11/04/2008

Amazônia Peruana: O começo do fim

Por José Carlos do Reis Meirelles Júnior

















Fui convidado pelos índios Ashaninka do rio Amônea para participar de uma reunião na aldeia Sawawo, nas cabeceiras do Rio Amônea, em território Peruano, praticamente a alguns metros além da linha de fronteira Brasil-Perú. Entre outras coisas seriam discutidas formas de desenvolvimento sustentável dos povos indígenas da fronteira, maneira delicada de dizer aos índios Ashaninka do Peru deixar de explorar madeira em suas terras.

Já sabia de antemão da presença de madeireiras legais e ilegais explorando mogno nas cabeceiras dos rios Juruá, Envira, Purus e seus afluentes. Mas tudo de ruim que imaginava não chega nem perto da realidade!

O que ocorre nesta região é um crime monumental contra a natureza, aos índios, a fauna e um atestado da mais pura irracionalidade de como nós, civilizados, tratamos o mundo, casa de todos nós.

Vamos por partes:

- A maioria das comunidades indígenas da Amazônia Peruana está envolvida com a exploração de madeira. De duas formas. Primeiro cedem suas terras para um Plano de Manejo Sustentável, em troca da regularização fundiária. O Governo Peruano reconhece as terras, mas não dá um tostão para regularizá-las. Os madeireiros fazem isso em troca de um plano de manejo. Segundo: são usados como mão de obra no serviço pesado da localização e corte da madeira.

- Os madeireiros plantam comunidades indígenas em pontos estratégicos, solicitam o reconhecimento das terras e as regularizam “para os índios” com o plano de manejo imediatamente após. Tudo de acordo com as leis Peruanas.

-Existem poucas madeireiras legais na região, como a VENAO, por exemplo, que explora madeira na comunidade Sawawo. Acontece que a maioria das madeireiras é ilegal, los ilegales, como chamam os patrícios peruanos. Como quase 100% da madeira são exportadas, e quem é ilegal não pode exportar quem está comprando toda esta madeira? As madeireiras legais, que fazem um plano de manejo bonitinho em uma comunidade, conseguem a certificação e exportam uma quantidade enorme de madeira certificada!

-Os madeireiros ilegais, além da madeira exploram a carne de caça e peixe, que são vendidos em Pucalpa.Toneladas de carne de caça, jabotis, couro de caça e peixe, são levados a Pucalpa para abastecer a cidade. O peixe está sendo pescado com dinamite nas cabeceiras dos rios. Por lá nada parece ser proibido!

-Da aldeia Sawawo, como exemplo, vai-se de caminhão até Nova Itália, na beira do Ucayali e daí pra Pucalpa. A região está toda cortada de “carreteras”, o que facilita o transporte de madeira, caça e o que mais se quiser levar.

-É tamanha a exploração de madeira que os madeireiros ilegais estavam roubando madeira do plano de manejo da aldeia Sawawo. Alguns Ashaninka se reuniram e parece que mataram alguns “ilegales”. Que também eram índios! Agora vigiam sua aldeia com uma guarda armada 24 horas por dia, com medo de retaliação e não podem mais subir o rio Amônea, nas cabeceiras, para pescar, com medo de serem mortos!

- Os índios da Amazônia Peruana estão metidos na exploração madeireira por pura falta de alternativa econômica e abandono do governo Peruano. Estão sendo algozes deles mesmos! Os madeireiros são o Estado na região. Esta é a triste verdade.

-As cabeceiras do Juruá, Purus e Envira, alem de abrigar várias comunidades indígenas conhecidas, abrigam, ou melhor, abrigavam, vários povos indígenas isolados, que em defesa de seu território atacam os invasores e estão sendo sistematicamente mortos pelos madeireiros, que também são índios contatados e bem armados pelas firmas madeireiras.

-Os povos isolados da região estão migrando para o território brasileiro, que na fronteira com o Peru é uma faixa contínua de áreas preservadas, na maioria delas terras indígenas. E do lado de cá, além dos índios contatados e moradores de reservas extrativistas existem índios isolados. Os migrantes vão encontrar então os mesmos personagens do lado de cá que mataram seus parentes de onde vieram. Por não saber distingui-los vão atacá-los e sofrer retaliações. De novo índios vão matar índios!

-No final do ano passado e início deste algumas agressões de grupos isolados a índios em território brasileiro já ocorreram. Além de ataques ao pessoal da Fundação Nacional do Índio (FUNAI) que cuida das terras dos isolados, no lado brasileiro.

-O Governo Brasileiro e o Governo Peruano sabem de tudo isso, mas não mexem uma palha para ao menos tentar solucionar a questão. Tudo fica nos protocolos de intenção, em atas de reuniões, em salas refrigeradas de encontros binacionais.

Para que os europeus e japoneses tenham seus móveis de madeira nobre e para os norte-americanos enterrarem seus mortos em caixões de mogno, uma das regiões mais lindas da Amazônia, que são as cabeceiras dos grandes tributários do Amazonas, os rios Juruá, Purus e Madeira (no Peru e Bolívia), as terras firmes, que eram reservas intocadas até bem pouco tempo, viraram uma região violenta, onde índios matam índios e a paz é uma lembrança distante.

Senhor Europeu, embutido em seu lindo móvel de mogno estão vários índios mortos.

Senhor Japonês, em sua linda casa de madeira de lei vagam fantasmas de povos isolados que morreram sem saber por que.

Senhor Norte-Americano, em seu caixão de mogno, além do cadáver do seu querido familiar estão sendo enterrados juntos outros tantos, de povos que não sabem de sua existência.

Quem sabe se a gente deixar de achar “chic” um móvel de mogno, de imburana, de ipê, de cedro rosa... Deixar de fazer varandas com esteios de maçaranduba e não se escandalizar com uma mesa de plástico, um pedaço considerável da Amazônia ainda possa ser preservado e os índios que restaram possam recolher os sobreviventes, refazer suas vidas e ser de novo um povo feliz!

Está em suas mãos.


Meirelles – Abril de 2008
Reproduzido do site da Biblioteca da Floresta Marina Silva (http://www.bibliotecadafloresta.ac.gov.br/biblioteca)

2 comentários:

Flores Online disse...

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Anônimo disse...

INDIGNAÇÃO TOTAL sobre esse assunto ,
ao invés de os PRESIDENTES se preocuparem
com essa tal crise econômica , deveriam abrir
os olhos para o nosso planeta ,esse sim
está em crise á muitos anos ,
NÃO QUEREMOS VER TODAS AS NOSSAS MATAS E FLORESTAS
IMPRESSAS NOS LIVROS DE HISTÓRIA FUTURAMENTE,
e um menino (pode ser até seu filho)lhe chega e pergunta ,
isso tudo existiu mesmo ?isso ainda existe ,
nos livros como este ,e na memória de quem um dia
se preocupou tanto com a preservação , mas suas palavras
não foram ouvidas . !