ACRE E UCAYALI A RESPEITO DAS ATIVIDADES MADEIREIRAS ILEGAIS E PARA A INTEGRAÇÃO FRONTEIRIÇA

1. Dar prosseguimento aos canais de diálogo e intercâmbio de experiências entre povos indígenas e outros povos da floresta, dos dois lados da fronteira Brasil-Peru.

2. Colaborar na identificação e implementação de estratégias de aproveitamento produtivo sustentável dos territórios indígenas, de maneira a garantir fontes de subsistência e de comercialização e a abrir alternativas à exploração madeireira realizada de forma ilegal.

3. Buscar garantir a presença e participação informada de representantes indígenas nas reuniões técnicas do Fórum para a Integração Acre-Ucayali para discussão da integração e do desenvolvimento fronteiriço, de maneira a incorporar as demandas e projetos indígenas nas políticas resultantes, que devem priorizar investimentos econômicos, ambientais e sociais para a conservação da biodiversidade e a garantia dos direitos territoriais indígenas, e que não tenham como ponto de partida a discussão em torno da construção da estrada Pucallpa-Cruzeiro do Sul.

4. Defender políticas de segurança jurídica e de vigilância dos territórios ocupados por povos indígenas, inclusive aqueles em isolamento voluntário, que vivem ao longo da fronteira Brasil-Peru.

O QUE OS POVOS E ORGANIZAÇÕES INDÍGENAS DO VALE DO JURUÁ E AS DEMAIS ORGANIZAÇÕES DO GT PARA PROTEÇÃO TRANSFRONTEIRIÇA OFERECEM AOS POVOS INDÍGENAS DO LADO PERUANO

1. Dar ampla divulgação a demandas e reivindicações dos povos indígenas que vivem na fronteira peruana para a proteção do seu território, dos seus direitos e sua identidade.

2. Disposição de assinar uma carta em conjunto endereçada à Comissão de Direitos Humanos da Organização das Nações Unidas (ONU), instituição na qual será buscado proteção aos territórios e à vida dos povos indígenas, inclusive dos que se encontram em isolamento voluntário e dos povos da floresta que habitam em ambos os lados da fronteira Acre-Ucayali.

3. Oferecer aos povos indígenas peruanos da faixa de fronteira a experiência e conhecimento acumulados pelas organizações brasileiras, por meio de cursos de capacitação e intercâmbios, com critérios de seleção, oferecidos pelo GT e OPIAC, AMAAIC, CPI-ACRE, ASATEJO, ASAJURUÁ, OPIRJ, Secretaria de Meio Ambiente e Turismo de Marechal Thaumaturgo, SEPI.

4. Desenvolver, manter e fortalecer a articulação com lideranças indígenas peruanas para a ampliação de sua participação nas discussões quanto à proteção da biodiversidade, dos direitos e das condições de vida das populações que vivem na faixa de fronteira.

5. Fazer respeitar os limites da fronteira Brasil-Peru.

COMPROMISSOS DOS POVOS INDÍGENAS PERUANOS DA ZONA DE FRONTEIRA NO ÂMBITO DO PROCESSO DE INTEGRAÇÃO

1. Com relação aos TERRITÓRIOS
· Defender os territórios dos povos indígenas;
· Cooperar com os processos de saneamento físico legal desses territórios;
· Apoiar a processos de exclusão das concessões florestais sobrepostas nos territórios dos povos indígenas.

2. Com relação aos RECURSOS NATURAIS
· Proteger a biodiversidade e uso sustentável dos recursos naturais de nossos territórios e reservas comunais;
· Combater a extração ilegal de madeira;
· Constituir Comitês de Vigilância Comunal;
· Constituir uma Frente de Defesa, que compreenda as bacias dos rios Purus, Juruá, Amônia, Tamaya e Sheshea.

3. Com relação à ORGANIZAÇÃO COMUNAL
· Fortalecimento de organizações comunais de base local;
· Articular as bases comunais com suas organizações federativas: FECONAPU, ACONADISH, ACONAMAD e ARPAU;
· Fortalecer as organizações dos professores indígenas EBI-ANAMEBI;
· Promover e fortalecer alianças com povos e organizações indígenas tanto do Estado peruano quanto do Brasil.

PROPOSTAS DE COMPROMISSO PARA O ESTADO PERUANO

· Demandar uma maior presença do Estado peruano em zonas de fronteira;
· Exigir do Estado a implementação de mecanismos eficazes para garantir os territórios dos povos indígenas;
· Implementar políticas públicas viáveis em favor dos povos indígenas com ênfase em saúde, educação e recursos naturais;
· Implementar mecanismos eficazes de consulta e participação informada dos povos indígenas, e medidas administrativas e projetos econômicos que possam afeta-los, conforme estabelece a Convenção 169 da Organização Internacional do Trabalho (OIT);
· Exclusão das concessões florestais superpostas aos territórios indígenas;
· Suspensão das concessões minerais e petrolíferas nas bacias dos rios Abujao, Callería e Amônia e nas Reservas Territoriais Isconahua e Murunahua;
· Viabilizar a implementação de projetos produtivos alternativos e sustentaveis à atividade florestal madeireira;
· Exigir reconhecimento dos Comitês de Vigilância Comunal, de base local, e da Frente de Defesa Fronteiriço, por parte do Estado peruano.

PROPOSTAS DE COMPROMISSO PARA AMBOS OS ESTADOS (BRASIL - PERU)

· Implementar uma política comum bifronteiriça para conservação do meio ambiente e biodiversidade, e efetiva proteção aos direitos dos povos indígenas, que incorpore a plena participação desses povos, desde a concepção à implementação;

PROPOSTA DE COMPROMISSO DAS ONGs DE AMBOS OS PAÍSES

· Oferecer apoio técnico e financeiro a estes compromissos assumidos pelos povos indígenas;
· Difusão de demandas dos povos indígenas através dos meios de comunicação a fim de gerar fatos políticos;

RECOMENDAÇÕES GERAIS PARA ACRE E UCAYALI

· Assegurar o cumprimento de compromissos assumidos quanto à efetiva participação dos diferentes atores (Estados, povos indígenas e sociedade civil) no marco do processo de integração engendrado pelos Governos de Ucayali e Acre;
· Garantir uma efetiva articulação entre as ações da Secretaria Técnica Acre-Ucayali com as propostas do Fórum para a Integração Ucayali-Acre;
· Ambos os governos devem facilitar recursos financeiros e logísticos para viabilizar a participação das organizações indígenas nas reuniões do Fórum para a Integração.

Assinam:

BRASIL
Associação Ashaninka do Rio Amônia - Apiwtxa; Secretaria Extraordinária dos Povos Indígenas do Acre - SEPI; Organização dos Professores Indígenas do Acre - OPIAC; Associação do Movimento dos Agentes Agroflorestais Indígenas do Acre - AMAAIAC; Comissão Pró-Índio do Acre - CPI Acre; Organização dos Povos Indígenas do Rio Juruá - OPIRJ; Associação dos Povos Indígenas do Rio Humaitá - ASPIRH; Associação dos Produtores e Criadores Kaxinawá da Praia do Carapanã - ASKPA; Aldeia Ashaninka Morada Nova do Rio Breu; Associação Agroextrativista do Rio Tejo - ASATEJO; Associação Agroextrativista do Rio Juruá - ASAJURUA; Fundação Nacional do Índio - FUNAI; SOS Amazônia; Secretaria de Meio Ambiente e Turismo de Marechal Thaumaturgo

PERU
Defensoria del Pueblo - Ucayali; Comisión de Derechos Humanos de Purus; Organización Regional de Pueblos Ashaninkas de Ucayali - ARPAU; Asociación de Profesionales Bilíngües Indigenas de Yurua - APROBY; Word Wildlife Found de Yurua

Bacia do Yurua
Comunidad Nativa de Sawawo; Comunidad Nativa Nueva Shahuaya; Comunidad Nativa Dulce Gloria; Comunidad Nativa Breu; Comunidad Nativa Paititi; Comunidad Nativa Coshireni

Bacia do Sheshea
Comunidad Nativa Capiroshari

Bacia do Tamaya
Comunidad Nativa Alto Tamaya; Comunidad Nativa Nueva Califórnia de Shatanya; Comunidad Nativa Cametsari Quipatsi

Bacia do Purus
Comunidad Nativa Shalom de Shambuyacu; Comunidad Nativa Catay; Comunidad Nativa Conta; Comunidad Nativa Cantagallo



05/08/2007

Forestal Venao investigada no Peru e no Brasil


A Forestal Venao, empresa madeireira peruana que há vários anos invade o Território brasileiro para extrair madeira de maneira ilegal nas florestas de nossa Terra Indígena Kampa do Rio Amônia e, neste ano, com maquinário pesado, tem invadido a Reserva Extrativista do Alto Juruá, enfim será investigada no Peru e no Brasil.

A investigação do lado brasileiro está a cargo do Imaflora. Esperamos que os órgãos do Governo brasileiro colaborem efetivamente com essa investigação, apresentando os documentos que resultaram de várias fiscalizações feitas na nossa região de fronteira, para confirmar, de maneira oficial, as invasões feitas pela Forestal Venao em nossa terra indígena e na reserva extrativista.

Da nossa parte, exigimos ser consultados desta vez, algo que não aconteceu antes da SmartWood/Rainforest Alliance ter concedido a certificação à Forestal Venao, em abril deste ano.

Esperamos que, com a confirmação das atividades ilegais da Forestal Venao em Território brasileiro, assim como no Peru, a sua certificação seja imediatamente cancelada, conforme compromisso assumido pela Rainforest Alliance.

Saiba mais sobre a investigação:

Aqui: "Esclarecimento do IMAFLORA sobre as possíveis atividades ilegais, realizadas no Brasil, pela empresa peruana Venao, com certificação FSC pelo Programa SmartWood"

E aqui: "Declaração do SmartWood/Rainforest Alliance sobre o Caso Venao"